Carlos de Almeida Baptista Júnior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira, enfrenta em público o senador Flávio Bolsonaro e reforça seu relato sobre o planejamento de um golpe de Estado no fim do governo Jair Bolsonaro. Aos 65 anos, o brigadeiro nega atuar em campanha pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e acusa o candidato do PL à Presidência de tentar desviar o debate sobre a ruptura institucional.
Acusação de campanha e resposta nas redes
A reação de Baptista Júnior ganha força depois da entrevista de Flávio Bolsonaro na Globo, em que o senador afirma que o ex-comandante “pede voto para Lula” e é “completamente parcial” para falar do ex-presidente. O ataque surge quando o candidato é questionado sobre depoimentos de militares que confirmam pressões por um golpe para impedir a posse de Lula.
Em sua conta na rede X, Baptista Júnior devolve em tom duro e transforma a troca de acusações em novo capítulo da disputa política às vésperas das eleições de 2026. “A leviandade de dizer que faço campanha para a reeleição do presidente Lula, apresentada para não abordar a verdadeira pergunta colocada no debate de ontem, na Globo, é antes de tudo uma ferramenta para fugir da responsabilidade de respondê-la — algo entendido na figura de filho, mas não de alguém que se proponha a nos presidir”, escreve.
O ex-comandante afirma desconhecer qualquer base factual para a acusação de campanha e diz que seu foco é esclarecer a tentativa de golpe. Ele lembra que seu depoimento ao Supremo Tribunal Federal e o conteúdo do livro recém-lançado não têm relação com o senador. E provoca: “Talvez seja prudente aguardar, ler o livro e refletir, antes de outra entrevista”.
Depoimento no STF e bastidores da crise
Baptista Júnior se torna peça central das investigações sobre a trama golpista ao confirmar, em depoimento ao STF, que Jair Bolsonaro participa ativamente do planejamento para impedir a transição de governo após a vitória de Lula nas urnas. Seu relato descreve reuniões tensas no Planalto, pressões diretas de aliados civis e militares e uma cúpula fardada dividida entre a legalidade e a aventura autoritária.
Um dos pontos mais explosivos de sua fala é a menção ao ex-comandante do Exército, general Freire Gomes, a quem atribui ter chegado a dar voz de prisão ao então presidente durante uma reunião em que medidas de ruptura são discutidas. No tribunal, o general nega o episódio. Baptista Júnior evita confronto pessoal, mas diz que a pergunta sobre a divergência deve ser dirigida ao colega.
O brigadeiro admite ter sido acusado de prevaricação por não prender ou denunciar Bolsonaro naquele momento. Responde com uma metáfora que leva para o livro: “Quando você não consegue desarmar a bomba, atrasa o relógio”. Afirma que sua estratégia, compartilhada com outros oficiais, é ganhar tempo para garantir a posse do presidente eleito sem mergulhar o país em conflito aberto.
Livro, ataques e isolamento em Brasília
As quase cinco décadas de vida militar tornam-se matéria-prima de “Eu disse não! Uma trincheira antigolpista”, volume de 240 páginas que ele escreve em relativo isolamento em sua casa em Brasília, depois de deixar o comando da Força Aérea. O livro chega às livrarias com lançamento previsto para daqui a dez dias, em meio ao calor da ofensiva de Flávio Bolsonaro contra sua credibilidade.
Baptista Júnior relata que paga alto preço pessoal por ter se recusado a embarcar no golpe. Diz que é alvo de campanha de difamação orquestrada por militares da reserva e cita nominalmente o general Braga Netto, ex-ministro da Defesa e antigo amigo, como um dos articuladores de ataques. Conta ter perdido amizades de meio século e vê seu nome carimbado como “melancia” por críticos que o acusam de comunista.
O ex-comandante insiste que apenas cumpre seu dever constitucional. “Não sou herói por cumprir a lei. É uma obrigação que deveria ser seguida por todos”, afirma. O tom é mais de advertência do que de autodefesa. Ele descreve o medo que sente no auge da crise e admite que, ainda hoje, só sai de casa com cuidados especiais, podendo requisitar escolta em determinadas situações.
