Sabatina Augusto Cury na Globo: cortes e IA mudam governo federal

Augusto Cury detalha propostas para reformular ministérios e ampliar serviços públicos durante sabatina na Globo.
Redação NC News
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Em sabatina ao vivo na Globo, o candidato do Avante à Presidência, Augusto Cury, apresenta um pacote de propostas que mistura corte de ministérios, forte taxação sobre casas de apostas e uma guinada tecnológica na máquina pública e na saúde. A entrevista, conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, expõe a tentativa do escritor e psiquiatra de se posicionar como gestor focado em eficiência e inovação.

As ideias de Cury tocam diretamente a estrutura do governo federal, o bolso de milhões de trabalhadores e um mercado de apostas em expansão acelerada. O candidato fala em mexer na vida de microempreendedores, servidores públicos, médicos e pacientes do SUS, além de abrir uma frente de conflito com setores já organizados em Brasília.

Corte de ministérios, nova pasta de Segurança e imposto pesado nas bets

Augusto Cury afirma que, se eleito, pretende reduzir de oito a dez o número de ministérios, mas admite que ainda não define quais estruturas deixariam de existir. Ele promete uma “análise criteriosa” e associa o enxugamento da Esplanada à busca por redução de despesas e reordenamento de prioridades.

Ao mesmo tempo em que fala em cortes, defende a criação de um Ministério da Segurança Pública e de uma secretaria executiva de Inteligência Artificial e Robótica. Para ele, o país está atrasado na preparação para o impacto da automação no emprego. “Se nós não tivermos uma secretaria executiva ou o Ministério da Inteligência Artificial e Robótica, o Brasil vai ser atropelado e pode ser que haja dezenas de milhões de desempregados, e ninguém fala sobre isso”, afirma.

Na economia, o alvo principal do candidato são as empresas de apostas online. Cury promete elevar a alíquota do setor para cerca de 50%, bem acima dos atuais 12%. “Eu taxaria as bets seriamente. Sabe quanto as bets pagam de imposto? Pagam 12%. Alimento, 18%. E, por incrível que pareça, luz, 30%, 33%. Se nós não taxarmos as bets… E deveríamos taxá-las, tá, é pelo menos com 50%, nós vamos ter uma economia muito grande. Talvez 40% a mais em relação aos 12%, 52% seria uma taxação razoável”, diz.

O plano, segundo ele, é usar a nova tributação para abater parte da dívida pública, que classifica como “estratosférica”. Cury fala em combinar essa medida com o financiamento de 10 milhões de microempresas, revisão de 50 mil cargos comissionados e auditoria pesada em contratos públicos. A combinação, estima, poderia gerar entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões em aumento de receitas e diminuição de gastos, embora não apresente cálculos detalhados.

Telemedicina para 80% das consultas do SUS e questionamentos éticos

Na área da saúde, o candidato propõe uma transformação radical na atenção básica: quer que 80% das consultas simples do Sistema Único de Saúde sejam feitas por telemedicina. Ele cita a própria experiência como médico para sustentar a mudança e critica a resistência dos órgãos de classe. “Eu sou médico, você esqueceu disso? Eu sou médico, eu vivo a medicina, trabalho com médicos, dou treinamentos para médicos. O Conselho Federal de Medicina precisa ser atualizado, há uma revolução tecnológica sem precedente”, afirma.

Cury diz respeitar o Conselho Federal de Medicina, mas sustenta que a regulamentação atual não acompanha a velocidade das inovações. “O mundo está mudando de maneira tão rápida que nem os médicos estão acompanhando”, avalia. O plano de governo prevê que apenas os atendimentos mais complexos continuem presenciais. Em 2025, o Brasil registra 31 milhões de consultas de atenção primária no SUS; aplicar a meta do candidato significaria virtualizar a imensa maioria desses atendimentos, com impacto direto na rotina de médicos e pacientes.

Questionado sobre o fato de ter sido embaixador e sócio de uma empresa de telemedicina até recentemente, Cury nega qualquer conflito de interesses. Diz que não mantém vínculo atual e que a experiência o credencia a expandir o modelo na rede pública. A proposta, porém, depende de mudança de regras no Conselho Federal de Medicina e de investimentos massivos em infraestrutura digital, especialmente em regiões sem conexão estável.

