Uma organização de direitos humanos sediada em Seul denunciou que a Coreia do Norte mantém uma prisão secreta no subsolo de sua embaixada em Pequim, na China. Segundo o relatório, o local seria utilizado para deter e interrogar norte-coreanos suspeitos de tentar desertar antes de serem enviados de volta ao país.
A denúncia foi apresentada pela Transitional Justice Working Group (TJWG) no relatório “North Korea’s Transnational Repression: China”, divulgado em 29 de setembro. O documento é baseado em entrevistas com diferentes fontes, incluindo um ex-diplomata norte-coreano, além de investigação em fontes abertas. Não há confirmação independente da existência da instalação descrita pela organização.
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Prisão funcionaria no subsolo da embaixada
De acordo com a TJWG, a suposta instalação fica no subsolo do prédio da seção consular da Embaixada da Coreia do Norte, no distrito de Chaoyang, em Pequim.
O relatório afirma que norte-coreanos enviados ao exterior que passam a ser considerados suspeitos de tentar fugir podem ser rastreados por agentes ligados ao regime.
Quando um funcionário destacado no exterior desaparece, informações sobre o caso seriam reunidas e comunicadas a Pyongyang em um intervalo de 12 a 24 horas. A partir das orientações recebidas da capital norte-coreana, agentes poderiam localizar e deter o alvo, segundo a investigação.
A operação seria supervisionada por um chamado “representante de segurança”, que oficialmente ocupa uma função consular, mas que, segundo a TJWG, seria ligado ao aparato de inteligência norte-coreano.
Após a detenção, os norte-coreanos seriam interrogados antes da repatriação. O relatório aponta que parte dos retornos ocorre em voos diretos da companhia estatal Air Koryo entre Pequim e Pyongyang.

Relatório reconstrói caso de hacker norte-coreano
Um dos casos apresentados pela TJWG é o de Pae Yong-ju, norte-coreano enviado à China para trabalhar como hacker e que, segundo a organização, tentou desertar para a Coreia do Sul.
Pae teria sido detido por autoridades chinesas na Mongólia Interior enquanto tentava deixar a China. De acordo com o relatório, ele permaneceu aproximadamente seis meses sob investigação das autoridades chinesas.
Depois desse período, teria sido entregue a representantes norte-coreanos por meio do Consulado-Geral da Coreia do Norte em Shenyang e posteriormente transferido para a embaixada em Pequim.
A TJWG afirma que Pae permaneceu detido e foi interrogado na representação diplomática por aproximadamente um ano.
Em agosto de 2023, segundo a investigação, ele foi levado ao aeroporto em uma cadeira de rodas, com o corpo imobilizado por gesso, e apresentado como se fosse um paciente antes de embarcar em um voo da Air Koryo com destino a Pyongyang.
A organização afirma que a estratégia teria sido utilizada para impedir uma tentativa de resistência ou fuga durante o transporte.
Três anos depois da repatriação, segundo a TJWG, um informante confirmou que Pae havia morrido na Coreia do Norte. O relatório não esclarece, porém, as circunstâncias ou a data exata da morte.
ONG aponta diferentes níveis de participação chinesa
O relatório também examina o papel das autoridades chinesas nas operações atribuídas à Coreia do Norte.
Segundo a TJWG, os casos identificados apresentam diferentes níveis de possível envolvimento: haveria operações realizadas unilateralmente por agentes norte-coreanos, situações em que autoridades chinesas teriam tolerado as ações e episódios nos quais órgãos locais teriam participado da localização, prisão, investigação ou entrega de pessoas.
No caso de Pae, a própria investigação afirma que ele foi inicialmente detido e interrogado por autoridades chinesas antes de ser entregue aos representantes norte-coreanos.
A TJWG sustenta que essas práticas constituem repressão transnacional e afirma que as operações descritas no documento levantam questionamentos sobre direitos humanos, devido processo legal e soberania judicial da China.
Relatório cita diplomatas e profissionais enviados ao exterior
A suposta estrutura não seria destinada apenas a trabalhadores comuns. Segundo a investigação, diplomatas, estudantes, integrantes do Partido dos Trabalhadores, profissionais de tecnologia e pessoas enviadas ao exterior para missões específicas também podem ser alvo quando há suspeita de tentativa de deserção.
Testemunhos reunidos pela organização indicam ainda que algumas pessoas podem ser atraídas até Pequim antes de serem detidas dentro da representação diplomática.
A TJWG afirma que interrogatórios realizados antes da repatriação serviriam para reunir informações sobre o caso e determinar a gravidade das punições que poderiam ser aplicadas após o retorno à Coreia do Norte.
O relatório também sustenta que as consequências podem alcançar familiares e pessoas próximas dos detidos, dentro do sistema de responsabilização coletiva atribuído ao regime norte-coreano.
Denúncia faz parte de investigação sobre repressão fora da Coreia do Norte
O documento divulgado pela TJWG é o segundo de uma série dedicada à chamada repressão transnacional da Coreia do Norte.
A investigação sobre a China reúne entrevistas e informações de fontes abertas para reconstruir operações atribuídas a agentes norte-coreanos fora do território do país.
Além da suposta instalação na embaixada de Pequim, o trabalho examina casos de perseguição, sequestro e morte de desertores, ativistas e missionários em território chinês desde a década de 1990.
A organização pede que a comunidade internacional acompanhe a atuação das autoridades chinesas diante das denúncias e investigue eventuais casos de cooperação com operações norte-coreanas.
Uma terceira etapa da investigação deverá analisar a atuação da Coreia do Norte na Rússia. A TJWG e a Global Rights Compliance também preveem a publicação de um relatório investigativo mais amplo sobre o tema em 2027.