Forças Armadas, democracia e impacto eleitoral
Ao narrar as pressões para aderir ao golpe, Baptista Júnior destaca que a falta de unanimidade nas Forças Armadas é fundamental para impedir a ruptura. Ressalta o peso das instituições civis e dos freios impostos pela sociedade. “O povo não quer uma ditadura”, sentencia, relembrando a infância marcada pelas visitas com o pai a amigos cassados durante o regime militar.
O impacto político de suas falas se espalha além dos quartéis. A condenação de Bolsonaro no STF por tentativa de golpe tem entre seus pilares depoimentos como o dele e o de outros generais que integraram o governo. Ao atacar a credibilidade do brigadeiro, Flávio Bolsonaro tenta reduzir o dano à própria candidatura e à imagem do pai. Recebe, em troca, uma reação que recoloca a trama golpista no centro da campanha.
As declarações de Baptista Júnior reforçam a posição de militares e civis que se alinham à defesa da ordem democrática, e constrangem setores das Forças Armadas que se aproximaram do bolsonarismo. A presença do atual comandante da FAB, Marcelo Kanitz Damasceno, em um ambiente de revisão interna de condutas e doutrinas evidencia que a caserna ainda digere a turbulência recente.
O STF mantém o depoimento do brigadeiro como peça-chave do inquérito sobre a tentativa de ruptura institucional. Novos documentos e testemunhos são aguardados, com potencial para aprofundar a responsabilização penal e política de envolvidos. A disputa em torno da narrativa do golpe promete atravessar toda a campanha de 2026 e seguir influenciando futuras escolhas de comando e políticas de segurança institucional.
Para Baptista Júnior, o desafio agora é menos militar e mais civil: transformar sua experiência em alerta permanente. Ele aposta que o registro em livro, somado ao escrutínio judicial, pode ajudar a evitar que o país volte a flertar com soluções autoritárias. O desfecho desse embate, porém, ainda depende da reação das urnas, dos tribunais e das próprias Forças Armadas.
Quem é o Brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior e qual seu papel na FAB?
Carlos de Almeida Baptista Júnior é tenente-brigadeiro do ar, tem 65 anos e comandou a Força Aérea Brasileira no governo Jair Bolsonaro, chefiando uma das três Forças singulares. No cargo máximo da Aeronáutica, ele participou da cúpula militar que resistiu à tentativa de golpe e hoje é voz ativa na defesa da legalidade democrática.
Qual era o cargo de Carlos de Almeida Baptista Júnior antes de deixar a Força Aérea Brasileira?
O cargo de Carlos de Almeida Baptista Júnior antes de deixar a Força Aérea Brasileira era o de comandante da Força Aérea, topo da hierarquia da Aeronáutica. Como tenente-brigadeiro do ar, ele respondia diretamente ao ministro da Defesa e ao presidente da República pela preparação, emprego e disciplina dos efetivos da FAB.
Como Carlos de Almeida Baptista Júnior reagiu às acusações de Flávio Bolsonaro sobre apoio a Lula?
Carlos de Almeida Baptista Júnior reagiu às acusações de Flávio Bolsonaro sobre apoio a Lula classificando-as como “leviandade” e “ferramenta para fugir da responsabilidade”. Em textos na rede X, ele negou fazer campanha, criticou o uso político de seu nome e desafiou o senador a ler seu livro antes de novas entrevistas.
O que Carlos de Almeida Baptista Júnior disse sobre o risco de golpe e a cúpula militar?
Carlos de Almeida Baptista Júnior disse que houve risco real de golpe após a eleição de Lula e que parte da cúpula militar foi pressionada a aderir à ruptura. Ele relatou reuniões em que Bolsonaro discutiu medidas golpistas, citou divergências entre comandantes e afirmou que a falta de unanimidade nas Forças foi decisiva para evitar a ditadura.
Qual foi o envolvimento de Carlos de Almeida Baptista Júnior na denúncia sobre a trama do golpe?
O envolvimento de Carlos de Almeida Baptista Júnior na denúncia sobre a trama do golpe se dá por meio de seu depoimento detalhado ao STF e do livro “Eu disse não! Uma trincheira antigolpista”. Ele descreve pressões de Bolsonaro e aliados, confirma a discussão de medidas ilegais e narra como atuou para atrasar a “bomba” e garantir a posse presidencial.