António Guterres usa seu último discurso como secretário-geral na abertura da Assembleia Geral da ONU para lançar um alerta amplo: da inteligência artificial descontrolada às guerras que corroem a credibilidade do sistema multilateral que ele ainda tenta defender.
À frente da organização há 10 anos e com mandato previsto até 31 de dezembro de 2026, o português sai ovacionado pelo plenário em Nova York, enquanto seu legado é disputado em tribunais eleitorais no Brasil e analisado com crescente ceticismo em chancelarias pelo mundo.
IA, guerras e um mundo em risco de fragmentação
Guterres descreve um planeta às portas de uma ordem multipolar que pode tanto ampliar a cooperação quanto implodir as regras básicas de convivência. Ele avisa que instituições, mercados e cadeias de suprimento correm risco de se fragmentar, caso as grandes potências não aceitem limites claros para seus poderes.
“Em muitos aspectos, esse é o caminho que estamos seguindo agora”, adverte, ao falar de um sistema em que armas, dados e dinheiro circulam mais rápido do que qualquer mecanismo de controle. Na visão dele, só um multilateralismo robusto, centrado nas Nações Unidas e “balanceado e representativo”, consegue conter essa deriva.
O secretário-geral insiste que nenhuma supremacia isolada é solução. “Poder militar apenas não pode garantir a paz. O poder econômico, por si só, não pode instaurar a estabilidade. Poder tecnológico apenas não consegue garantir segurança”, diz, num recado direto a Washington, Pequim e outros centros de poder.
Ele volta à essência da Carta da ONU e tenta atualizar o conceito de paz. “A paz é muito mais do que a ausência de conflito. É a presença da limitação do poder pela lei”, afirma. E emenda que a força não pode ser “o árbitro final sobre cujas vidas, direitos e futuro importam”.
Inteligência artificial sob a mesma lupa das armas nucleares
Entre as novas ameaças, a inteligência artificial ganha um lugar central no discurso. Guterres compara os riscos da tecnologia ao trauma das armas nucleares na Guerra Fria, quando o mundo precisou construir, às pressas, um arcabouço de freios e contrapesos para evitar a destruição mútua.
“A inteligência artificial exige a mesma clareza de propósito e o mesmo senso de urgência”, afirma. Para ele, algoritmos que decidem sobre empregos, crédito, segurança e até alvos militares não podem ser deixados em mãos de poucos gigantes tecnológicos ou de Estados sem regras comuns.
O português defende que a IA seja moldada “pela humanidade, com a humanidade e para toda a humanidade”. Na prática, cobra que governos estabeleçam normas internacionais, supervisionem aplicações militares e criem mecanismos de transparência, sob pena de ampliar desigualdades e tensões geopolíticas.
Oriente Médio, Ucrânia, Sudão: a geopolítica do adeus
As guerras em curso ocupam parte decisiva da fala de despedida. No Oriente Médio, Guterres lembra que já se passaram quase três anos desde “os ataques terroristas abomináveis perpetrados pelo Hamas em 7 de outubro” e descreve a ofensiva seguinte em Gaza como uma escalada de destruição sem precedentes em seu tempo à frente da ONU.
“O que se seguiu foi uma ofensiva contra os palestinos em Gaza, com uma escala de mortes e destruição sem precedentes em todos os meus anos como secretário-geral”, afirma. O alerta culmina na defesa da chamada Solução de Dois Estados, que prevê um Estado palestino e um Estado judeu vivendo lado a lado.
“Não podemos permitir que a Solução de Dois Estados desapareça diante dos nossos olhos”, diz, arrancando aplausos no plenário. Para diplomatas, o trecho sintetiza a tentativa de Guterres de preservar um consenso mínimo em meio a um conflito que divide aliados históricos, expõe o uso político de vítimas civis e pressiona o próprio sistema da ONU.
Sobre a Ucrânia, ele denuncia ataques constantes a infraestrutura crítica de energia, água, transporte e moradia, que ameaçam cadeias globais de suprimento e a segurança alimentar em países muito além da fronteira do conflito. No Sudão, ressalta milhares de mortos e deslocados, num cenário em que a atenção internacional encolhe, enquanto os combates se prolongam.
“Poluidores precisam pagar” e a cobrança aos maiores emissores
Na área ambiental, Guterres mantém a marca que consolidou ao longo do mandato: o tom de cobrança direta aos maiores emissores de gases de efeito estufa e às empresas que lucram com combustíveis fósseis.
“Poluidores precisam pagar”, dispara, num dos trechos mais fortes da fala. Ele exige que governos adotem planos nacionais para abandonar carvão, petróleo e gás, com cronogramas alinhados ao limite de aquecimento global de 1,5 grau.
O secretário-geral insiste que a transição energética precisa incluir mecanismos de proteção para trabalhadores e comunidades dependentes da economia fóssil. O recado atinge tanto grandes petroleiras quanto países que baseiam boa parte de suas receitas em exportações de óleo e gás.
Reforma do Conselho de Segurança e um legado em disputa
No momento em que se prepara para deixar o cargo, Guterres aponta o alvo mais sensível da arquitetura da ONU: o Conselho de Segurança. Ele diz que o órgão, com cinco membros permanentes desde o pós-guerra, não reflete mais o mundo que hoje tenta arbitrar.
