O governo do Irã afirma que o novo acordo de defesa entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia marca uma virada na segurança do Oriente Médio e enfraquece a dependência de Washington. Em coletiva em Teerã, o porta-voz Esmaeil Baqaei diz que a região deixa de tratar proteção militar como serviço terceirizado aos Estados Unidos.
O diagnóstico ecoa a crescente tensão em torno de Israel e das guerras por procuração no entorno do Golfo Pérsico. Para Teerã, a aliança trilateral expõe o desgaste das garantias de segurança oferecidas pelos EUA e pode redesenhar o equilíbrio de forças em uma área que vai do Mediterrâneo ao Estreito de Ormuz.
Irã lê pacto como recado a Washington e a Israel
Baqaei fala no contexto do tratado de defesa mútua assinado na última sexta-feira, 7 de agosto, por Riad, Islamabad e Ancara. Os três países, todos aliados militares históricos de Washington, se comprometem a coordenar respostas a ameaças externas e a ampliar a cooperação em armamentos, inteligência e logística.
O Irã tenta enquadrar o acordo como confirmação de um alerta que diz fazer há anos aos vizinhos. “Os países da região perceberam que segurança não é uma mercadoria que pode ser comprada de falsos intermediários”, afirma o porta-voz, em alusão direta aos EUA. Segundo ele, Teerã insiste para que as capitais árabes e muçulmanas fortaleçam sua própria proteção sem depender de bases estrangeiras.
Na leitura iraniana, a ofensiva militar israelense em Gaza e os ataques a Líbano, Palestina e Síria, apoiados por Washington, aceleram essa mudança de cálculo. Baqaei acusa os EUA de serem parte do problema, não da solução: o apoio político, financeiro e bélico a Israel, diz ele, alimenta a instabilidade que o pacto trilateral agora tenta conter por conta própria.
Turquia assume papel central em novo arranjo
A presença da Turquia ao lado de Arábia Saudita e Paquistão é ponto sensível do acordo. O país, que muitos brasileiros ainda associam apenas a temas como Turquia mapa, Turquia continente ou Turquia capital, se posiciona como potência militar de médio porte, com indústria bélica em expansão e papel ativo em conflitos da Síria ao Cáucaso.
Ancara é o único dos três signatários que mantém relações oficiais com Israel. Ainda assim, o presidente Recep Tayyip Erdogan se torna um dos críticos mais ruidosos do governo de Benjamin Netanyahu. Em discursos recentes, ele compara o premiê israelense a Adolf Hitler, acusa Tel Aviv de genocídio em Gaza e oferece apoio político ao Hamas.
O duplo movimento turco — manter canais diplomáticos com Israel, mas aproximar-se militarmente de Arábia Saudita e Paquistão em um pacto lido em Teerã como anti-Israel — reforça a ambiguidade da posição de Erdogan. Para o Irã, porém, o que importa é o sinal: a Turquia time de peso na OTAN admite arrumar a própria casa de segurança sem aval direto dos EUA.
Riad e Islamabad testam limites da aliança com os EUA
Arábia Saudita e Paquistão também enviam recados a Washington. Ambos dependem há décadas de armamentos, treinamento e cobertura diplomática norte-americana. O novo tratado indica disposição de construir uma espécie de guarda-chuva alternativo, ainda que sem romper laços com o Ocidente.
Baqaei afirma que a confiança automática em Washington fica para trás. “Os países da região não podem se basear na alegação de segurança fornecida pelos EUA, como no passado”, diz. Na visão iraniana, a experiência recente mostra que a presença militar estrangeira contribui para alimentar disputas, não para encerrá-las.
O porta-voz insiste que uma arquitetura de defesa eficaz precisa nascer dentro do próprio Oriente Médio. “Qualquer plano baseado nas realidades geopolíticas e históricas da região, que seja abrangente e inclusivo, que identifique corretamente o inimigo e a ameaça, tem chance de ajudar a fortalecer a segurança e prevenir instabilidade e abusos por parte do inimigo sionista e seus aliados”, afirma.
Pressão no Estreito de Ormuz e conversas com Omã
O pano de fundo imediato da discussão é o bloqueio parcial do Estreito de Ormuz promovido por Teerã, como retaliação a países que, segundo o Irã, apoiam ações militares contra seu território e aliados. Arábia Saudita, Turquia e Paquistão sentem o impacto direto nas rotas de petróleo e mercadorias, o que pressiona por alguma forma de coordenação defensiva.
Ao mesmo tempo, o Irã tenta mostrar que não aposta apenas na escalada. Baqaei informa que as negociações mediadas por Omã para um cessar-fogo em frentes de conflito marítimo avançam “de forma suave e construtiva”. Já existe entendimento sobre um mapa de rotas no Golfo, embora pontos técnicos, como corredores específicos e inspeções de navios, ainda estejam em disputa.
O desenho dessas rotas interessa diretamente às marinhas de Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, que buscam garantir a segurança de seus navios sem ficarem presas ao guarda-chuva naval americano. Quanto mais sólida for a coordenação trilateral, menor a justificativa prática para a presença ostensiva dos EUA nos estreitos que conectam o Oriente Médio ao mercado global.
Quem ganha e quem perde com o novo pacto
A leitura em Teerã é que o acordo entre Riad, Islamabad e Ancara abre uma brecha na arquitetura de segurança influenciada por Washington desde o fim da Segunda Guerra. Se a aliança se consolidar, a região passa a ter um bloco militar capaz de agir com maior autonomia em crises envolvendo Israel e Irã.
Israel observa esse movimento com cautela. Mesmo sem referir diretamente ao pacto, autoridades israelenses já alertam para o risco de “eixos hostis” se fortalecerem no entorno. Para o Irã, porém, o verdadeiro alvo da crítica é a política americana, acusada de dar carta branca às operações militares israelenses.
Ainda não está claro até que ponto Arábia Saudita, Turquia e Paquistão pretendem ir. Por ora, o acordo é mais um sinal político do que um comando operacional pronto para ser acionado em guerra. A tendência é que os próximos meses revelem se a coordenação se limita a exercícios e intercâmbio de informações ou evolui para compromissos de defesa mútua concretos.
O Irã segue apostando que o desgaste da presença militar dos EUA no Oriente Médio abrirá espaço para arranjos regionais mais amplos, dos quais pretende participar. O pacto trilateral, visto de Teerã, é um ensaio geral dessa nova ordem de segurança ainda incerta, mas cada vez menos dependente de Washington.