Pesquisa identifica 37 mil microplásticos no Rio Madeira e revela dimensão da poluição

Uma das principais conclusões do levantamento é que a contaminação não tem uma única origem e pode se espalhar por diferentes caminhos no ambiente. As análises encontraram partículas provenientes de materiais como garrafas PET e PVC. A pesquisadora Naiana Lopes também alerta para o transporte desses resíduos pela atmosfera e pretende ampliar o estudo com amostras dos rios Negro e Solimões
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Uma pesquisa realizada no Rio Madeira identificou a presença de milhares de microplásticos em diferentes pontos da bacia e aponta para um cenário de poluição que, segundo a pesquisadora e engenheira química e ambiental Naiana Lopes, não está restrito a uma única fonte ou apenas às áreas urbanas.

No levantamento, foram contabilizados 37 mil microplásticos, enquanto algumas das concentrações registradas em pontos específicos chegaram a centenas de milhares de partículas por metro cúbico.

Naiana explica que as análises foram realizadas para quantificar a presença dessas partículas e entender como elas estão distribuídas ao longo do rio. Um dos pontos avaliados fica na região da foz, onde o Madeira segue em direção ao Rio Amazonas. Nesse trecho, foram identificados 15 mil microplásticos por metro cúbico.

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A pesquisadora também encontrou concentrações diferentes em outros pontos analisados da região, com registros de 283 mil, 257 mil e 155 mil microplásticos por metro cúbico, além de uma concentração de 324 mil partículas por metro cúbico mencionada no levantamento.

Ao explicar os resultados, Naiana destaca que a presença do material não pode ser compreendida apenas como consequência da atividade de uma cidade específica. Para ela, os números indicam uma contaminação que se espalha pelo ambiente e pode chegar ao rio por diferentes caminhos.

“Eu estudei o Rio Madeira e fiz a contagem e quantifiquei, e ele tem muito microplástico no Rio Madeira. Tem 37 mil microplásticos. Começa em Itá, na foz, que vai direto para o Rio Amazonas, 15 mil microplásticos por metro cúbico. Mas cada cidade gera esse microplástico”, explica a pesquisadora em entrevista ao NC News.

Naiana Lopes, pesquisadora e engenheira química e ambiental durante estudo sobre o Rio Madeira – Foto: Arquivo pessoal

A partir das concentrações encontradas em diferentes pontos, a pesquisadora afirma que o problema não deve ser observado somente a partir dos locais onde há maior ocupação urbana. Naiana classifica o fenômeno como uma poluição difusa e homogênea, justamente porque as partículas podem ser transportadas e distribuídas por diferentes meios.

“Eu comprovo que há uma poluição difusa e homogênea. Por que difusa e homogênea? Porque não vem somente das cidades, vem sim pelo rio. É uma poluição difusa, vem para todos, toda parte. Ar, solo e água. Então, o microplástico, ele está para todo lado”, pontua Naiana Lopes.

Partículas também podem chegar aos rios pela atmosfera

A análise da pesquisadora vai além daquilo que pode ser encontrado diretamente na água. Naiana também realizou, em parceria com outro professor, uma investigação relacionada à presença de partículas transportadas pelo vento.

A hipótese apresentada é que o material plástico presente no ambiente pode ser fragmentado e transportado pela atmosfera, aumentando as possibilidades de chegada aos rios e igarapés. Um dos pontos de preocupação citados pela engenheira é a queima de resíduos em lixões.

Segundo ela, a queima de grandes quantidades de lixo pode aumentar a concentração de partículas na atmosfera. Posteriormente, esse material pode se depositar sobre o solo e sobre os corpos d’água.

“Eu consegui também fazer com outro professor na parte do vento. Quando vocês queimam os lixões, bastante concentração na atmosfera e depois vai se decantar nos rios, nos igarapés”, destaca Naiana.

