O cálculo do comando do PSD parte de uma premissa simples. Sem ultrapassar Flávio Bolsonaro nas pesquisas, o caminho fica livre para a reeleição de Lula, inclusive com a hipótese de vitória ainda no primeiro turno.
É esse o pano de fundo na estratégia de Ronaldo Caiado, que já tem Gilberto Kassab confirmado como vice numa chapa formada inteiramente pela legenda, batizada nos bastidores de chapa puro-sangue.
O desafio de Caiado é menos disputar com Lula e mais deixar de ser coadjuvante dentro do próprio campo de oposição. Enquanto não superar o senador do PL, sua candidatura corre o risco de servir apenas como moeda de troca numa futura negociação, e não como opção real de poder.
Aposta na gestão e nas pesquisas
Para tentar mudar esse quadro, Caiado tem investido num discurso de gestão, apoiado na aprovação recorde que colheu à frente do governo de Goiás, e tenta associar sua imagem a temas como segurança pública, ajuste fiscal e reindustrialização a partir de terras raras.
Nas redes, o entorno do ex-governador já explora pesquisas que o colocam em situação de empate técnico com Lula em cenários de segundo turno, montando a narrativa de que ele, e não Flávio Bolsonaro, seria o nome mais competitivo da oposição.
O problema é que essa vantagem simulada só existe se ele antes conseguir decolar no primeiro turno, onde ainda parte de um patamar baixo.
O peso das alianças
O tabuleiro das alianças ajuda a entender a pressa. Caiado deixou o União Brasil para viabilizar o projeto pelo PSD, e a legenda, hoje fundida numa federação com o PP, já comunicou neutralidade na disputa presidencial, fechando de vez essa porta.
O Republicanos, presidido por Marcos Pereira, caminha na mesma direção, e as tratativas que a campanha de Flávio Bolsonaro mantinha com o partido perderam força nas últimas semanas.
Essa onda de neutralidade no centro tem um efeito ambíguo. Enfraquece o PL, que perde tempo de televisão e capilaridade para fechar coligações estaduais, mas não garante automaticamente força para o projeto de Caiado, que segue sem um parceiro de peso disposto a embarcar formalmente na chapa.
A engenharia do PSD
Há ainda uma camada adicional na engenharia do PSD. Enquanto Kassab administra a candidatura presidencial, o partido também constrói um palanque consistente no Rio de Janeiro, com o prefeito Eduardo Paes cotado para a disputa ao governo do estado.
A leitura interna é a de que 2026 pode ser um ano de expansão institucional para a legenda, ainda que a presidência não seja conquistada, o que ajuda a explicar por que Kassab aceita bancar um projeto presidencial com risco elevado sem comprometer o resto do tabuleiro do partido.
O prazo e os possíveis cenários
O prazo regimental para o fechamento das coligações, no início de agosto, funciona como pressão adicional sobre todos os blocos.
É nesse contexto que a manobra de Kassab ganha sentido duplo. Pode ser uma aposta genuína de que o desgaste natural da candidatura de Flávio Bolsonaro abrirá espaço para Caiado crescer, ou pode ser um movimento calculado para forçar um erro do entorno do senador antes que as alianças se consolidem.
Se a segunda hipótese se confirmar, o PSD sai fortalecido mesmo sem vencer a disputa presidencial. Se nenhuma das duas se materializar, o cenário permanece polarizado entre Flávio Bolsonaro e Lula, e a verdadeira marca de 2026 passa a ser a incapacidade do centro e da direita de consolidar um nome único capaz de desafiar o presidente em busca da reeleição.