Bolsa Família volta a registrar alta de beneficiários que vivem sozinhos em ano eleitoral

Número de famílias unipessoais chegou a 3,9 milhões em julho, após aumento de 344 mil desde janeiro; governo diz não identificar sinais de fraude, mas municípios com índices elevados estão sob atenção
Redação NC News
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O número de beneficiários do Bolsa Família que declaram viver sozinhos voltou a crescer em 2026, justamente em um ano de eleições. Dados de julho mostram 3,9 milhões de famílias unipessoais inscritas no programa, contra 3,5 milhões em janeiro.

Isso representa um aumento de aproximadamente 344 mil beneficiários em sete meses.

O movimento chama atenção porque ocorre depois de um longo processo de revisão dos cadastros iniciado pelo governo federal para corrigir distorções identificadas nos anos anteriores.

O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), porém, afirma que não encontrou sinais de uma nova onda de divisão artificial de famílias e atribui a alta às oscilações naturais de entrada e saída do programa.

Alta interrompe sequência de queda

A quantidade de beneficiários unipessoais vinha sendo reduzida após o forte crescimento registrado no fim de 2022 e início de 2023.

Naquele período, o número chegou a 5,9 milhões, segundo os dados do programa. A alta ocorreu depois da mudança nas regras do benefício, quando o pagamento mínimo de R$ 600 por família passou a estimular casos em que pessoas que viviam juntas declaravam cadastros separados.

O governo Lula iniciou posteriormente um pente-fino no Cadastro Único para identificar inconsistências.

A expectativa era de continuidade da redução. O movimento de 2026, porém, mudou essa trajetória.

Entre janeiro e julho, o total de beneficiários do Bolsa Família também aumentou, passando de 18,8 milhões para 19,3 milhões.

Governo diz que alta não indica fraude

O MDS afirma que o aumento observado está dentro das oscilações esperadas para um programa do tamanho do Bolsa Família.

Segundo a pasta, o número de beneficiários muda todos os meses conforme novas famílias entram e outras deixam o programa.

O ministério também afirma não identificar, até o momento, sinais de uma nova divisão artificial de cadastros com objetivo de aumentar pagamentos.

Especialistas consultados, porém, defendem uma análise mais detalhada dos dados, principalmente em municípios onde a proporção de pessoas que vivem sozinhas está muito acima da média.

Quase 4 mil municípios estão acima da referência

O problema aparece com mais clareza quando os dados são analisados por município.

Em julho, os beneficiários unipessoais representavam 19,9% das famílias atendidas pelo Bolsa Família, acima da referência de 16% estabelecida pelo governo em 2023.

Atualmente, 3.813 municípios estão acima desse percentual. É o maior número desde o início da divulgação dessa estatística, em setembro de 2023.

Em 736 cidades, os unipessoais representam mais de 25% dos beneficiários.

Em outras 35, a proporção chega a pelo menos 40%.

O MDS ressalta que estar acima dos 16% não significa, por si só, que exista irregularidade. A realidade demográfica varia entre as regiões, e há municípios onde uma parcela maior da população realmente vive sozinha.

Por isso, o governo estuda a criação de metas regionalizadas, levando em conta as características de cada território.

128 municípios mais que dobraram o número

Um levantamento dos dados municipais também mostra situações que merecem atenção.

Em 128 municípios, o número de beneficiários unipessoais cresceu mais de 100% em relação ao fim de 2022, período marcado pelo pico das distorções cadastrais.

Outras 211 cidades tiveram crescimento entre 50% e 100%.

Em 613 municípios, a alta ficou entre 10% e 50%.

Os números, isoladamente, não comprovam irregularidade. Mas ajudam a identificar locais que podem precisar de uma análise mais aprofundada.

O governo mantém atualmente uma lista interna de 306 municípios e três estados considerados críticos, segundo integrantes da administração federal.

Outros 45 municípios e cinco estados estão classificados como locais que exigem acompanhamento.

Por que isso voltou a acontecer?

Uma das explicações apontadas por especialistas é demográfica.

O Brasil vem registrando aumento da quantidade de pessoas que vivem sozinhas. Portanto, parte do crescimento dos beneficiários unipessoais pode refletir uma mudança real na composição das famílias brasileiras, e não necessariamente fraude.

O economista Daniel Duque, do FGV Ibre, avalia que essa tendência demográfica deve continuar.

Ao mesmo tempo, ele afirma que o salto ocorrido em 2022 teve características diferentes, porque as regras daquele período criaram incentivos para a divisão artificial de famílias.

Para Duque, os esforços de revisão dos cadastros podem ter chegado a um limite.

Regra dos 16% está sendo revista

A referência de 16% foi criada em 2023 a partir da proporção de domicílios com apenas um morador identificada pela Pnad.

Municípios que ultrapassam o limite passaram a enfrentar regras mais rígidas para incluir novas famílias unipessoais.

Uma delas era a exigência de entrevista domiciliar para novos cadastros. A regra, porém, foi flexibilizada depois de um acordo entre o governo e a Defensoria Pública da União.

A flexibilização pode reduzir o ritmo de revisão dos cadastros, segundo técnicos.

O governo agora avalia utilizar os dados mais recentes do Censo Demográfico de 2022 para estabelecer parâmetros diferentes conforme as características de cada município.

O que está sob investigação?

O ponto central não é simplesmente descobrir quantas pessoas vivem sozinhas, mas identificar se os cadastros correspondem à realidade.

Um aumento de beneficiários unipessoais pode ocorrer por motivos legítimos. O problema aparece quando pessoas que vivem na mesma residência são registradas artificialmente como famílias diferentes para receber benefícios separados.

Foi justamente esse tipo de distorção que chamou atenção no período eleitoral de 2022.

Por isso, municípios com crescimento muito acima do padrão ou proporções consideradas atípicas podem ser alvo de análises específicas.

Entenda o contexto

O crescimento dos beneficiários unipessoais em 2026 acontece em um momento politicamente sensível, mas os números disponíveis não permitem afirmar que exista uso eleitoral do Bolsa Família.

O próprio MDS diz não ter identificado indícios dessa prática neste ano. O que existe é uma mudança na trajetória dos cadastros: depois de uma forte redução iniciada com o pente-fino do governo, o número de famílias formadas por apenas uma pessoa voltou a crescer.

A explicação pode combinar dois fenômenos diferentes: o aumento real de brasileiros que vivem sozinhos e o limite das ações de correção dos cadastros que apresentavam inconsistências.

Por isso, a análise dos dados por município é mais importante do que olhar apenas para o número nacional. O aumento, sozinho, não comprova fraude ou irregularidade.

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