O ano político no Amazonas começou do jeito que um ano eleitoral costuma sinalizar. Com silêncio público e barulho nos bastidores. O governador Wilson Lima entrou no último ano de mandato evitando a pergunta que todo mundo faz, se vai ou não deixar o cargo em abril para disputar o Senado. Só que, na política, quando a palavra não vem, o gesto vira discurso. E foi exatamente isso que aconteceu na abertura do ano legislativo na ALEAM.
Wilson apareceu ao lado do vice-governador Tadeu de Souza, dividiu o palco, dividiu a cena e, principalmente, dividiu o protagonismo. Não foi um detalhe. Foi um recado. Nos bastidores do governo, essa imagem circulou como sinal claro de reorganização interna. Porque não é comum Wilson e Tadeu ocuparem juntos esse tipo de espaço público com tamanha exposição, ainda mais num momento em que a máquina inteira começa a se reposicionar para 2026. Wilson fez questão de citar nominalmente Tadeu e atribuir ao vice um papel central na interiorização das ações do governo, especialmente na área da saúde. Ao destacar os mutirões e os números de cirurgias oftalmológicas realizadas no interior, o governador não estava apenas prestando contas. Estava desenhando um roteiro. O subtexto é simples.
O interior é onde se decide eleição majoritária no Amazonas. E ao colocar o vice como figura operacional, presente e responsável por entregas fora da capital, Wilson começa a dar musculatura política para Tadeu num território onde se constrói voto e se consolida liderança. Isso, para quem acompanha os corredores do poder, tem cheiro de preparação. Tadeu fala como quem já se coloca na fila. O discurso do vice também chamou atenção. Foi institucional, contido, sem nenhum excesso e sem empolgação eleitoral. Mas com um tom típico de quem quer ser visto como peça indispensável na engrenagem do governo. Não foi fala de coadjuvante. Foi fala de alguém que quer ser percebido como continuidade administrativa, sem precisar dizer isso explicitamente. E nesse ponto, o governo acertou o tom. Porque o eleitorado, especialmente fora de Manaus, responde mais à sensação de estabilidade do que a disputa aberta por poder.
O silêncio de Wilson é cálculo, não dúvida. A dúvida real nos bastidores não é se Wilson será candidato. A dúvida é qual caminho ele escolhe e qual aliança ele fecha até abril.
O governador segura o jogo porque ainda tenta manter o controle total da transição. Ele sabe que, se anunciar cedo, perde margem de negociação. E ao mesmo tempo, precisa testar se o vice se sustenta politicamente, se o grupo aceita e se a base na Assembleia acompanha.
Wilson também deixou um recado interno quando, em paralelo, reforçou que secretários devem evitar política e focar na gestão. Na prática, esse tipo de ordem costuma ser menos moral e mais estratégica. Serve para impedir que o governo vire um campo de guerra antecipada, com gente fazendo campanha antes do chefe definir o próprio destino. Wilson vai sair ou fica? Hoje, o que se vê é um governador mantendo duas portas abertas. Uma para ficar até o fim e continuar como comandante formal. Outra para sair em abril e disputar o Senado, deixando o vice no cargo e o grupo político em modo campanha.
A cena na ALEAM sugere mais a segunda hipótese. Wilson não entregaria tamanho espaço simbólico ao vice se não estivesse preparando terreno. Ainda assim, ele não vai antecipar decisão. Vai até o limite do prazo, porque cada semana a mais no cargo significa mais controle da máquina, mais capacidade de articulação e mais força para definir quem entra e quem sai do jogo.
O Amazonas já começou 2026. Só falta o governador admitir em público aquilo que o bastidor já trata como caminho provável. O tabuleiro está armado. E a transição, mesmo sem anúncio, já teria começado.
Coluna — Davidson Cavalcante