Manaus recebeu um recado político neste Carnaval. E não foi em nota oficial, nem em coletiva, nem em reunião fechada no gabinete. Foi no palco, no microfone, diante de uma multidão evangélica.
O vereador Eduardo Alfaia, líder do prefeito David Almeida na Câmara Municipal, resolveu fazer o que a Prefeitura ainda evita. Ele marcou no calendário e anunciou em público. Disse que Renato Júnior é vice-prefeito até o dia 30 de março. Depois disso, passa a ser prefeito de Manaus. E olha, quando líder do prefeito fala assim, desse jeito, em cima de palco, não é empolgação espiritual. É aviso político. É recado com endereço. E normalmente com autorização.
A fala reforça o que já corre solto nos bastidores. David Almeida deve sair da Prefeitura para disputar o Governo do Amazonas. E como manda a lei eleitoral, tem que deixar o cargo até o início de abril. Aí entra a parte mais interessante, e mais indigesta para alguns aliados.
Renato Júnior assumindo a Prefeitura não assume só o gabinete. Ele assume a máquina. Assume orçamento, caneta, agenda, obra, contrato, visibilidade e a capacidade de puxar gente para perto. Na prática, Manaus muda de dono político. E muda rápido. Porque quando a caneta muda de mão, o comportamento muda junto. Vereador muda de lado, partido muda de humor, aliado vira “amigo antigo” e adversário vira “conversável”. É assim que funciona.
Agora, tem um detalhe que não é pequeno. Isso foi dito dentro de um congresso evangélico, com grande público e presença pesada de lideranças religiosas. Ou seja, o anúncio não foi em ambiente neutro. Foi onde se mede base social e força de mobilização. É como se a política tivesse feito o anúncio dentro de um templo eleitoral. E tem mais. Se David sai para o Governo e Wilson Lima também sai para disputar o Senado, o Amazonas pode viver uma transição rara. Troca de comando na Prefeitura e no Governo do Estado praticamente ao mesmo tempo. Quando isso acontece, meu amigo, o tabuleiro vira de cabeça para baixo. Acordos antigos começam a vencer antes do prazo. E quem jurava fidelidade eterna descobre novas vocações. No meio disso tudo, uma frase circula nos bastidores como ameaça e como propaganda. David seria candidato “com ou sem o Tadeu”. Ou seja, é aquela velha história. Na política do Amazonas, o amor é público, mas o ciúme é privado. E a pergunta que fica é simples. Essa data foi só um ato falho ou foi o início oficial da sucessão, com direito a anúncio informal e plateia escolhida? Porque quando a política marca o Dia D em voz alta, geralmente é porque o roteiro já está pronto e a renúncia só não saiu no Diário Oficial ainda.
Coluna — Davidson Cavalcante