O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autoriza a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, por suspeitas de corrupção e tráfico de influência em negócios de cannabis medicinal ligados ao Ministério da Saúde e ao gabinete presidencial.
A apuração atinge diretamente o entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um ano eleitoral e põe sob holofote um setor em expansão, ainda marcado por disputas regulatórias e interesses bilionários.
PF mira negócios de cannabis e vínculos com lobista do INSS
O pedido da PF, feito em 24 de julho, chega ao Supremo com 34 páginas e descreve suspeitas de que Lulinha tenha atuado para favorecer a empresa World Cannabis em tratativas com o Ministério da Saúde. Os investigadores apontam uma atuação conjunta com a empresária Roberta Luchsinger, amiga do filho do presidente, e com o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
Os policiais pedem também o compartilhamento de provas da Operação Sem Desconto, que apura um esquema de desvios no INSS e tem Careca como um dos alvos centrais. Ao vasculhar fraudes previdenciárias, a força-tarefa encontra indícios de negócios de cannabis medicinal envolvendo o lobista e, a partir daí, passa a mapear a aproximação com Lulinha e Roberta.
Entre os pontos de atenção, a PF cita pagamentos do lobista à empresa RL Consultoria, de Roberta, e busca esclarecer se houve repasses diretos ou indiretos a agentes públicos. Outra linha de apuração é a tentativa de viabilizar um contrato no Ministério da Saúde para a compra de medicamentos à base de cannabis, negócio que não se concretiza, mas deixa rastros de pressão política e lobby.
Gabinete presidencial na linha de investigação
O inquérito autorizado por Mendonça inclui a análise de contatos entre os investigados e servidores públicos, “inclusive do gabinete da Presidência”, segundo relatório enviado ao Supremo. A PF quer entender como se deram reuniões, troca de mensagens e eventuais pedidos de apoio dentro do Palácio do Planalto e da cúpula do Ministério da Saúde.
A apuração se estende a viagens e relações pessoais, como a ida de Lulinha a Portugal em 2024, com despesas admitidamente pagas por Careca do INSS. A defesa de Fábio Luís diz que não há irregularidade nesses pagamentos e nega qualquer vínculo com fraudes no INSS ou com contratos públicos.
O Ministério da Saúde afirma que não tem, e nunca teve, contrato com a World Cannabis ou com seus acionistas, e que nenhum real de recursos públicos é repassado à empresa. A pasta tenta blindar a política de cannabis medicinal do desgaste político que a crise provoca.
Defesa fala em perseguição política; Lula promete “nenhum privilégio”
Advogados de Lulinha reagem com dureza. Para o criminalista Guilherme Suguimori Santos, a PF força uma nova tese depois de não conseguir incriminar o filho do presidente na investigação previdenciária. “Investigação não é exercício de tentativa e erro. Isso configura o que chamamos de pescaria probatória, que é ilegal e escancararia o interesse político por trás dessa movimentação peculiar”, afirma.
A defesa sustenta que Fábio Luís não participa de negociações comerciais da World Cannabis, não investe dinheiro ou trabalho na empresa e “tampouco recebe convite para associação, participação ou compra de cotas” do projeto. Os advogados dizem ver motivação eleitoral na insistência em ligá-lo a Careca do INSS.
Roberta Luchsinger também rejeita irregularidades. Ela afirma ter prestado apenas consultoria na área de canabidiol ao lobista, sem previsão de participação em comercialização de substâncias, e critica a retomada do caso às vésperas do processo eleitoral. Para a empresária, a reabertura “não faz o menor sentido” a não ser para exploração política.
O presidente Lula, por outro lado, tenta se equilibrar entre a defesa do filho e o discurso de respeito às investigações. Em entrevista recente, ele volta a dizer que acredita na inocência de Lulinha, mas descarta qualquer tipo de proteção especial. “Se meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como filho de qualquer pessoa, como eu, será tratado. Não haverá nenhum privilégio. Eu jamais pedirei para um delegado, um juiz, não fazer as coisas corretas”, afirma.
Mendonça mantém caso e pressiona PF por rito formal
O caminho do inquérito dentro do Supremo expõe a sensibilidade do caso. Durante o recesso, a PF encaminha o pedido à presidência da corte sob o argumento de que os fatos não teriam relação direta com a Operação Sem Desconto, já sob relatoria de Mendonça. O movimento é criticado por ministros e assessores por soar como tentativa de trocar o juiz natural do caso.
O pedido passa primeiro pelas mãos de Alexandre de Moraes, que está de plantão, e pela Procuradoria-Geral da República. A PGR concorda que os novos fatos são autônomos em relação às fraudes previdenciárias e sugere sorteio de relator. O processo volta a Mendonça, que assume o inquérito e autoriza a PF a avançar, em uma decisão que reforça seu papel de árbitro em um tema sensível para o governo.
Internamente, o vaivém gera ruído entre investigadores e integrantes da corte. A crítica é que a PF, ao insistir na redistribuição, alimenta a suspeita de escolha de relator mais favorável ou menos exposto ao embate com o Planalto. A corporação evita conflito público e mantém silêncio oficial sobre as divergências.
Setor de cannabis sob escrutínio e efeito eleitoral
A autorização do inquérito instala um clima de incerteza no mercado de cannabis medicinal. Empresas interessadas em fornecer medicamentos ao SUS e clínicas especializadas veem risco de engessamento de processos, com mais exigências burocráticas e receio de que qualquer contato com o governo seja interpretado como lobby criminoso.
Para o Ministério da Saúde, o desafio é manter a expansão do acesso ao canabidiol e a outros derivados enquanto aumenta a transparência das decisões. Técnicos ouvidos reservadamente falam em revisar protocolos de reuniões com empresários, reforçar registros de agendas e blindar comitês internos contra pressões informais.
No plano político, a investigação amplia o desgaste de Lula com a oposição, que usa o caso para reforçar o discurso anticorrupção e atacar o entorno familiar do presidente. Governistas, por sua vez, veem na ofensiva policial um componente de disputa institucional com o Supremo e de interferência no tabuleiro eleitoral.
Os próximos meses serão decisivos. A PF deve aprofundar a análise de mensagens, contratos, fluxos financeiros e viagens dos investigados. Dependendo do que emergir, o inquérito pode terminar arquivado, gerar denúncias criminais ou alimentar novas frentes de apuração sobre lobby no Executivo. Em qualquer cenário, a forma como o governo lida com o caso terá impacto direto na imagem de Lula e na percepção pública sobre a relação entre negócios privados, família presidencial e decisões de Estado.