Salário mínimo, responsabilidade fiscal e foco na classe média

Ao tratar da renda, Augusto Cury defende que o salário mínimo tenha reposição da inflação mais um ganho real de 1% ao ano. Com essa fórmula, projeta um aumento acumulado entre 50% e 60% em quatro anos, caso a política seja aplicada com juros compostos. “Nós esperamos que, no final de quatro anos, 48 meses, nós tenhamos, se for juros compostos, talvez 50%, 60% de aumento do salário mínimo”, diz.

O candidato fala em um horizonte de oito a dez anos para dobrar o valor atual, que ele estima em cerca de US$ 300, para US$ 600. Aposta no fortalecimento da classe média como motor do consumo e do comércio. “Sem uma classe média robusta, não vai funcionar adequadamente o comércio, não vai ter consumidores”, argumenta. Para viabilizar o plano, promete rigor no controle das contas públicas e aumento da eficiência do Estado.

Sobre mudanças no arcabouço fiscal, Cury evita compromissos. Reconhece que estuda o tema, mas se recusa a antecipar propostas. “Eu não posso me antecipar. Seria ingênuo e até eleitoreiro, seria populista falar de uma mudança”, afirma. Defende, porém, que qualquer ajuste preserve a responsabilidade fiscal como pré-condição para a queda da taxa Selic.

Avaliação de servidores, combate ao feminicídio e disputas no horizonte

A reorganização do Estado defendida pelo candidato inclui avaliação de desempenho de servidores públicos. Cury sustenta que funcionários pagos com dinheiro de impostos precisam de indicadores claros de produtividade. Cita critérios como qualidade do atendimento ao cidadão, rapidez no cumprimento de tarefas e uso de inteligência artificial para agilizar processos. Evita, porém, dizer se quem não atingir metas poderá ser demitido, e fala apenas em treinamento e capacitação.

No campo da segurança, ele promete medidas específicas para enfrentar o feminicídio. Entre as ideias mencionadas na sabatina estão o uso de drones acionados por delegacias, capazes de chegar antes das viaturas ao local da ocorrência, e um aplicativo de alerta para mulheres em situação de risco. Cury reconhece que a solução não cobriria todo o país, por depender de internet estável, mas insiste que a tecnologia pode acelerar a resposta policial e salvar vidas.

As propostas apresentadas hoje tendem a dividir a cena política e econômica. A redução de ministérios enfrenta resistência de corporações acostumadas a orçamentos próprios e espaços de poder. A taxação de 50% sobre as bets deve mobilizar um setor que cresce rápido e investe pesado em publicidade e patrocínios esportivos. A telemedicina em escala no SUS esbarra em médicos, conselhos profissionais e limitações de infraestrutura. Já o plano de aumentar fortemente o salário mínimo agrada a base de trabalhadores, mas exigirá, na prática, um equilíbrio difícil entre expansão de renda, inflação e contas públicas.

O desempenho de Augusto Cury na sabatina abre a etapa em que ele tenta deixar de ser apenas um nome conhecido das livrarias para se firmar como presidenciável com agenda própria. Nas próximas semanas, a pressão recai sobre o detalhamento técnico de cada promessa, o embate com adversários em debates e, sobretudo, a reação de empresários, servidores, profissionais de saúde e eleitores que podem se ver diretamente afetados por um eventual governo comandado por ele.

O que Augusto Cury propõe para o SUS com a telemedicina?

Augusto Cury propõe que 80% das consultas básicas do SUS passem a ser feitas por telemedicina, mantendo apenas casos complexos no atendimento presencial, o que, aplicado às 31 milhões de consultas de atenção primária registradas em 2025, significaria virtualizar dezenas de milhões de atendimentos e exigir mudança nas regras do Conselho Federal de Medicina.

Como a taxação das bets em 50% mudaria o setor?

A proposta de Augusto Cury de elevar de 12% para cerca de 50% o imposto sobre empresas de apostas multiplicaria por mais de quatro vezes a carga atual, reduziria margens de lucro, poderia enxugar o número de operadores no mercado e, ao mesmo tempo, abriria uma nova fonte de receita relevante para atacar a dívida pública.


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