Marrocos estreia hoje nas Eliminatórias da Copa Africana de Nações de 2027 contra o Gabão, em Rabat, carregando o peso de uma campanha histórica recente no Mundial de Seleções. O jogo, às 16h (horário de Brasília), abre o Grupo A e marca um momento de ruptura para os dois lados.
Marrocos tenta transformar Mundial em hegemonia africana
No Estádio Príncipe Moulay Abdellah, a seleção marroquina entra em campo com a missão de confirmar, no continente, o salto de qualidade exibido diante das maiores potências do mundo. Sob comando de Mohamed Ouahbi desde março, o time mantém a base que chegou às quartas de final do Mundial de Seleções e encara a estreia com expectativa alta.
O treinador lembra que a transição entre um torneio global e a disputa africana é curta e exige atenção. “Marrocos inicia as Eliminatórias pouco mais de dois meses depois de encerrar sua participação na Copa do Mundo”, afirma Ouahbi, usando o desempenho recente como combustível, mas também como alerta para eventual acomodação.
A equipe chega embalada por uma sequência de resultados consistentes em competições continentais, em especial nas Eliminatórias anteriores da Copa Africana. No último ciclo, venceu todas as partidas da fase de grupos e consolidou o estádio em Rabat como uma fortaleza. O dado que circula na preparação resume esse domínio: Marrocos não perde em casa no tempo regulamentar desde a derrota por 3 a 1 para Burkina Faso, em julho de 2025.
Desfalques pesados testam elenco marroquino
A estreia, porém, cobra seu preço. Achraf Hakimi e Ismael Saibari cumprem suspensão por incidentes ligados à final da Copa Africana anterior. Outros nomes importantes, como Ayoub El Kaabi, Chadi Riad, Youssef Belammari, Youssef En-Nesyri e Hamza Igamane, ficam fora por lesão, enquanto Sofyan Amrabat não aparece entre os convocados.
Mesmo desfalcado, o time marroquino exibe profundidade rara na África. Noussair Mazraoui lidera a defesa, enquanto Brahim Díaz e Bilal El Khannouss organizam o setor criativo ao lado de Abde Ezzalzouli. No comando do ataque, Soufiane Rahimi surge como referência para transformar volume de jogo em gols e manter o retrospecto recente contra o rival.
Os números do confronto sustentam a confiança local. Nas Eliminatórias da Copa Africana de 2025, Marrocos venceu o Gabão por 4 a 1 e 5 a 1, resultados que balizam a expectativa da torcida para um início tranquilo no Grupo A, que ainda conta com Níger e Lesoto. Em um ciclo longo, começar com três pontos em casa tende a pesar no desenho final da tabela.
Gabão inicia era pós-Aubameyang pressionado
O Gabão vive roteiro bem diferente. A seleção desembarca em Rabat em meio a uma sequência de cinco derrotas nos últimos seis jogos e tenta reconstruir sua identidade sem Pierre-Emerick Aubameyang, astro aposentado do futebol de seleções. A ausência vai além do aspecto técnico e mexe com a hierarquia do vestiário.
No banco, o francês Sébastien Migné estreia em partida oficial no comando das Panteras. O técnico assume uma equipe que chegou a brigar por vaga no Mundial de Seleções, mas despencou de rendimento na reta final do ciclo. “O Gabão começa uma nova etapa depois de uma sequência de resultados negativos”, reconhece Migné, ciente de que o duelo em Rabat funciona como exame imediato de sua capacidade de reação.
Lesões de jogadores experientes, como Mario Lemina e Jim Allevinah, aprofundam o desafio. Clech Loufilou e Randy Essang Matouti entram na lista para recompor o meio-campo, enquanto o peso do ataque recai sobre Denis Bouanga, Shavy Babicka e o jovem Rody Junior Effaghe. A resposta desse trio pode definir se o Gabão briga por vaga direta ou apenas tenta evitar o fundo da tabela.
Jogo vale mais que três pontos no Grupo A
O Grupo A oferece pouco espaço para tropeços. Com Níger e Lesoto correndo por fora, a tendência é que Marrocos lidere a chave e Gabão apareça como principal candidato à segunda vaga. A partida de hoje, então, funciona como espécie de atalho: vitória marroquina confirma o favoritismo; triunfo gabonês reabre o equilíbrio e pressiona o anfitrião desde o início.
O resultado também tem impacto direto na narrativa em torno dos técnicos. Um bom desempenho de Mohamed Ouahbi reforça a ideia de continuidade do projeto iniciado no Mundial de Seleções, mesmo com elenco remendado. Para Migné, arrancar pontos em Rabat significaria virar a chave da crise logo no primeiro teste oficial e ganhar tempo para consolidar o novo modelo de jogo.
O encontro em Rabat acontece sem transmissão ao vivo confirmada para o Brasil, o que reduz a visibilidade direta do confronto para o torcedor brasileiro. A presença de atletas conhecidos do futebol europeu, porém, tende a manter o interesse de quem acompanha o torneio africano e busca sinais de quem pode incomodar nas fases finais.
Entre analistas, o favoritismo é claro. O jornalista Maurício Louro, especialista em pré-jogos, projeta vitória marroquina por 2 a 0, placar que respeita a reorganização do Gabão, mas ainda espelha a distância entre os elencos e o peso do mando de campo em Rabat. O que se vê, neste início de noite africana, é menos um simples jogo de estreia e mais um teste de maturidade para uma potência emergente e um país que tenta não se afastar do mapa do futebol continental.