Casas Bahia deve R$ 17,3 bilhões a 28 mil credores

Recuperação judicial pode impor descontos de até 95% e anos de espera; fornecedores, bancos e investidores terão tratamentos diferentes
Redação NC News
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A crise das Casas Bahia chegou a um ponto que pode mudar completamente a relação da varejista com milhares de empresas, trabalhadores e instituições financeiras. O grupo entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar um passivo de R$ 17,3 bilhões — e a conta envolve cerca de 28 mil credores.

Se o processo for aceito pela Justiça, parte desses credores poderá enfrentar descontos expressivos e prazos muito longos para receber.

Mas nem todo mundo estará na mesma situação. A posição de cada credor dependerá principalmente do tipo de dívida, da existência de garantias e das condições que forem aprovadas no plano de recuperação.

Quem pode perder mais dinheiro?

Os credores que aparecem em uma posição mais delicada são os chamados quirografários.

Em termos simples, são aqueles que possuem uma dívida a receber, mas não contam com uma garantia específica vinculada ao crédito. É justamente nesse grupo que estão muitos fornecedores e investidores.

Segundo especialistas em reestruturação empresarial, em processos desse tipo podem ocorrer deságios elevados, além de parcelamentos que se estendem por muitos anos.

Em alguns casos do varejo, fornecedores já enfrentaram cortes de 50% a 80% e pagamentos distribuídos por períodos de 10 a 20 anos.

A possibilidade de um desconto ainda maior existe porque a legislação não estabelece um percentual máximo de deságio para determinados créditos. O limite acaba sendo definido durante a negociação e pela capacidade de aprovação do plano.

Fornecedores ficam em uma situação curiosa

Empresas que fornecem produtos para as Casas Bahia podem estar entre as mais expostas à reestruturação. Fabricantes como Samsung, Whirlpool, Electrolux e LG, por exemplo, podem ter valores a receber da varejista.

Mas existe uma particularidade importante: esses fornecedores não são apenas credores. Eles também são fundamentais para que a Casas Bahia continue funcionando.

Sem produtos para vender, a recuperação da empresa fica ainda mais difícil. Por isso, a negociação pode criar condições diferenciadas para credores considerados estratégicos, especialmente aqueles que continuarem fornecendo mercadorias ou serviços durante a recuperação.

Na prática, um fornecedor pode aceitar receber uma dívida antiga em condições menos favoráveis para preservar um relacionamento comercial que continuará gerando negócios no futuro.

E os bancos?

Entre os grandes credores aparecem instituições financeiras como Banco Digio, Banco do Brasil e Bradesco.

A situação dos bancos, entretanto, pode ser diferente daquela enfrentada por fornecedores sem garantia. Isso porque parte dos créditos dessas instituições possui garantias, o que pode mudar sua posição dentro da recuperação judicial.

Além disso, bancos costumam ter maior poder de negociação por controlarem linhas de crédito fundamentais para a empresa continuar funcionando. Para a Casas Bahia, manter acesso a financiamento pode ser tão importante quanto renegociar as dívidas antigas.

Investidores também entram na disputa

Fundos e investidores que possuem créditos contra a companhia não têm necessariamente a mesma vantagem operacional de um fornecedor estratégico.

Nesse caso, a negociação tende a considerar principalmente:

  • valor do crédito;
  • existência ou não de garantia;
  • posição dentro da recuperação;
  • poder de voto;
  • condições propostas no plano.

Isso significa que dois credores com valores semelhantes podem terminar com condições completamente diferentes para receber.

Trabalhadores têm proteção maior

Os funcionários da companhia estão em uma categoria diferente.

Créditos trabalhistas possuem proteção específica na legislação de recuperação judicial e devem seguir regras próprias de pagamento, com prazos diferentes dos aplicados a grande parte dos demais credores.

O Fisco também não entra na recuperação exatamente da mesma maneira que fornecedores e investidores.

As dívidas tributárias seguem mecanismos próprios de negociação e parcelamento.

Por isso, não é possível simplesmente pegar os R$ 17,3 bilhões de passivo e dividir entre os 28 mil credores para descobrir quanto cada um receberá.

A ordem e as condições de pagamento dependem da natureza de cada crédito.

De onde veio uma dívida de R$ 17,3 bilhões?

O pedido de recuperação judicial foi apresentado pela companhia para reorganizar um passivo total de aproximadamente R$ 17,3 bilhões.

A maior parte está concentrada justamente nos créditos sem garantia.

Segundo os dados apresentados no processo, cerca de R$ 16,4 bilhões correspondem a compromissos quirografários.

Outros R$ 754 milhões são referentes a passivos trabalhistas, enquanto aproximadamente R$ 154 milhões correspondem a dívidas com microempresas e empresas de pequeno porte.

É uma montanha de dinheiro que agora será colocada sobre a mesa para negociação.

A crise também atingiu o resultado da companhia

A situação financeira da Casas Bahia se deteriorou em meio a um cenário de juros elevados, crédito mais caro e dificuldades para conseguir novas fontes de financiamento.

A companhia registrou um prejuízo líquido de aproximadamente R$ 10,1 bilhões, resultado fortemente influenciado por ajustes contábeis e fiscais.

Somente uma baixa relacionada a impostos diferidos representou cerca de R$ 5,7 bilhões.

As despesas com vendas também chegaram a aproximadamente R$ 1,8 bilhão no período.

A tentativa de encontrar novas fontes de liquidez no exterior também não avançou como esperado.

A Bolsa reagiu imediatamente

O mercado financeiro recebeu o pedido de recuperação judicial com forte reação.

As ações da Casas Bahia chegaram a ser negociadas a R$ 0,48, uma queda próxima de 30% após a divulgação do pedido.

O movimento mostra como a crise deixou de ser apenas um problema interno da varejista e passou a atingir diretamente seus acionistas e investidores.

Para os credores, porém, a questão mais importante agora é outra:

quanto dos R$ 17,3 bilhões será efetivamente recuperado — e quanto tempo será necessário para receber?

O que acontece agora?

O pedido de recuperação judicial ainda precisa seguir o processo previsto pela Justiça.

Caso seja aceito, a companhia terá de apresentar um plano de recuperação, estabelecendo como pretende reorganizar suas dívidas e manter a operação.

Os credores poderão analisar a proposta, apresentar objeções e participar das deliberações previstas no processo.

É nesse momento que ficará mais claro quem receberá primeiro, quem terá desconto maior e quem poderá esperar anos pelo dinheiro.

Entenda o contexto

A recuperação judicial é um mecanismo criado para permitir que empresas em dificuldades financeiras tentem reorganizar suas dívidas sem interromper imediatamente suas atividades.

No caso das Casas Bahia, o tamanho do passivo torna a negociação especialmente complexa: são R$ 17,3 bilhões distribuídos entre cerca de 28 mil credores, com diferentes tipos de créditos e garantias.

O ponto central agora será encontrar um plano capaz de preservar a operação da varejista e, ao mesmo tempo, convencer os credores de que vale mais a pena aceitar uma renegociação do que apostar em um cenário ainda pior.

Para alguns, isso poderá significar descontos relevantes. Para outros, prazos maiores ou condições diferenciadas. O tamanho do prejuízo de cada credor dependerá, portanto, da natureza da dívida e do acordo que sair da recuperação judicial.

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