Rafaela Silva estreia no Spaten Fight Night 3 com vitória convincente sobre a mexicana Prisca Awiti, por waza-ari e yuko, e transforma a Arena Pacaembu em palco de judô de alto nível.
A noite em São Paulo coloca frente a frente duas medalhistas olímpicas em um cenário pouco usual para judocas. Aos 34 anos, Rafaela assume o papel de protagonista em um evento até aqui dominado pelo boxe e pelo jiu-jitsu. Do outro lado, Prisca Awiti, vice-campeã olímpica e hoje 72ª do ranking mundial, chega como nome de peso internacional.
Judô estreia com duelo de campeãs e vitória brasileira
O combate, no peso-meio-médio (63kg), segue rigorosamente o formato olímpico: quatro minutos de tempo regulamentar e golden score ilimitado em caso de empate. A organização adota as regras da Federação Internacional de Judô, numa tentativa clara de preservar a identidade da modalidade mesmo em um ambiente de entretenimento.
O encontro entre Rafaela e Prisca tem sabor de correção histórica. “Foi o primeiro encontro entre as duas judocas, que, apesar de acumularem trajetórias de mais de uma década no esporte, competiram em categorias diferentes durante a maior parte da carreira”, registra a organização. Agora no meio-médio, após anos de domínio no peso-leve, Rafaela reencontra rivais de outro pelotão e testa o corpo em um formato mais pontual, de luta única.
Controle, contra-ataque e vitória por waza-ari e yuko
A mexicana começa melhor, tentando ditar o ritmo e levar o duelo para o solo. “A mexicana até teve iniciativa no início da luta e tentou levar a luta para o solo por ao menos três vezes, mas a brasileira se defendeu bem e conseguiu controlar a adversária em todas as oportunidades”, descreve o relatório oficial. A resposta de Rafaela vem na forma de contenção, pegada firme e leitura precisa de distância.
Perto do minuto final, as duas recebem punição por falta de combatividade e a tensão aumenta na Arena Pacaembu. Na retomada, a experiência de Rafa fala mais alto. “No retorno do combate, Prisca tentou um golpe e Rafa conseguiu o contra-ataque rápido. A brasileira levou a adversária para o solo e conseguiu o osaekomi, mas a mexicana se livrou com cinco segundos. A arbitragem assinalou um waza-ari pela queda e um yuko pela imobilização”, detalha a súmula.
A vantagem numérica muda o jogo. Com um waza-ari e um yuko à frente, a brasileira passa a administrar o placar, evitando riscos desnecessários. Prisca tenta acelerar, mas encontra uma rival segura na defesa, forte na pegada e confortável em cenário de pressão. O cronômetro zera sem novo golpe efetivo, e Rafaela confirma a vitória em sua primeira aparição no evento, reforçando o status de 3ª colocada no ranking mundial e candidata a seguir atraindo holofotes fora do circuito tradicional.
Raz Hershko surpreende Beatriz Souza; jiu-jitsu estreia com Preguiça x Meregali
A noite não é só de festa brasileira no tatame. Outra campeã olímpica, Beatriz Souza, volta a encarar a israelense Raz Hershko em duelo que reedita a final do pesado (+78kg) em grande competição recente. Desta vez, Hershko se impõe por yuko, mostrando que o equilíbrio entre as duas segue alto e que a rivalidade extrapola os torneios oficiais.
No jiu-jitsu, também em estreia no card do Spaten Fight Night, Felipe Preguiça e Nicholas Meregali entregam uma luta tensa no peso-pesadíssimo. O combate termina decidido pelos juízes, com placar de 10-9, 10-9 e 9-10 para Preguiça, que sai consagrado na visão dos árbitros e ajuda a consolidar a modalidade dentro do evento.
O boxe, carro-chefe das edições anteriores, mantém espaço de destaque. Maurício Shogun e Glover Teixeira, dois veteranos que marcam época no MMA, se reencontram agora com luvas de boxe, em duelo que apela à nostalgia do público. Em outra luta, Luan Medeiros enfrenta o argentino Juan Cruz em disputa de cinturão, reforçando o caráter híbrido e competitivo da noite.
Evento se reinventa e mira protagonismo nas artes marciais
A decisão de incluir judô e jiu-jitsu muda a escala do Spaten Fight Night em 2026. O que nasce como um show de boxe passa a funcionar como vitrine para múltiplas artes marciais, com card que mistura estilos, gerações e perfis de público. Para os organizadores, o formato abre novas frentes comerciais e amplia a margem para negociar com patrocinadores e transmissões.
Aos atletas, o impacto é direto. Medalhistas olímpicos e mundiais, acostumados a calendários rígidos de federações, encontram uma plataforma alternativa, com estrutura de grande evento e cachês potencialmente mais atraentes que muitos torneios tradicionais. Em anos sem grandes competições, participar de um card como o do Pacaembu ajuda a manter forma, exposição e relevância diante de marcas e fãs.
O risco está em equilibrar espetáculo e integridade esportiva. Ao manter as regras oficiais do judô, como os quatro minutos de luta e o golden score sem limite, o Spaten Fight Night sinaliza que não pretende transformar a modalidade em mero show. Ao mesmo tempo, a lógica de luta única, com preparação dirigida para um adversário específico, cria um tipo de desafio que foge do padrão de competições em sequência.
A recepção positiva à vitória de Rafaela, ao triunfo de Hershko sobre Beatriz e ao duelo técnico entre Preguiça e Meregali indica que o público brasileiro aceita bem o modelo híbrido. A tendência, agora, é de consolidação: ampliar o card, testar novas cidades além de São Paulo, negociar janelas mais nobres na televisão e no streaming e, sobretudo, transformar a marca em referência nacional em eventos de lutas múltiplas.
Nesse cenário, o desempenho de nomes como Rafaela Silva ganha peso estratégico. Cada apresentação sólida de atletas consagrados aumenta a pressão para que outros campeões se juntem ao projeto e reforça a ideia de que o Spaten Fight Night deixa de ser apenas uma curiosidade no calendário para disputar, de fato, espaço com eventos tradicionais do mercado de lutas no Brasil.