O dono da MCK Reformas e Construções, empresa investigada por suspeitas de desvios de recursos destinados a obras em escolas estaduais do Rio de Janeiro, relatou à Polícia Civil que milhões de reais recebidos em contratos não teriam sido utilizados nos serviços. A apuração também identificou saques de grandes quantias em espécie, falta de documentação em licitações e indícios de direcionamento das contratações.
Marcos José Mendes Ferreira, sócio-administrador da MCK, afirmou em depoimento que a empresa foi contratada para cerca de 15 obras, que somavam aproximadamente R$ 6 milhões. Segundo o empresário, cerca de R$ 2 milhões teriam sido efetivamente utilizados nas reformas, enquanto outros R$ 4 milhões teriam ficado com Fábio Martins Pereira, apontado na investigação como responsável por intermediar contratos e controlar a conta bancária da companhia.
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Empresário diz que entrou em licitações sem conhecer escolas
Em depoimento prestado em janeiro, Marcos contou que nunca havia trabalhado para o poder público quando conheceu Fábio em uma igreja de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no fim de 2024.
Segundo o relato, Fábio perguntou se ele tinha interesse em participar de licitações. Marcos entregou documentos da MCK e, pouco mais de um mês depois, soube que havia vencido uma concorrência para reformar o Colégio Estadual Baltazar Bernardino, em Niterói.
O empresário afirmou que não havia elaborado proposta ou orçamento e que sequer tinha visitado a escola antes de saber que sua empresa havia vencido a disputa.
Somente depois, segundo ele, os dois foram até a unidade para avaliar o serviço. Marcos disse ter calculado a reforma completa em R$ 720 mil. Fábio teria informado que o contrato tinha valor superior e orientado que a diferença fosse repassada a ele quando o dinheiro entrasse na conta da empresa.
Investigação aponta R$ 19,8 milhões recebidos em 2025
Os valores identificados pelos investigadores são maiores do que os mencionados pelo empresário no depoimento.
A partir da análise de processos de contratação e de informações encaminhadas pela Secretaria de Estado de Educação, a investigação apontou que a MCK recebeu aproximadamente R$ 19,8 milhões em recursos públicos durante 2025.
Um relatório do Comitê de Inteligência Financeira da Polícia Civil também analisou R$ 11,8 milhões que entraram nas contas da empresa naquele ano. Segundo o levantamento, 82,9% desse montante foi retirado em espécie.
Ao banco, Marcos justificava os saques como pagamentos a funcionários. A investigação, porém, afirma que a MCK funcionava em um endereço residencial no bairro de Del Castilho e não possuía funcionários formalmente registrados.
R$ 500 mil foram encontrados em sacola
A movimentação de dinheiro em espécie entrou no radar das autoridades depois de um alerta do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf.
Em janeiro, o órgão informou sobre pedidos feitos pela MCK para realizar dois grandes saques: um de R$ 350 mil e outro de R$ 500 mil.
No dia 16 daquele mês, policiais acompanharam a movimentação em uma agência bancária de Duque de Caxias. Marcos saiu do local com R$ 500 mil dentro de uma sacola plástica e entrou em uma Toyota Hilux.
O veículo era conduzido por um policial militar armado. Em depoimento, o PM afirmou que Fábio havia pedido que acompanhasse o empresário na saída do banco e o levasse até um posto na Rodovia Washington Luís. Ele também relatou que já havia realizado esse tipo de transporte anteriormente.
Polícia vê indícios de conluio nas contratações
As obras eram contratadas por meio das Associações de Apoio às Escolas, entidades vinculadas às unidades estaduais que recebem recursos públicos.
Segundo a investigação, os processos envolvendo a MCK apresentavam um padrão: a empresa frequentemente vencia porque as concorrentes eram desclassificadas por não apresentarem documentos exigidos.
Nas poucas disputas em que a própria MCK perdeu, ela também teria deixado de entregar documentos que havia apresentado normalmente nos processos em que saiu vencedora.
Para os investigadores, a dinâmica representa um “forte indício de conluio prévio”.
Outro ponto identificado foi que, em dois processos, a mesma contadora assinou documentos financeiros da MCK e de empresas que concorriam com ela.
A investigação também afirma não ter localizado vistorias da coordenadoria de engenharia da Secretaria de Educação que comprovassem a conclusão dos serviços. Em algumas situações, a prestação de contas se limitava a relatórios fotográficos das obras.
Dinheiro foi transferido para outra empresa
Entre janeiro e agosto de 2025, a MCK transferiu R$ 1,8 milhão para a Virtual Rio Construtora, empresa ligada a Fábio Martins Pereira.
Segundo a apuração, aproximadamente 86,7% dos recursos recebidos pela companhia foram sacados. Em uma das operações, a empresa recebeu R$ 500 mil da MCK e retirou todo o valor em espécie no mesmo dia.
Os investigadores agora buscam identificar o destino final do dinheiro movimentado pelas empresas e os possíveis beneficiários dos recursos.
Ex-secretária de Educação está entre investigados
A Operação Escola de Papel, deflagrada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro e pela Polícia Civil nesta quinta-feira (1º), investiga integrantes da antiga cúpula da Secretaria estadual de Educação e empresários.
Entre os investigados está a ex-secretária de Educação Roberta Oliveira. Também são citados na apuração o ex-subsecretário de Administração David de Andrade Marinho Filho e pessoas ligadas à ex-secretária.
Segundo o Ministério Público, as notas de empenho referentes aos repasses utilizados para pagar a MCK foram assinadas por Roberta.
A investigação apura suspeitas de peculato, corrupção ativa e passiva, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Ao todo, foram expedidos 19 mandados de busca e apreensão. A Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 19 milhões em bens dos investigados.
As suspeitas ainda estão sob investigação e não representam condenação dos envolvidos.
Secretaria diz que revisa contratos
A Secretaria de Estado de Educação informou que, desde o início da atual gestão, vem revisando contratos e procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo das escolas estaduais.
A pasta afirmou ainda que colabora com o Ministério Público, o Tribunal de Contas do Estado, a Polícia Civil e os demais órgãos responsáveis pelas investigações.
As apurações continuam para rastrear o caminho dos recursos públicos, identificar os possíveis destinatários dos valores e determinar a eventual responsabilidade de cada um dos investigados.