O Acre integra oficialmente o conjunto de estados beneficiados pelo reconhecimento do Ofício das Tacacazeiras da Região Norte como Patrimônio Cultural do Brasil.
A decisão foi formalizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) durante a 111ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizado nesta terça-feira (25), que aprovou a inscrição no Livro dos Saberes.
O registro consolida um legado que atravessa gerações e reafirma o papel das mulheres amazônicas na preservação de conhecimentos tradicionais.
A atividade das tacacazeiras envolve muito mais do que a preparação do tradicional tacacá, prato que reúne tucupi, goma de mandioca, jambu e camarão seco.
O ofício incorpora práticas agrícolas, domínio de técnicas culinárias, formas de comercialização, redes de convivência e uma profunda dimensão simbólica ligada à identidade amazônica.
No Acre, essas práticas ocupam praças, feiras e pontos estratégicos das cidades, mantidas sobretudo por mulheres que transformaram o preparo do tacacá em sustento familiar e expressão cultural.

O reconhecimento nacional ocorre em um contexto histórico marcado pela força da atuação feminina no Norte.
O ofício se consolidou como alternativa econômica diante da ausência de empregos formais, abrindo caminho para que muitas profissionais mantivessem suas famílias e transmitissem o conhecimento às novas gerações.
Pesquisa realizada em 2024, em parceria com a Universidade Federal do Oeste do Pará, apontou que cerca de 70% das pessoas envolvidas no trabalho são mulheres, muitas delas de meia-idade ou idosas.
A presença das tacacazeiras está registrada em todas as capitais da Região Norte, com particularidades em cada estado.
No Acre, a atuação é marcada pela forte ligação com a produção da mandioca e seus derivados, além da organização de pontos de venda que se tornaram referências gastronômicas e espaços de convivência urbana.
Esses locais, que vão de barracas a quiosques e pequenos comércios, funcionam como centros de sociabilidade e reafirmação da identidade regional.
O pedido de registro, iniciado há mais de uma década, passou por diversas etapas até chegar ao reconhecimento atual, incluindo pesquisa etnográfica, produção de dossiê e análises técnicas e jurídicas.
Plano de Salvaguarda
O parecer final destacou a relevância sociocultural do ofício e sua representatividade para a memória amazônica.
Com o novo status de Patrimônio Cultural do Brasil, o Iphan iniciará a elaboração de um Plano de Salvaguarda dedicado a proteger e fortalecer a atividade.
Entre os eixos previstos estão a melhoria das condições de trabalho, acesso a insumos, fortalecimento do empreendedorismo, divulgação da gastronomia amazônica e qualificação dos espaços urbanos destinados à venda do tacacá.
Para o Acre, o reconhecimento reforça a visibilidade das tradições alimentares que caracterizam o estado e a importância das mulheres que mantêm vivos os saberes que compõem a identidade amazônica.
A expectativa é de que a medida contribua para valorizar ainda mais o trabalho das tacacazeiras, estimulando renda, turismo gastronômico e políticas de preservação cultural.