Silas Malafaia orienta o senador Flávio Bolsonaro, em conversa recente, a escolher uma mulher nordestina e não evangélica como vice na eleição de 2026. O pastor diz que a estratégia, revelada hoje, 13, busca ampliar o alcance eleitoral do filho do ex-presidente.
Pastor mira Nordeste e imagem familiar
Malafaia descreve o desenho da chapa em termos diretos. “Falei para o Flávio: você precisa escolher uma mulher do Nordeste”, afirma. A indicação não é apenas regional. Ele insiste em um perfil específico: uma “nordestina raiz”, expressão que usa para sinalizar identidade forte com a região, e fora do universo evangélico.
O cálculo, explica, é duplo. De um lado, tenta furar a resistência histórica ao bolsonarismo em estados nordestinos, decisivos desde 2018. De outro, quer reforçar a imagem pessoal do senador. “Eu disse para ele: ‘Essa escolha mostra que você é um cara de família, que não rejeita a mulher’”, relata o pastor.
Malafaia argumenta que uma chapa com dois evangélicos limitaria o alcance. “Que não seja evangélica, porque Flávio já é evangélico”, diz, ao defender a diversificação do perfil da candidatura. Ele sustenta que a presença de uma mulher do Nordeste, fora do seu próprio nicho religioso, funcionaria como sinal de abertura a outros segmentos do eleitorado.
Rejeição ao agro e ao empresariado na vice
O pastor afasta a ideia de uma vice ligada ao agronegócio ou ao setor empresarial, dois pilares tradicionais da direita. Para ele, esses nomes não trazem votos novos. Na avaliação de Malafaia, figuras associadas ao agro ou ao mundo corporativo “não vão somar” eleitoralmente a Flávio Bolsonaro.
O comentário atinge, ainda que indiretamente, duas cotadas para a vaga. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), forte representante ruralista, e a ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos-SP), com trajetória no mercado financeiro e na equipe econômica do governo Bolsonaro. Ambas circulam nas conversas de bastidor, mas não encaixam no modelo que o pastor vende ao senador.
A aposta de Malafaia é em identidade, não em currículos técnicos ou em redes econômicas. No diagnóstico dele, a eleição de 2026 exigirá símbolos fortes para romper bolhas eleitorais. Uma vice vista como expressão do Nordeste e da presença feminina teria mais efeito que alguém com trânsito consolidado no agronegócio ou nas empresas.
Lembranças de 2022 e recado ao bolsonarismo
O conselho a Flávio vem embalado por uma história que o pastor gosta de repetir. Em 2022, um mês antes da convenção presidencial, ele passa cerca de uma hora no Palácio do Planalto tentando convencer Jair Bolsonaro a mudar a composição da chapa. “Expliquei para ele que era de fundamental importância escolher um vice do Nordeste”, lembra.
Naquele momento, o então presidente já desenhava a disputa com Luiz Inácio Lula da Silva. Malafaia via na escolha regional do vice uma forma de reagir ao movimento do petista, que trouxera Geraldo Alckmin para reduzir a vantagem bolsonarista em São Paulo e equilibrar o mapa eleitoral.
O pastor advoga a favor do ex-ministro do Turismo Gilson Machado, pernambucano, mas Bolsonaro decide manter o general Walter Braga Netto. Malafaia diz ter elogiado o militar, definindo-o como “cara decente, um brasileiro fenomenal”, para em seguida cravar que “não somava nada à sua campanha”. No dia da convenção, segundo ele, o martelo já está batido e o presidente não recua.
A derrota de 2022 vira, na narrativa do pastor, uma espécie de prova de tese. Ele afirma que o resultado reforça sua convicção de que a composição da chapa precisa priorizar cálculos eleitorais, não apenas lealdades políticas ou afinidades pessoais. O conselho a Flávio, agora, nasce dessa leitura: repetir a mesma lógica, com ajustes de gênero e religião, para tentar obter efeito oposto nas urnas.
Influência religiosa e disputas internas
A intervenção de Malafaia expõe a força de líderes religiosos na engenharia eleitoral da direita brasileira. O pastor, figura central entre evangélicos alinhados ao bolsonarismo, fala da própria atuação com certa cautela pública. “É uma opinião que eu dei ao Flávio Bolsonaro. Eu não tenho o poder de decidir nada”, afirma.
A fala, porém, contrasta com o esforço detalhado que ele descreve, tanto em 2022 quanto agora. Sua tentativa de desenhar a chapa presidencial de Jair Bolsonaro e, depois, a chapa de Flávio, mostra que conselhos religiosos se misturam à estratégia política em momentos decisivos.
O desenho de uma vice nordestina, mulher e não evangélica também lança faíscas internas. Setores ligados ao agronegócio e ao empresariado, que investiram nas campanhas bolsonaristas e esperam espaço em chapas majoritárias, veem a sinalização como perda de prioridade. Ao mesmo tempo, lideranças evangélicas acostumadas a ocupar posições de destaque podem estranhar a defesa explícita de uma vice fora do seu campo de fé.
A movimentação reacende um dilema recorrente no bolsonarismo: manter a chapa homogênea, confortando a base mais fiel, ou arriscar uma composição mais ampla para buscar votos em territórios hostis, como o Nordeste.
O que está em jogo até 2026
O conselho de Malafaia chega em um momento em que o tabuleiro de 2026 ainda está em montagem, mas as peças principais já se movem. Flávio Bolsonaro testa narrativas e alianças para se firmar como herdeiro político do pai e, ao mesmo tempo, como figura com identidade própria.
A escolha da vice, vista por políticos experientes como detalhe de fim de processo, passa a ocupar o centro da conversa. A estratégia do pastor tenta antecipar essa decisão e amarrá-la a um diagnóstico específico: a necessidade de romper a barreira do Nordeste e dialogar com mulheres fora do núcleo bolsonarista tradicional.
Os próximos meses devem mostrar até que ponto o senador está disposto a seguir a receita. Se optar por um nome afinado com o agro ou com o empresariado, Flávio sinalizará que prioriza aliados clássicos e estruturas de campanha. Se escolher uma mulher nordestina, não evangélica, como defende Malafaia, tentará abrir uma frente nova, com risco de tensionar sua própria base.
A definição da chapa, quando vier, funcionará como termômetro da influência real do pastor no desenho do projeto político da família Bolsonaro e como prévia da disputa pelo eleitorado decisivo em 2026.