Governador não mandou sinal, David desconversou sobre candidatura e a ausência de Tadeu de Souza virou o novo enigma da sucessão de 2026

O que era para ser apenas o tradicional ritual de abertura dos trabalhos legislativos na CMM, com a leitura da mensagem anual do prefeito, virou um verdadeiro episódio de bastidores
Redação NC News
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O que era para ser apenas o tradicional ritual de abertura dos trabalhos legislativos na CMM, com a leitura da mensagem anual do prefeito, virou um verdadeiro episódio de bastidores. Daqueles que a política amazonense adora. Um plenário lotado, imprensa até o tucupi, servidores, comissionados, curiosos e observadores profissionais, todo mundo ali com o mesmo objetivo: ler nas entrelinhas.

A pergunta era simples, mas a resposta vale milhões. David Almeida vai mesmo deixar a Prefeitura de Manaus para disputar o Governo do Amazonas ou vai bancar o aliado Tadeu de Souza, que pode assumir o comando do Estado no dia 4 de abril? E David jogou como quem sabe que qualquer frase fora do lugar pode virar munição.

O prefeito fez um discurso cauteloso, calculado, protocolar. Agradeceu a Carlos Luppi, do PDT, e Luís Tibé, do Avante, reforçando a ponte com os partidos que hoje orbitam o seu grupo político. Mas não confirmou candidatura ao governo e também não negou. Fez o que político experiente faz quando quer ganhar tempo: deixou a porta aberta e o povo atento. E ainda tratou de despistar, jogando duas peças no tabuleiro. Primeiro, lançou a possibilidade da própria filha, Fernanda Aryel, como pré-candidata a deputada federal pelo Avante. Depois, admitiu que Jesus Alves pode trocar o MDB pelo Avante e também disputar a Câmara Federal. Ou seja, David não está apenas pensando em 2026, ele já está montando estrutura. Está organizando as trincheiras.

Agora, um detalhe chamou atenção. O senador Eduardo Braga apareceu, mas com semblante sério, mais contido do que o habitual. Foi questionado sobre o alinhamento político e respondeu com aquela habilidade típica de quem nunca fecha uma porta sem antes abrir duas janelas. Braga disse que é aliado de David e de Omar Aziz, mas reafirmou compromisso com Omar. E aqui tem um ponto importante. Braga sabe que a disputa ao Senado será uma guerra. E guerra não se vence rompendo com todo mundo. Ele já mostrou isso em 2018, quando se reelegeu sem se comprometer formalmente com um lado. Foi um jogo frio, silencioso e eficiente. E parece que o roteiro está se repetindo. Mas se Braga foi presença estratégica, o que realmente virou a cereja do bolo foram as ausências. E não foi qualquer ausência.

O governador Wilson Lima não apareceu. E pior, não mandou ninguém do seu círculo mais próximo para representar o governo. Nenhum secretário forte, nenhum nome de confiança, ninguém de seu arco direto. E isso, na política, não é distração. É mensagem. Do outro lado, a ausência ainda mais comentada foi a do vice-governador Tadeu de Souza. Havia expectativa real de que ele estivesse presente. Era o movimento natural. Era o gesto óbvio. Mas ele não foi. Nos bastidores, circulou que Tadeu teria avisado horas antes que não compareceria, sem explicar muito. E isso gerou um silêncio obséquio no plenário. Porque a ausência dele não é neutra. Não é detalhe. É sinal. David, questionado, soltou uma frase em tom sereno, mas cheia de significado político. Disse que estará onde Tadeu estiver. Parece fidelidade, mas também pode ser cobrança. Pode ser aviso. Pode ser até uma tentativa de segurar o aliado, antes que ele escorregue em outro campo.

E aqui entra o elemento que deixa o cenário ainda mais intrigante. Na semana passada, na ALEAM, o clima em torno de Tadeu foi completamente diferente. Wilson fez elogios públicos, deputados ensaiaram proximidade, teve afago, teve sinalização. O presidente Roberto Cidade fez menção direta que acendeu especulações no meio político. Ou seja, na ALEAM, Tadeu foi tratado como peça central. Na CMM, ausência e silêncio em tom de observação. E isso levanta uma pergunta que ninguém responde oficialmente, mas todo mundo cochicha fora das câmeras: Tadeu está só despistando ou está se reposicionando? Alguns partidos de centro-direita procuraram Tadeu desde o segundo semestre de 2025. Houve conversa, houve convite, houve sondagem. E no processo político é assim: quando o vento muda, muita gente muda junto. E aí vem o ponto que mais interessa. A ausência de Tadeu na CMM foi um gesto calculado ou um recado de rearranjo em andamento? Pode ser realinhamento. Pode ser estratégia para não virar alvo das atenções. Pode ser apenas um blefe para alimentar o mistério e deixar todo mundo nervoso. Mas também pode ser o início de uma costura mais ousada: uma candidatura paralela, uma terceira via, ou até uma construção própria para disputar o governo, sem depender de David e sem ficar preso ao grupo do prefeito. E se isso estiver acontecendo, não será anunciado agora. Enquanto isso, David segue dizendo que não existe mais a possibilidade de apoiar Omar Aziz. Disse que caminham em vias opostas. Ou seja, David já escolheu um lado, ou pelo menos escolheu não escolher Omar. O problema é que, nesse jogo, quem perde o controle do tempo perde o controle da narrativa. E tem mais nomes se mexendo.

Marcos Rotta aparece como incógnita, pode ser candidato, mas ninguém sabe a quê. Renato Júnior se comporta como quem já está pronto para vestir a faixa. E Tadeu; bem, Tadeu é hoje a pergunta mais cara do mercado político amazonense. E o tempo está correndo. Faltam cerca de 54 dias para abril, e abril pode ser o mês em que o tabuleiro muda de vez. A política é feita de gestos. E, muitas vezes, o gesto mais forte é não aparecer. A ausência de Wilson e Tadeu hoje na CMM não foi só ausência. Foi recado. Agora resta saber se foi recado de redirecionamento, de blefe ou de jogo combinado. Mas uma coisa é certa: quando o silêncio vira nota, é porque alguém está mexendo as peças no escuro. E o ano, meus amigos, está só começando.

Coluna — Davidson Cavalcante

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