Um dos clubes mais tradicionais de São Paulo virou alvo de uma investigação que mistura suspeitas de desvio de dinheiro, disputas internas, ameaças e até uma suposta traição conjugal.
A Polícia Civil apura se parte dos recursos que chegaram ao Juventus, após a criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) e outros acordos comerciais, teria sido desviada por dirigentes do clube social. As acusações ainda são investigadas e não resultaram em condenação.
DE ONDE VEIO O DINHEIRO QUE ESTÁ NO CENTRO DA APURAÇÃO?
O caso ganhou força justamente quando o Juventus passou a movimentar valores importantes.
O clube aprovou a criação de uma SAF, estrutura que separa a administração do futebol profissional da associação tradicional. O projeto prevê investimentos de aproximadamente R$ 500 milhões no futebol ao longo do processo de transformação.
Além disso, o clube fechou outros acordos comerciais, incluindo a utilização de uma área de sua sede por uma escola bilíngue.
É justamente sobre parte desses recursos que surgiram as denúncias.
POLÍCIA INVESTIGA POSSÍVEIS REPASSES
Segundo as denúncias apresentadas à Polícia Civil, valores relacionados a honorários advocatícios teriam sido distribuídos entre pessoas ligadas à administração do clube.
Um dos negócios analisados é a operação envolvendo a SAF. O clube social teria direito a receber R$ 20 milhões, enquanto R$ 2 milhões foram destinados a honorários pela estruturação do projeto.
Segundo o depoimento de Guilherme Rodrigues, advogado que afirmou ter participado das negociações, esse valor teria sido dividido entre ele e a ex-mulher, Luma Zaffarani, além de dirigentes do clube.
A polícia recebeu comprovantes bancários, registros de saques e uma planilha que, segundo o denunciante, detalharia os supostos repasses.
UM PAGAMENTO DE R$ 900 MIL ENTROU NA MIRA
Em um dos episódios relatados à polícia, o Juventus teria feito um pagamento de R$ 900 mil em dezembro de 2025 referente aos honorários.
Segundo Guilherme, desse montante:
- R$ 341,2 mil teriam sido repassados em espécie a Carlos Eduardo Gomes Pedroso, presidente do Conselho Deliberativo;
- R$ 224 mil teriam sido depositados para Tadeu Deradeli, presidente do clube;
o restante faria parte da divisão entre os envolvidos apontados na denúncia.
Tadeu confirma ter recebido os R$ 224 mil, mas apresenta outra versão: afirma que o dinheiro foi um reembolso de uma aplicação financeira.
É justamente nesse ponto que versões diferentes passam a ser confrontadas pela investigação.
E A HISTÓRIA DE TRAIÇÃO?
O caso ganhou uma dimensão ainda mais pessoal por causa do depoimento de Guilherme Rodrigues.
Ele e Luma Zaffarani mantiveram uma união estável durante cerca de uma década. Segundo o advogado, ele descobriu em março deste ano que a então companheira teria um relacionamento com Carlos Eduardo Pedroso, presidente do Conselho do Juventus.
Guilherme afirma que a descoberta ocorreu depois de observar imagens de câmeras e receber relatos de pessoas próximas.
Uma testemunha também apresentou à polícia uma declaração registrada em cartório sobre o suposto relacionamento.
Luma nega tanto a traição quanto qualquer participação em repasses aos dirigentes.
A questão pessoal, porém, é apenas uma parte da investigação.
O que interessa às autoridades é descobrir se houve movimentação irregular de dinheiro e eventual prática de crimes.
OUTRO CONTRATO ENTROU NA INVESTIGAÇÃO
A polícia também analisa um contrato envolvendo o estacionamento do Juventus. Segundo um conselheiro que apresentou denúncia, o espaço, que anteriormente era administrado pelo próprio clube, teria passado a uma empresa privada.
O negócio também levantou questionamentos sobre as circunstâncias da contratação e sobre quem estaria ligado à empresa responsável pelo estacionamento.
Um detalhe chamou atenção: o conselheiro afirma que recebeu um Pix de R$ 17 mil da empresa e, minutos depois, recebeu uma mensagem de Carlos Eduardo.
Ele suspeita que o pagamento tenha sido uma tentativa de silenciá-lo.
A empresa, por sua vez, afirma que a terceirização foi feita dentro das regras e que trouxe retorno financeiro para o clube.
ACUSAÇÕES DE INTIMIDAÇÃO TAMBÉM SÃO APURADAS
Além das questões financeiras, Carlos Eduardo também é alvo de acusações relacionadas a intimidação de opositores dentro do clube.
Ele é escrivão da Polícia Civil e, segundo relatos apresentados à investigação, teria utilizado sua posição e uma arma para constranger adversários políticos internos.
Há ainda relatos de que conselheiros teriam sido suspensos ou afastados da estrutura do clube.
As acusações são negadas ou contestadas pelos envolvidos e ainda estão sendo apuradas pela Polícia Civil.
O QUE DIZEM OS ENVOLVIDOS?
Tadeu Deradeli, presidente do Juventus, nega as acusações de desvio. Sobre os R$ 224 mil mencionados na investigação, afirma que o valor recebido foi referente a um reembolso de aplicação financeira.
Carlos Eduardo Gomes Pedroso não concedeu entrevista e orientou que os questionamentos fossem encaminhados à assessoria do Juventus.
Luma Zaffarani nega ter feito repasses aos presidentes do clube e do Conselho e também rejeita a acusação de traição apresentada pelo ex-marido.
O Juventus afirma que não comenta o mérito de questões que tramitam sob sigilo e ressalta que problemas pessoais de integrantes do quadro associativo não devem ser confundidos com a atuação institucional do clube.
Já a Juventus SAF afirma que possui gestão e estrutura separadas do clube social e que, depois que os recursos são depositados na conta indicada pelo clube, a administração desses valores não está sob responsabilidade da SAF.
O QUE A POLÍCIA AINDA PRECISA DESCOBRIR?
A investigação está em andamento. A Polícia Civil já realizou diligências, solicitou documentos e passou a analisar a movimentação financeira dos recursos relacionados aos negócios investigados.
O objetivo é descobrir se os valores efetivamente entraram nas contas do clube e, principalmente, qual foi a destinação desse dinheiro. Também devem ser confrontados os depoimentos de integrantes de grupos rivais dentro do Juventus.
Isso é importante porque existe uma disputa política interna pelo comando da associação e uma das linhas consideradas na investigação é justamente verificar se parte das denúncias surgiu desse conflito.
ENTENDA O CONTEXTO
O Clube Atlético Juventus, conhecido como Moleque Travesso, tem mais de um século de história e uma forte ligação com a Mooca, na Zona Leste de São Paulo.
Nos últimos anos, o clube passou por dificuldades financeiras e buscou alternativas para fortalecer o futebol profissional.
A criação da SAF mudou o cenário e colocou novos valores em circulação.
Pouco tempo depois, surgiram denúncias envolvendo a destinação de parte desses recursos e outros contratos do clube.
Agora, a Polícia Civil precisa separar disputa política interna, problemas pessoais e eventuais irregularidades financeiras.
Até o momento, as acusações estão sob investigação. Não há condenação definitiva dos envolvidos.