Uma nova pesquisa da emissora pública Kan projeta um empate entre o Likud, de Benjamin Netanyahu, e o Yashar, de Gedi Eisenkot, com 23 cadeiras cada no Parlamento israelense. Nenhum dos dois blocos alcança sozinho a maioria de 61 assentos necessária para governar.
Parlamento fragmentado e disputa voto a voto
O levantamento, divulgado nesta segunda-feira, mostra um Parlamento israelense ainda mais fragmentado e dependente de negociações. O bloco governista soma 53 representantes, enquanto a oposição alcança 56, diferença insuficiente para garantir estabilidade política.
Segundo a Kan, “se as eleições fossem hoje o Likud conquistaria 23 cadeiras no Knesset, menos que as 32 que possui atualmente”. O Yashar, descrito pela emissora como sigla de “sionismo de centro”, aparece com os mesmos 23 assentos: “o Yashar, partido surgindo em setembro de 2025 e liderado por Gedi Eisenkot, ficaria com as mesmas 23 cadeiras”.
As duas principais legendas seguem distantes do objetivo central de qualquer partido em um sistema parlamentar: consolidar uma maioria. A própria pesquisa registra que “ambas as legendas ainda estão longe das 61 cadeiras necessárias para formar maioria no Legislativo israelense”.
Centro em alta e extrema direita mais forte
O cenário abre espaço para forças políticas de centro, que ganham peso na matemática do próximo governo. O partido Juntos aparece com 13 cadeiras projetadas e o Democratas com 10, total de 23 assentos que pode decidir quem chegará ao gabinete do primeiro-ministro.
Nesse mapa, o crescimento da direita mais radical também chama atenção. A Kan aponta “o partido de extrema direita Poder Judaico, liderado pelo ministro de Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, com nove cadeiras, três a mais do que possui atualmente”. O desempenho amplia a capacidade de pressão de Ben-Gvir sobre qualquer coalizão que aceite sua participação.
Outros partidos reforçam o quadro de pulverização. Israel Nossa Casa também alcança nove cadeiras, ganhando três novos assentos. A Lista Árabe Unida chega a seis vagas, uma a mais que hoje, enquanto a coalizão de centro-esquerda Hadash e Ta’al mantém cinco cadeiras. A soma desenha um Parlamento em que quase nenhuma combinação é simples.
Impasses para formar governo e impacto prático
A partir dos números, tanto o bloco governista quanto a oposição sabem que precisarão de acordos amplos, e provavelmente improváveis, para atingir os 61 assentos. O Likud tenta, ao mesmo tempo, segurar aliados tradicionais e evitar que partidos de centro imponham um programa que limite sua margem de manobra em temas como segurança e política econômica.
O Yashar, por sua vez, tenta se firmar como alternativa de governo com discurso de “sionismo de centro” e aposta no desgaste do atual gabinete. Para chegar ao poder, porém, o partido de Gedi Eisenkot terá de costurar entendimentos com legendas que vão de siglas árabes até conservadores seculares, passando por uma direita mais dura.
A pesquisa antecipa um Parlamento israelense que tende a reproduzir a instabilidade já conhecida em sistemas parlamentares fragmentados. Quanto mais partidos médios e pequenos participam de uma coalizão, maior o risco de crises recorrentes, derrubada de governos e necessidade de novas eleições em sequência.
O que está em jogo no parlamento israelense
No sistema político de Israel, o Parlamento – o Knesset – concentra poderes típicos de um parlamento federal, como se vê em outros países. É esse Legislativo unicameral que aprova leis, vota o orçamento, fiscaliza o gabinete e, sobretudo, dá sustentação ao primeiro-ministro.
Em termos de desenho institucional, um parlamento como o israelense cumpre papel semelhante ao de um congresso nacional em democracias presidencialistas, como o Parlamento brasileiro ou o Congresso dos Estados Unidos. A diferença central está na forma como o governo nasce: em Israel, o Executivo surge da maioria parlamentar, não de um voto direto para chefe de governo.
A disputa atual também joga luz sobre a própria ideia de parlamento na história. A experiência israelense se aproxima da tradição do Parlamento inglês e de outros sistemas parlamentares europeus, em que o governo cai quando perde o apoio da maioria e novas alianças passam a comandar o país sem alterar a estrutura do regime.
O vocabulário pode confundir. Em alguns países, o termo “parlamento” designa a instituição nacional; em outros, fala-se em “congresso”. A diferença é mais de etimologia e costume político do que de essência: ambos são casas legislativas responsáveis por fazer leis e representar a sociedade.
Na prática, a pesquisa divulgada hoje indica que o próximo Knesset terá de negociar a cada grande votação, da segurança às reformas econômicas. Partidos de centro e siglas menores, muitas vezes ignoradas em campanhas, tendem a se tornar fiéis da balança em decisões-chave.
Com as eleições marcadas para 27 de outubro, o país entra em um período de dois meses dominado por campanhas agressivas e conversas discretas de bastidor. Se o quadro de empate técnico e fragmentação se mantiver nas urnas, Israel pode enfrentar uma nova rodada de negociações exaustivas e governos de curta duração, com impacto direto sobre suas políticas internas e sua posição em crises regionais.