Neste domingo (4), milhões de brasileiros vão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Em uma eleição na qual expressões como direita, esquerda, centro e extremos aparecem constantemente nos discursos políticos, entender o significado desses conceitos ajuda a interpretar melhor as propostas apresentadas aos eleitores.
Por isso, no dia do primeiro turno das Eleições 2026, o NC News retoma a série especial apresentada pela jornalista Katlen Costa sobre os diferentes campos do espectro político. Desta vez, a pergunta é: afinal, o que significa ser de esquerda?
A resposta não está em um único partido, político ou posicionamento. A esquerda reúne diferentes correntes de pensamento e passou por transformações ao longo da história. Em geral, o campo está associado a propostas voltadas à redução das desigualdades, à ampliação de direitos sociais, à proteção dos trabalhadores e a diferentes graus de participação do Estado na economia e na oferta de serviços públicos.
O que é ser de direita? Entenda as ideias e posições associadas ao campo político
De onde surgiu a esquerda?
Assim como ocorre com o conceito de direita, a origem política do termo esquerda costuma ser relacionada à Revolução Francesa, no final do século XVIII.
Na Assembleia francesa, diferentes grupos passaram a ser identificados de acordo com o lugar que ocupavam. Os setores favoráveis a transformações políticas mais profundas ficaram associados ao lado esquerdo.
A divisão atravessou os séculos, mas seu significado mudou. Com o desenvolvimento de novas correntes políticas e econômicas, a esquerda passou a reunir diferentes visões sobre igualdade, trabalho, propriedade, direitos e atuação do Estado.
Por isso, ser de esquerda atualmente não significa necessariamente defender exatamente as mesmas ideias que eram defendidas por movimentos identificados com esse campo em outros momentos históricos.
Quais ideias costumam ser associadas à esquerda?
Não existe uma lista capaz de definir todas as pessoas ou movimentos de esquerda. Algumas características, no entanto, aparecem com frequência em diferentes correntes desse campo.
Entre elas estão a preocupação com a redução das desigualdades sociais e econômicas, a proteção dos trabalhadores, a ampliação de direitos sociais e a defesa de políticas públicas em áreas como saúde, educação e assistência social.
Outra característica encontrada em diversas correntes é a defesa de alguma participação do Estado na economia. O tamanho e a forma dessa atuação, porém, variam consideravelmente.
Há grupos que defendem uma economia de mercado acompanhada por políticas sociais e mecanismos de regulação. Outros propõem mudanças mais profundas na organização econômica.
Esquerda não significa uma única ideologia
Um dos pontos centrais para compreender esse campo político é justamente sua diversidade.
Social-democratas, socialistas e comunistas, por exemplo, podem ser classificados dentro do amplo espectro da esquerda, mas possuem diferenças importantes sobre economia, propriedade privada, papel do Estado e formas de transformação da sociedade.
Duas pessoas identificadas com a esquerda podem, portanto, concordar sobre a necessidade de reduzir desigualdades e discordar sobre quais políticas devem ser utilizadas para alcançar esse objetivo.
Da mesma maneira, uma pessoa pode concordar com determinadas propostas associadas à esquerda sem se identificar integralmente com esse campo político.
Como a esquerda se desenvolveu no Brasil?
No Brasil, ideias socialistas, anarquistas e comunistas passaram a circular com maior intensidade entre trabalhadores, sindicatos e movimentos operários entre o final do século XIX e o início do século XX.
Um marco importante ocorreu em 1922, com a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Ao longo das décadas seguintes, diferentes organizações passaram a incorporar pautas relacionadas aos trabalhadores, à distribuição de renda, aos direitos sociais e à participação estatal na economia.
Durante o processo de redemocratização, novas forças políticas também ganharam espaço. Em 1980, foi fundado o Partido dos Trabalhadores (PT), que posteriormente se consolidou como uma das principais legendas brasileiras identificadas com a esquerda.
Quais partidos são associados à esquerda no Brasil?
No cenário brasileiro, legendas como PT, PSOL, PCdoB, PSB e PDT aparecem frequentemente em classificações relacionadas à esquerda ou à centro-esquerda.
Essas classificações, porém, não são imutáveis nem significam que os partidos defendam as mesmas posições.
A localização de uma legenda no espectro político pode variar de acordo com o período analisado, suas propostas, alianças, votações e também com o critério adotado por pesquisadores e analistas.
Ser de esquerda significa ser contra empresas privadas?
Não necessariamente.
Existem correntes de esquerda que defendem a economia de mercado e a atuação de empresas privadas, combinadas com políticas públicas, regulação econômica e sistemas de proteção social.
Outras correntes defendem transformações mais profundas na propriedade dos meios de produção e na própria organização da economia.
Por isso, a posição de uma pessoa sobre empresas privadas, isoladamente, não é suficiente para determinar sua classificação política.
Esquerda também não é sinônimo de extrema esquerda
Outro cuidado importante é evitar tratar esquerda e extrema esquerda como expressões equivalentes.
Existem diferentes correntes de esquerda que defendem suas propostas dentro das instituições democráticas, por meio de eleições, partidos, movimentos sociais e participação política.
O conceito de extremismo envolve outros elementos e pode estar relacionado, entre diferentes definições acadêmicas, à rejeição do pluralismo e das regras democráticas ou à legitimação da violência política.
Por isso, defender maior participação do Estado, programas sociais, direitos trabalhistas ou mudanças profundas na economia não é suficiente, isoladamente, para classificar uma pessoa ou movimento como extremista.
Entender os conceitos antes de usar os rótulos
Direita e esquerda continuam sendo referências importantes para compreender a política, mas não explicam sozinhas todas as posições de um eleitor, candidato ou partido.
Uma pessoa pode concordar com propostas tradicionalmente associadas à esquerda em determinado assunto e assumir posições mais próximas do centro ou da direita em outro.
É justamente por isso que a série NC News Explica apresenta separadamente direita, esquerda, centro e extremos políticos.
Neste domingo, quando o eleitor chega à urna para fazer suas escolhas nas Eleições 2026, compreender essas diferenças permite analisar propostas e posicionamentos para além dos rótulos utilizados durante a campanha.