A observação amplia a dimensão do problema apontado pela pesquisa. Em vez de considerar apenas o lançamento direto de resíduos nos cursos d’água, a presença de microplásticos precisa ser analisada dentro de um processo mais amplo de circulação de partículas pelo ambiente.

Quais materiais foram encontrados?

Além de contabilizar os microplásticos, a pesquisa também buscou identificar quais tipos de polímeros aparecem nas amostras coletadas no Rio Madeira. Entre os materiais encontrados com maior frequência estão o polietileno tereftalato (PET), o PVC e o poliéster.

O PET é utilizado principalmente em garrafas e diferentes tipos de embalagens. O PVC é comum em materiais utilizados na construção civil, incluindo tubos, enquanto o poliéster é amplamente empregado na produção de tecidos e roupas.

A identificação desses materiais ajuda a apontar possíveis origens dos resíduos que, depois de descartados no ambiente, podem sofrer processos de fragmentação e dar origem a partículas menores. Naiana resume quais foram os três materiais que mais apareceram nas análises:

“E os principais plásticos que eu encontrei, microplásticos, são o polietileno tereftalato, que é o PET, que são as garrafas PET, de plástico. O PVC, que é do cano da construção civil e de cabos também. O poliéster, que vem das roupas. São esses três mais frequentes que eu encontrei no Rio Madeira”, relata Naiana.

Pesquisadora quer comparar Madeira, Negro e Solimões

O trabalho com o Rio Madeira é parte de uma investigação maior. Naiana também coletou amostras dos rios Negro e Solimões e pretende comparar os resultados para entender como a presença de microplásticos se comporta nas três grandes bacias.

As análises, porém, ainda dependem da continuidade dos trabalhos em laboratório. A pesquisadora afirma que aguarda uma oportunidade para retomar os procedimentos com as amostras dos outros dois rios.

“Eu vou publicar um artigo do Madeira e vou, na parte quantitativa e na parte qualitativa, que é o acesso à água potável. Na parte quantitativa, em relação a microplásticos, do Negro vai ser a parte qualitativa. Como eu já fiz as amostras do Negro e do Solimões, eu estou esperando a oportunidade do laboratório abrir as portas para mim continuar fazer o Negro e o Solimões”, completa a pesquisadora.

A comparação poderá ajudar a estabelecer diferenças entre os rios e identificar onde as concentrações de microplásticos são maiores. Por enquanto, a pesquisadora afirma que o Madeira é o rio que apresentou os resultados mais expressivos entre os levantamentos que conseguiu realizar.

“Porque eu quero comparar entre os três rios, quais são os mais poluídos. Provavelmente pode ser o Negro, provavelmente pode ser o Solimões, mas por enquanto é o Rio Madeira”, conclui Naiana Lopes, pesquisadora e engenheira química e ambiental.

O projeto é desenvolvido em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por meio do GP-QTA, com a orientação em campo do Professor Sergio Duvoisin Junior – Foto: Arquivo pessoal

Estudo busca dimensionar uma poluição que não fica restrita à água

Os resultados apresentados por Naiana apontam para um problema que ultrapassa a presença de resíduos visíveis nos rios. Os microplásticos são partículas pequenas que podem resultar da fragmentação de materiais maiores e circular por diferentes compartimentos ambientais.

No caso do Rio Madeira, a pesquisa busca justamente compreender essa distribuição e quantificar a presença das partículas, além de identificar os materiais que aparecem com maior frequência.

A continuidade das análises dos rios Negro e Solimões poderá permitir uma comparação mais ampla dentro da região amazônica. Até que esses resultados sejam concluídos, o levantamento realizado no Madeira coloca o rio no centro de uma investigação sobre a presença e a dispersão de microplásticos na Amazônia.

Para Naiana, a principal característica observada até agora é justamente a capacidade de essa poluição ultrapassar uma única fonte e circular pelo ambiente.

Água, solo e ar passam a fazer parte da mesma equação — e o Rio Madeira é, até o momento, o principal ponto de concentração identificado pela pesquisadora em sua comparação entre os grandes rios amazônicos.

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