Tadeu de Souza negou racha com David Almeida, disse que está tudo bem e que a relação política segue de modo convergente. Só que esse tipo de resposta, quando vem com tanta ênfase, geralmente aparece quando existe um “se” real.
O ponto principal não é o que o vice-governador externou. É o que Wilson Lima não falou. David Almeida, antes de sair de cena por licença emocional no Carnaval, gravou uma live deixando claro que teria sido ele quem “orientou” Tadeu, abrindo caminho para ele se aproximar de Wilson. Foi um recado interno, tentando reafirmar que Tadeu ainda estaria dentro do seu grupo político. Wilson, porém, ficou em silêncio. Não endossou David, não comentou a ida de Tadeu para o PP e não validou essa narrativa. E esse silêncio tem peso, porque mostra que o governador está observando e deixando o jogo correr antes de se comprometer.
Enquanto isso, Tadeu já se movimenta como alguém que quer subir de patamar. Apareceu mais ao lado de Wilson e começa a se apresentar como um projeto alternativo e com vistas próprias. A chave de tudo é simples. Se Wilson sair para disputar o Senado, Tadeu vira governador e passa a controlar máquina, orçamento e agenda. E quando alguém assume o governo, dificilmente aceita voltar a ser apenas coadjuvante.
David tenta marcar território. Tadeu tenta mostrar independência. Wilson administra o conflito em silêncio. E é nesse tripé que 2026 começa a ser desenhado.
Nos bastidores, a federação União Progressista se tornou um novo centro de gravidade na sucessão estadual. Quem controla essa federação controla tempo de TV, fundo partidário, alianças e principalmente a narrativa de um projeto político robusto para 2026. O vice-governador parece ter compreendido o timing.
O silêncio de Wilson não é neutralidade. É prudência. Ele está testando duas coisas ao mesmo tempo: se David ainda tem força para se impor como candidato natural do grupo e se Tadeu tem musculatura para virar o sucessor sem precisar pedir licença. E tem um detalhe que pouca gente comenta com clareza. David Almeida, mesmo Prefeito de Manaus, não controla a máquina estadual. Quem vai controlar, em breve, é Tadeu. Isso muda tudo, inclusive o comportamento dos aliados.
Na prática, o que começa a acontecer agora é o movimento silencioso de migração de lealdade. Aliados que hoje juram fidelidade a David devem começar a bater na porta de Tadeu, não por amor político, mas porque a política segue a caneta.
Outra leitura importante é Renato Júnior. Ele está discreto porque foi orientado a não crescer demais nesse período. Se Renato aparece demais, vira incômodo para David e vira ameaça indireta para Tadeu. Então o combinado é: postura baixa, sem holofote, para não gerar turbulência. E o cenário mais provável, que ninguém vai dizer publicamente agora, é este: Wilson quer um sucessor sob controle, e Tadeu é mais controlável do que David. David tem projeto próprio, é imprevisível, tem base em Manaus e pode virar um concorrente estadual fora da linha. Tadeu, até aqui, é visto como alguém mais institucional e mais fácil de enquadrar dentro do grupo. Ou seja, o “racha” ainda não aconteceu oficialmente, mas a sucessão já está em curso.
O jogo real não é Tadeu contra David. O jogo real é quem vai ser o candidato do sistema quando Wilson sair do cargo. E nesse momento, o relógio trabalha a favor de Tadeu. Porque quando ele sentar na cadeira de governador, a política do Amazonas vai começar a se reorganizar em torno dele, mesmo que todo mundo continue dizendo em público que está tudo bem.
Coluna — Davidson Cavalcante