O Supremo Tribunal Federal (STF) enfrenta uma crise interna marcada por divergências entre ministros sobre a condução de investigações que atingem integrantes da própria Corte e sobre o futuro do inquérito das fake news. No centro da disputa estão o presidente do tribunal, Edson Fachin, o relator do inquérito, Alexandre de Moraes, e o ministro André Mendonça.
A tensão aumentou após Mendonça liberar para julgamento um relatório da Polícia Federal que reúne 52 mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro a um número atribuído a Moraes. O caso provocou reação do ministro e também levou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, a questionar a validade da apuração.
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Entenda o que aconteceu
A crise ganhou força depois que Fachin abriu um procedimento separado para analisar possíveis irregularidades na condução de investigações da Polícia Federal envolvendo autoridades com foro no Supremo. O presidente da Corte determinou que Moraes, Mendonça, Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, prestassem esclarecimentos por escrito.
A decisão também retirou do inquérito das fake news a manifestação encaminhada por Moraes contra Mendonça e determinou que o material fosse analisado dentro da nova petição. Segundo o STF, a medida busca verificar a admissibilidade e a regularidade do procedimento, sem antecipar uma decisão sobre as acusações.
Fachin tenta conter a disputa dentro do tribunal
Fachin passou a concentrar em seu gabinete a condução institucional do conflito. Além de abrir o procedimento, o presidente do STF defendeu a conclusão do inquérito das fake news e anunciou medidas relacionadas à criação de um código de ética para ministros e à modernização do sistema de Justiça.
O objetivo é evitar que a investigação, relatada por Moraes, se transforme em uma disputa direta entre gabinetes. A estratégia, porém, enfrenta resistência diante da decisão de Mendonça de levar ao plenário o caso envolvendo o relatório da PF.
Dino critica mistura entre crise institucional e interesses políticos
A movimentação também provocou reação de Flávio Dino. Sem citar diretamente Fachin, o ministro questionou a ideia de anunciar o encerramento de uma investigação em meio à crise.
Dino afirmou que problemas institucionais graves estariam sendo misturados com interesses eleitorais e econômicos, objetivos estrangeiros e questões pessoais. Também levantou dúvidas sobre a possibilidade de um julgador prometer o encerramento de um inquérito como forma de responder ao desgaste provocado pela investigação.
Para Dino, inquéritos devem chegar ao fim por meios jurídicos adequados, seja com o oferecimento de ações penais, seja com os arquivamentos cabíveis. O ministro também questionou quais critérios poderiam determinar que uma investigação se tornou longa demais para continuar.
Relatório da PF coloca Moraes no centro da crise
O relatório elaborado pela Polícia Federal a pedido de Mendonça reúne 52 mensagens trocadas entre Vorcaro e um número atribuído a Moraes. As conversas, ocorridas entre outubro e novembro de 2025, envolvem pedidos de ajuda relacionados a investigações da PF e do Ministério Público e referências a autoridades como Andrei Rodrigues e Paulo Gonet.
Em uma das mensagens, Vorcaro pergunta a Moraes se deveria deixar o país antes de ser preso. O conteúdo passou a integrar a disputa institucional depois que Mendonça retirou o sigilo do relatório e o encaminhou para manifestação da PGR.
A divulgação levou Gonet a questionar a legalidade da forma como a investigação foi conduzida. O procurador-geral sustenta que Mendonça não poderia determinar diretamente à PF uma apuração envolvendo outro ministro sem a participação do plenário do STF ou da própria PGR.
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Moraes reage e pede investigação contra Mendonça
A resposta de Moraes veio dentro do próprio inquérito das fake news. O ministro pediu a investigação de Mendonça por suspeitas relacionadas a abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.
O movimento aprofundou a disputa porque colocou dois ministros do STF em lados opostos de uma investigação que envolve diretamente integrantes da própria Corte.
Fachin, por sua vez, retirou a manifestação contra Mendonça do inquérito das fake news e determinou que o caso fosse analisado separadamente. A decisão colocou a Presidência do tribunal no centro da tentativa de estabelecer os limites para a atuação individual dos ministros.
Mendonça libera caso para julgamento no plenário
Mendonça decidiu liberar para julgamento o caso envolvendo o relatório da PF e as mensagens atribuídas a Vorcaro. A definição da data cabe a Fachin, que também terá de decidir a forma de apreciação do processo.
A decisão aumenta a pressão sobre o presidente do STF, que vinha tentando conduzir a crise por meio do procedimento administrativo aberto na Presidência.
O julgamento poderá colocar os próprios ministros diante da necessidade de discutir publicamente os limites da atuação individual em investigações que envolvem integrantes da Corte.
Entenda o contexto
O conflito ocorre em meio a uma discussão mais ampla sobre os limites do inquérito das fake news, aberto em 2019 para investigar ataques ao STF e a seus integrantes e relatado por Alexandre de Moraes.
Fachin defendeu recentemente a conclusão do inquérito e relacionou a medida à necessidade de estabelecer novos parâmetros institucionais para o funcionamento do tribunal. Ao mesmo tempo, o presidente do STF afirmou que pretende adotar as medidas cabíveis diante das revelações e reforçou a necessidade de respeito aos limites institucionais.
A crise ganhou uma dimensão ainda maior porque as divergências passaram a envolver não apenas decisões jurídicas, mas também a própria forma como ministros conduzem investigações que podem atingir colegas de Corte.
No plano político, o desgaste ocorre em um ambiente de forte polarização e às vésperas de uma nova etapa do calendário eleitoral. O episódio também alimenta o debate sobre transparência, controle interno e limites para decisões individuais dentro do Supremo.
Fachin terá de analisar as manifestações apresentadas no procedimento aberto pela Presidência e definir os próximos passos. O STF informou que os prazos foram estabelecidos para permitir a análise da regularidade dos procedimentos e das condutas questionadas, sem antecipação de juízo sobre as acusações.
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