A possível eleição de Flávio Bolsonaro (PL) para a Presidência da República pode consolidar a maior guinada de direita da América do Sul desde o início do século XXI. Caso confirme o favoritismo demonstrado no primeiro turno, o Brasil passará a integrar um bloco de oito países governados por líderes de direita ou centro-direita, contra apenas quatro administrados por governos de esquerda.
O movimento representa uma inversão histórica em relação ao cenário vivido durante a chamada “Onda Rosa”, período em que partidos de esquerda dominaram grande parte do continente, iniciado em 1998 com a vitória de Hugo Chávez, na Venezuela. Mais recentemente, em 2015, oito dos 12 países sul-americanos eram governados por líderes progressistas ou de centro-esquerda. Hoje, o quadro é praticamente o oposto.
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Como a direita avançou pelo continente
O avanço conservador ganhou força após sucessivas crises econômicas, aumento da insegurança pública e desgaste de governos de esquerda na região. A mudança se acelerou entre 2024 e 2026, com vitórias eleitorais de candidatos alinhados a pautas liberais na economia e mais rígidas na área de segurança.
Atualmente, o bloco conservador sul-americano é formado por Argentina, sob o comando de Javier Milei; Equador, governado por Daniel Noboa; Chile, liderado por José Antonio Kast; Bolívia, com Rodrigo Paz; Colômbia, comandada por Abelardo De La Espriella; Paraguai, governado por Santiago Peña; e Peru, Keiko Fujimori. Todos esses países adotaram posições mais próximas do centro e da direita em temas econômicos e de segurança.
Se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno, o Brasil se juntará a esse grupo, consolidando uma maioria conservadora sem precedentes recentes no continente.

O fim da hegemonia da esquerda
A nova configuração marca o enfraquecimento da influência política que durante duas décadas foi exercida por líderes como Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Néstor e Cristina Kirchner.
A situação da Venezuela é mais complexa. Apesar da queda de Nicolás Maduro, o governo que o sucedeu passou a adotar uma postura mais pragmática nas relações internacionais e econômicas. Ainda assim, a Venezuela não é considerada parte do bloco conservador sul-americano, permanecendo em uma posição intermediária e de transição política.
Brasil pode se tornar peça-chave da nova maioria conservadora
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro teria impacto além das fronteiras brasileiras. Como maior economia e país mais populoso da América Latina, o Brasil exerce papel central na definição das prioridades políticas e diplomáticas da região.
Um governo alinhado ao campo conservador fortalece a aproximação com os Estados Unidos, especialmente sob a presidência de Donald Trump. Temas como combate ao narcotráfico, endurecimento das políticas de segurança, controle migratório e fortalecimento da cooperação policial poderiam ganhar destaque na agenda bilateral.
Durante a campanha, Flávio Bolsonaro defendeu propostas inspiradas em modelos adotados nos Estados Unidos e em El Salvador, incluindo o fortalecimento do sistema prisional e o endurecimento das ações contra organizações criminosas. A recente decisão americana de classificar facções como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas também pode aumentar a pressão para que o próximo governo brasileiro adote medidas semelhantes ou amplie a cooperação internacional no combate ao crime organizado.
Novo equilíbrio geopolítico
Com a ascensão da direita em grande parte da América do Sul, o continente passa a apresentar um alinhamento mais favorável aos interesses estratégicos de Washington. Questões ligadas à segurança, comércio, mineração, energia e combate ao narcotráfico tendem a ganhar maior protagonismo na agenda regional.
Ao mesmo tempo, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro enfraqueceria o eixo político historicamente liderado por governos de esquerda na região, reduzindo a influência de grupos alinhados ao chamado progressismo latino-americano. Mais do que ir, marca o possível fim da era Lula, que já tem mais de 80 anos de idade.
Independentemente do resultado do segundo turno, a eleição brasileira já é vista por observadores internacionais como a disputa mais importante do continente em 2026. Afinal, além de definir o futuro político do maior país da América do Sul, o pleito poderá consolidar uma nova correlação de forças geopolíticas em toda a região.