Bens de 9 deputados investigados pelo STF sobem R$ 33,9 milhões

Parlamentares são alvo de investigações envolvendo supostos desvios de emendas e uso irregular de recursos públicos; maior alta patrimonial foi de R$ 13,3 milhões
Redação NC News
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Nove deputados federais que estão no radar de investigações conduzidas no Supremo Tribunal Federal (STF) tiveram, juntos, um aumento de R$ 33,9 milhões no patrimônio declarado à Justiça Eleitoral entre 2022 e 2026.

Os parlamentares são investigados em diferentes inquéritos relacionados a supostos desvios de emendas parlamentares, fraudes em licitações ou uso irregular da cota parlamentar. O crescimento dos patrimônios, porém, não significa, por si só, que exista irregularidade: os valores são declarações oficiais de bens e precisam ser analisados individualmente.

O levantamento considera os patrimônios informados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições de 2022 e nos registros de candidatura de 2026.

Quem são os deputados investigados

O grupo é formado por:

  • Carlos Jordy (PL-RJ)
  • Dal Barreto (União Brasil-BA)
  • Elmar Nascimento (União Brasil-BA)
  • Félix Mendonça Júnior (PDT-BA)
  • Fernando Coelho Filho (União Brasil-PE)
  • Júnior Mano (PSB-CE)
  • Juscelino Filho (União Brasil-MA)
  • Pastor Gil (PL-MA)
  • Sóstenes Cavalcante (PL-RJ)

Quase todos tentam a reeleição. Júnior Mano disputa como suplente de senador, enquanto Carlos Jordy busca uma vaga no Senado pelo Rio de Janeiro.

Os processos que tramitam no STF estão, em parte, sob sigilo. Por isso, o levantamento considera parlamentares que já foram alvo de operações policiais ou que tiveram investigações divulgadas publicamente.

O deputado que mais aumentou o patrimônio

O maior crescimento entre os nove parlamentares foi registrado por Fernando Coelho Filho.

Em 2022, ele declarou R$ 3,7 milhões em bens. Neste ano, o patrimônio informado ao TSE chegou a R$ 17,1 milhões.

Deputado Federal Fernando Coelho Filho, do União Brasil | Foto: Reprodução

A diferença é de aproximadamente R$ 13,3 milhões, um salto de cerca de 362%. Entre os bens declarados estão ações, direitos creditórios, imóveis e veículos.

O deputado foi alvo de uma operação da Polícia Federal em fevereiro deste ano ao lado do pai, o ex-senador Fernando Bezerra Coelho. A investigação apura suspeitas relacionadas a emendas parlamentares destinadas a Petrolina e possíveis fraudes em licitações.

O aumento patrimonial, contudo, não estabelece relação automática entre os bens declarados e as investigações.

Patrimônio de Dal Barreto também dobrou

Outro caso que chama atenção é o de Dal Barreto.

O deputado declarou R$ 7,3 milhões em 2022. Quatro anos depois, informou possuir R$ 14,7 milhões. O crescimento foi de aproximadamente R$ 7,4 milhões.

Deputado Federal Dal Barreto, do União Brasil | Foto: Reprodução

O parlamentar foi alvo da Operação Overclean, que investiga suspeitas de fraude em licitações e desvios de emendas. Durante uma das fases da operação, em outubro de 2025, a Polícia Federal apreendeu o celular do deputado.

Segundo Dal Barreto, o crescimento de seu patrimônio é resultado de sua atividade empresarial lícita e devidamente declarada.

Elmar Nascimento passou de R$ 2,5 milhões para R$ 8,5 milhões

O patrimônio de Elmar Nascimento também apresentou uma forte alta. Em 2022, ele declarou R$ 2,5 milhões. Neste ano, o valor chegou a R$ 8,5 milhões, aumento de aproximadamente R$ 6 milhões.

Entre os bens aparecem imóveis, um jet-ski e um quadriciclo.

Elmar não foi alvo direto de uma ação policial, mas familiares dele foram alvo de mandados durante uma das fases da Operação Overclean.

Elmar Nascimento, deputado federal do União Brasil, na Bahia | Foto: Reprodução

Outros patrimônios também cresceram

Júnior Mano declarou R$ 371 mil em bens em 2022. Neste ano, informou patrimônio de R$ 997 mil, uma alta de aproximadamente R$ 625,8 mil.

Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, teve crescimento de cerca de R$ 595 mil. O deputado declarou aproximadamente R$ 5 mil em aplicações bancárias em 2022 e, neste ano, informou bens que incluem R$ 500 mil em espécie, além de um terreno de R$ 100 mil.

O dinheiro em espécie chamou atenção durante a Operação Galho Fraco, quando agentes apreenderam cerca de R$ 470 mil em um flat utilizado pelo parlamentar. Na ocasião, Sóstenes afirmou que o dinheiro seria proveniente da venda de um imóvel em Minas Gerais.

Sóstenes Cavalcante, deputado e líder do PL na Câmara | Foto: Reprodução

Já Carlos Jordy declarou aumento de aproximadamente R$ 982 mil. Entre os bens informados neste ano está um apartamento em Niterói avaliado em R$ 1 milhão, adquirido com entrada e financiamento.

Pastor Gil teve crescimento patrimonial de cerca de R$ 552 mil e declarou, entre outros bens, um imóvel, um terreno, um carro, aplicações financeiras e R$ 100 mil em espécie.

Félix Mendonça Júnior informou patrimônio aproximadamente R$ 4,6 milhões maior em razão, segundo ele, do recebimento de uma herança deixada pelo pai.

Juscelino Filho apresentou o menor crescimento do grupo, de aproximadamente R$ 163,4 mil, chegando a R$ 4,6 milhões declarados em 2026.

Investigados não são automaticamente culpados

Um ponto importante é que ser investigado não significa ter sido condenado por crime.

As apurações conduzidas pela Polícia Federal analisam suspeitas e podem terminar em arquivamento, denúncia ou ação penal. Nos casos em que houve condenação, ainda é necessário observar a situação dos recursos e o trânsito em julgado.

Entre os parlamentares do grupo, Pastor Gil e Josimar Maranhãozinho foram condenados pela Primeira Turma do STF em março deste ano em um processo relacionado a desvio de emendas e corrupção passiva. A decisão ainda está em fase de recursos.

Por que o aumento patrimonial chama atenção?

O crescimento dos bens, isoladamente, não comprova qualquer irregularidade. Parlamentares podem aumentar legalmente seu patrimônio por meio de salários, investimentos, empresas, heranças, venda de imóveis, financiamentos ou outras fontes lícitas de renda.

Para Cristiano Pavini, coordenador de projetos da Transparência Brasil, o aumento precisa ser analisado de acordo com a origem dos recursos.

O especialista também chama atenção para mecanismos que podem dificultar o rastreamento de dinheiro público, como empresas de fachada, intermediários e contratos que ocultem o verdadeiro destino dos recursos.

Outro problema apontado é o das chamadas “emendas paralelas”, que podem perder mecanismos tradicionais de identificação e rastreabilidade depois de incorporadas ao orçamento.

O advogado Arthur Rollo, especialista em direito eleitoral e administrativo, também destaca a necessidade de maior transparência na utilização de emendas destinadas a eventos, especialmente em contratações de artistas por meio de intermediários.

O que dizem os deputados

Dal Barreto afirmou que o crescimento patrimonial decorre de sua atividade empresarial e que todos os bens foram declarados legalmente. Ele também disse estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Félix Mendonça Júnior atribuiu o aumento à herança recebida após a morte do pai, no valor de aproximadamente R$ 4,6 milhões, segundo sua declaração.

Os deputados Carlos Jordy, Elmar Nascimento, Fernando Coelho Filho, Júnior Mano, Juscelino Filho, Pastor Gil e Sóstenes Cavalcante foram procurados, mas não responderam até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestações.

Entenda o contexto

O aumento patrimonial dos nove deputados ocorre em meio a uma série de investigações que colocaram as emendas parlamentares no centro do debate sobre transparência e controle dos recursos públicos.

O STF e a Polícia Federal passaram a analisar diferentes suspeitas de desvios, fraudes em licitações e utilização irregular de verbas destinadas a municípios. Ao mesmo tempo, as declarações de bens feitas pelos candidatos ao TSE permitem comparar oficialmente a evolução do patrimônio antes de uma nova eleição.

Essa comparação, entretanto, funciona como ponto de partida para fiscalização e não como prova de crime. A origem de cada patrimônio precisa ser analisada individualmente, assim como a situação de cada investigação.

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