O açúcar volta a ganhar força na Bolsa de Nova Iorque e supera 16 centavos de dólar por libra-peso no contrato com vencimento em outubro, em meio à revisão para cima do déficit global esperado nas próximas safras. O movimento interrompe a acomodação vista em julho, quando as cotações chegaram a se aproximar dos 15 centavos.
A reprecificação do mercado ocorre enquanto produtores na Europa, na Índia e no Brasil enfrentam limitações de oferta, ao mesmo tempo em que projeções de déficit mais robusto para 2026/27 e 2027/28 passam a balizar a tomada de decisão de usinas, tradings e investidores.
Déficit dobra e Europa vira principal foco de preocupação
O Itaú BBA estima agora um déficit global de 1,4 milhão de toneladas na safra 2026/27, o dobro da projeção anterior de 700 mil toneladas. A piora na Europa, tradicional produtora de açúcar de beterraba, é o principal gatilho dessa revisão.
“O principal motivo para elevar a estimativa de déficit global em 2026/27 de 700 mil toneladas para 1,4 milhão de toneladas foi a piora das perspectivas para a produção de beterraba na Europa”, afirma o banco em relatório.
Temperaturas extremas e chuvas abaixo da média reduzem a produtividade esperada e elevam o nível de incerteza sobre a oferta do bloco.
A Czarnikow, tradicional consultoria do mercado de açúcar, projeta ainda um déficit de 2,9 milhões de toneladas para a temporada seguinte, 2027/28, o que reforça a percepção de que a fase de aperto na oferta não se limita ao curto prazo. Mesmo com estoques elevados, a União Europeia já trabalha com uma queda de cerca de 3 milhões de toneladas na produção futura, enquanto os armazéns seguem 12% acima do volume registrado em 31 de maio de 2025.
Brasil produz menos e qualidade da cana preocupa
No Brasil, dados recentes da União da Indústria da Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) confirmam recuo na produção de açúcar no Centro-Sul, principal região sucroalcooleira do país. As estatísticas reforçam a leitura de que a oferta brasileira vem mais contida do que se esperava no início da safra.
O Itaú BBA mantém, por enquanto, a projeção de moagem de 644,8 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul para 2026/27, com mix açucareiro de 46,4%. Nesse cenário, a produção de açúcar fica estimada em 39,4 milhões de toneladas. A qualidade da matéria-prima, porém, mostra viés de baixa, com expectativa de 138,3 quilos de Açúcar Total Recuperável (ATR) por tonelada de cana, o que tende a reduzir a eficiência industrial.
O banco chama atenção para a combinação entre menor qualidade agrícola e limitações operacionais das usinas, que têm pouca margem para aumentar ainda mais o direcionamento da cana para o açúcar. Isso limita a capacidade de reação da oferta brasileira diante dos preços mais altos em Nova Iorque.
Índia e China podem segurar avanço das cotações
Na Índia, um dos maiores produtores e consumidores do mundo, o quadro segue delicado. A possibilidade de chuvas abaixo da média nas monções, somada à forte intervenção do governo para conter a inflação do açúcar, reacende rumores de que o país possa voltar ao mercado como importador.
O Itaú BBA avalia, porém, que essa porta continua praticamente fechada no curto prazo. Com a valorização do produto no mercado doméstico e a desvalorização da rúpia, o açúcar importado segue mais caro do que o açúcar vendido internamente. Mesmo assim, a política indiana segue no radar porque eventuais mudanças em subsídios ou controles de exportação podem redesenhar fluxos comerciais em poucos meses.
Do outro lado da balança, China e a própria Índia carregam potencial de aumento de produção. A China projeta safra recorde em 2026/27, enquanto a Índia pode elevar a oferta de açúcar ao reduzir ainda mais a fatia de cana destinada ao etanol. Esse conjunto, ao lado dos estoques confortáveis na União Europeia, coloca um teto na escalada de preços em Nova Iorque.
Alta é correção, não rali, dizem analistas
Mesmo com o açúcar de volta acima de 16 centavos de dólar por libra-peso, o Itaú BBA evita falar em disparada especulativa. Para o banco, o mercado apenas corrige uma distorção entre preços e fundamentos.
“Apesar do avanço das cotações, o movimento ainda deve ser encarado como uma correção”, avalia a instituição. Em outro trecho, o relatório é mais categórico: “Preços abaixo de 15 centavos de dólar por libra-peso são incompatíveis com a expectativa consolidada de déficit global em 2026/27”.
Na prática, a recuperação das cotações não elimina os riscos de queda. A demanda física internacional continua fraca, o que se reflete em retração das exportações brasileiras, descontos nos preços FOB em Santos e line-up de navios relativamente tímido. Enquanto o consumo não reage, o mercado tende a se apoiar em notícias climáticas, números de produção e movimentos de estoques para definir a direção dos próximos meses.
Quem ganha, quem perde e o que vem pela frente
Usinas e exportadores brasileiros, assim como produtores na Europa e na Índia que conseguem cumprir contratos, se beneficiam de um patamar de preços mais alto em Nova Iorque, especialmente quando travam cotações futuras em momentos de estresse climático. Investidores em commodities agrícolas também ganham mais volatilidade e oportunidades para arbitrar diferenças entre bolsas e prêmios físicos.
Para a indústria de alimentos e bebidas, e para consumidores finais, o impacto é mais difuso e aparece com atraso, por meio de reajustes em produtos derivados do açúcar e em contratos de fornecimento. Governos, como o da Índia, reagem tentando segurar a inflação, com medidas que vão de controles de exportação à discussão sobre eventuais importações, o que influencia diretamente os fluxos globais.
O mercado agora acompanha de perto a evolução do clima nas principais regiões produtoras, em especial o comportamento das chuvas na Ásia e a persistência de temperaturas extremas na Europa. Novos dados de moagem do Centro-Sul, revisões de safra na China e sinais de recuperação ou não da demanda internacional devem definir se o açúcar consolida o nível acima de 16 centavos ou volta a testar suportes próximos de 15 centavos de dólar por libra-peso.
Enquanto isso, a Bolsa de Nova Iorque mantém o centro das atenções no mapa global do açúcar, influenciando decisões que vão da lavoura no interior paulista ao planejamento de estoques nas refinarias europeias.