“O Conselho de Segurança foi criado no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Mas o mundo mudou fundamentalmente desde então. E essa mudança está longe de ser refletida no Conselho de Segurança”, afirma. Menciona especialmente a sub-representação de países africanos, apesar do aumento do peso demográfico e político do continente.
A crítica abre uma janela para o debate sobre seu próprio legado. Guterres é reconhecido por colocar clima, desigualdade e tecnologia no centro da agenda global. Mas enfrenta questionamentos por ter convivido, sem grandes rupturas, com contradições profundas no sistema que comanda.
A China mantém assento no Conselho de Direitos Humanos da ONU até o fim de 2026, mesmo sob acusações documentadas de graves violações em Xinjiang e restrições a liberdades em Hong Kong. A Arábia Saudita presidiu em 2025 a 69ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher, apesar das críticas persistentes a desigualdades legais de gênero no país.
Em 2024, o Irã assumiu a presidência da Conferência sobre Desarmamento em Genebra, pelo sistema rotativo em ordem alfabética. Um regime monitorado há anos justamente por seu programa nuclear passou a liderar o principal foro multilateral dedicado ao desarmamento. Em todos esses casos, o secretário-geral não escolhe nomes, mas é cobrado por não confrontar com mais veemência o “absurdo normalizado”.
Ovacionado em Nova York, arrastado para a disputa eleitoral no Brasil
O contraste entre o adeus em Nova York e a disputa política no Brasil ilustra o alcance e os limites da imagem de Guterres. Na Assembleia Geral, ele deixa o púlpito sob aplausos de pé de chefes de Estado e ministros. O gesto sintetiza um reconhecimento amplo, ainda que nem sempre convertido em resultados concretos.
No Brasil, a mesma cena vira munição eleitoral. Uma propaganda da campanha de Lula usa a imagem da plateia de pé, aplaudindo Guterres em seu último discurso, para sugerir uma ovação semelhante ao petista. A montagem mistura trechos da fala do presidente brasileiro com as palmas dirigidas, na verdade, ao secretário-geral.
A campanha de Flávio Bolsonaro reage e aciona o Tribunal Superior Eleitoral. A representação sustenta que houve desinformação e “montagem constrangedora” ao atribuir a Lula uma aclamação que não ocorreu daquela forma. Advogados falam em “furto de uso” de popularidade em evento internacional e classificam o conteúdo como “fabricado”.
O grupo pede ao TSE a suspensão imediata da propaganda, comunicação às emissoras de TV e multa ao candidato. O caso adiciona uma camada jurídica ao debate global sobre manipulação de imagens, uso político de eventos multilaterais e fronteiras entre marketing agressivo e fake news, em um ambiente em que a própria ONU discute riscos da inteligência artificial e de conteúdos sintéticos.
Guterres, que sempre tentou blindar a instituição de disputas partidárias nacionais, encerra assim seu ciclo à frente da ONU mais presente do que gostaria no jogo eleitoral de um dos maiores países do Sul global. Ao mesmo tempo, vê crescer a pressão para que seu sucessor traduza em reformas concretas o diagnóstico que ele entrega agora, em tom de alerta.
Até o fim de 2026, o português ainda conduz negociações delicadas sobre clima, reconstrução da Ucrânia e cessar-fogo em conflitos esquecidos da África. O discurso desta semana, porém, funciona como testamento político: um pedido para que a ONU continue existindo — e se transforme o suficiente para ser levada a sério num mundo fragmentado.
Quem é António Guterres e qual seu papel atual na ONU?
António Guterres é um político português de projeção internacional que hoje ocupa o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas, função que exerce há 10 anos e na qual coordena a atuação da ONU em paz e segurança, direitos humanos, desenvolvimento sustentável, ajuda humanitária e mediação de conflitos.
Qual foi o principal alerta de António Guterres sobre inteligência artificial em seu último discurso na Assembleia Geral?
O principal alerta de António Guterres sobre inteligência artificial em seu último discurso é que a tecnologia representa riscos comparáveis aos das armas nucleares, exigindo “a mesma clareza de propósito e o mesmo senso de urgência” para criação de regras globais, controle de aplicações militares e proteção contra desigualdades tecnológicas.
Qual a posição de António Guterres sobre a situação do Estado palestino?
António Guterres defende explicitamente a chamada Solução de Dois Estados, ou seja, a criação e coexistência de um Estado palestino e um Estado judeu, e afirma que “não podemos permitir que a Solução de Dois Estados desapareça diante dos nossos olhos”, vinculando essa proposta à única saída estável e justa para o conflito.
Qual a formação e experiência anterior de António Guterres antes de ser secretário-geral da ONU?
António Guterres chega ao cargo de secretário-geral da ONU após longa trajetória política e diplomática, mas a matéria não detalha sua formação acadêmica nem lista seus cargos anteriores, limitando-se a tratá-lo como um dirigente experiente que já atua há 10 anos à frente da organização multilateral.
Qual o salário do secretário-geral António Guterres?
O valor exato do salário de António Guterres como secretário-geral da ONU não é informado na matéria, que se concentra em seu último discurso, nas posições políticas que ele assume sobre guerras, clima e inteligência artificial, e nos debates sobre seu legado e as reformas institucionais necessárias na organização.