Roque Santeiro volta à TV após 40 anos, mas estreia com audiência abaixo das antecessoras

Reprise especial de Roque Santeiro traz lembranças da censura e do elenco icônico, com audiência inicial menor em São Paulo.
Redação NC News
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Quarenta anos depois de transformar Asa Branca em fenômeno nacional, a novela Roque Santeiro voltou à TV aberta em edição especial e estreou com 11 pontos de audiência em São Paulo, número abaixo das antecessoras no mesmo horário, mas suficiente para recolocar o clássico de Dias Gomes e Aguinaldo Silva no centro da conversa sobre memória da TV e censura.

Reprise celebra clássico e expõe desafio de audiência

A reexibição começou nesta segunda (5), na faixa Edição Especial da TV Globo, com 11 pontos na Grande São Paulo, enquanto as novelas anteriores no horário iniciaram com 13. O desempenho sinaliza o desafio de um folhetim clássico competir hoje com streaming e conteúdo sob demanda, ao mesmo tempo em que reforça a aposta da emissora em nostalgia e na valorização do acervo.

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A trama, que mistura realismo fantástico e crítica social, é considerada por críticos, artistas e muitos telespectadores uma das melhores novelas brasileiras já produzidas. Nos anos 1980, Roque Santeiro quebrou recordes de audiência e, segundo o então diretor artístico da Globo, Boni, chegou ao topo absoluto: “Deu picos de 100%. E olha que estamos falando de índice de audiência e não de participação”. Esse patamar jamais foi repetido por outra produção.

Na nova edição, a emissora aposta no apelo de personagens que entraram para o imaginário popular, como o fazendeiro mandão Sinhozinho Malta (Lima Duarte), a explosiva Viúva Porcina (Regina Duarte) e o próprio Roque (José Wilker), o santeiro que vira mito em Asa Branca.

Entenda o contexto

Roque Santeiro nasceu da peça O Berço do Herói, de Dias Gomes, que foi proibida pela censura em meados da ditadura militar. Anos depois, já transformada em novela, a história voltou a ser barrada em 1975, quando estava pronta para estrear como folhetim das oito, com Betty Faria anunciada como Viúva Porcina e Lima Duarte escalado como Sinhozinho Malta.

O departamento de censura do governo assistiu aos primeiros capítulos e vetou a exibição no horário, alegando ofensas à moral, à ordem pública, aos bons costumes e à Igreja. Cerca de 30 capítulos gravados foram descartados, e a emissora precisou montar às pressas outra programação.

Somente com o fim da ditadura, em meados da década de 1980, a história pôde ir ao ar, já com mudanças no elenco e na equipe de roteiro. Regina Duarte assumiu a Viúva Porcina, José Wilker entrou como Roque, e Aguinaldo Silva dividiu a autoria com Dias Gomes.

Aguinaldo, que assumiu a novela a partir do capítulo 51, lembra o desinteresse do colega pelo ritmo industrial das gravações: “O Dias simplesmente não se interessou pela novela, tanto que ele me entregou os primeiros capítulos e depois viajou para a Europa”. Dias voltou mais adiante, para escrever os desfechos.

Por que a reprise de Roque Santeiro teve audiência menor em São Paulo?

Roque Santeiro reestreou com 11 pontos em São Paulo porque enfrenta hoje um cenário muito mais fragmentado de consumo de TV do que no auge de sua exibição original, quando disputava a atenção do público praticamente só com outras atrações da TV aberta.

Enquanto antecessoras na mesma faixa começaram com 13 pontos, o clássico chega em 2026 cercado por plataformas digitais, streaming e redes sociais, que dividem o tempo de tela do telespectador. A emissora aposta que o boca a boca, a curiosidade histórica e o fator nostalgia possam reforçar a audiência nos próximos capítulos, mas já sabe que dificilmente repetirá o fenômeno de quatro décadas atrás.

Mesmo com a largada mais tímida, a reprise tem peso simbólico importante: recoloca no horário nobre da memória nacional uma obra que foi censurada durante a ditadura e depois virou caso exemplar de liberdade artística na redemocratização.

Roque Santeiro vale a pena ver de novo?

Roque Santeiro volta em edição enxuta, o que pode facilitar a vida de quem nunca viu a história e de quem quer revisitar o clássico sem encarar o ritmo de uma novela longa como na primeira exibição. O enredo combina realismo fantástico, humor e política ao narrar a história de um homem dado como morto, transformado em santo milagreiro por interesses de poder na pequena Asa Branca.

Além da trama central, a novela funciona como vitrine de um momento específico do Brasil, às vésperas da redemocratização, com críticas à mistura de coronelismo, religião e marketing político. A edição especial também destaca personagens e núcleos paralelos que ajudaram a fixar a obra na memória coletiva.

Para o público de hoje, a reprise serve tanto como entretenimento quanto como documento histórico, permitindo comparar o país que a novela retrata com o Brasil atual.

Quem é o lobisomem na novela Roque Santeiro?

O lobisomem de Roque Santeiro é o Professor Astromar, personagem vivido por Rui Rezende, que tem sua identidade revelada apenas no último capítulo da trama.

Na história, Astromar é um homem misterioso, sempre pálido, vestido de preto e alvo da desconfiança dos moradores de Asa Branca. Nas noites de lua cheia, surgem relatos de um lobisomem rondando a cidade, alimentando o clima de superstição que mistura fé, medo e boato. A revelação do professor como criatura lendária é um dos momentos mais lembrados da novela e reforça o tom de realismo fantástico que marca a obra.

Elenco de Roque Santeiro reúne veteranos e estreantes

A volta ao ar recoloca em evidência um elenco que ajudou a moldar a teledramaturgia brasileira. Além de Lima Duarte, Regina Duarte e José Wilker, a trama marcou em 1985 a estreia de atrizes que se tornariam presenças constantes nas novelas, como Lucinha Lins (Mocinha), Patrícia Pillar (Linda Bastos) e Cláudia Raia (Ninon).

A reprise também reacende a curiosidade sobre artistas que se afastaram da TV. Um dos casos mais emblemáticos é o de Lídia Brondi, a Tânia Malta, filha de Sinhozinho. A atriz deixou a carreira no início dos anos 1990 e migrou para a psicologia, mantendo-se longe dos folhetins desde então.

Regina Duarte, a Viúva Porcina, também está fora das novelas há anos. No teatro, ela voltou aos palcos em parceria com a filha, Gabriela Duarte, e não descarta uma participação pontual na TV. Em declaração recente sobre uma possível volta em papel menor, brincou com o tamanho da responsabilidade em novelas longas: “A mudinha é uma proposta interessante”, disse, sugerindo um personagem com pouco texto.

Patrícia Pillar, outra figura central do elenco de Roque Santeiro, também se mantém distante de novelas inéditas, escolhendo projetos pontuais no cinema, no teatro e em séries.

Anos de censura, hoje revisados pelo controle remoto

O retorno de Roque Santeiro reacende o debate sobre os anos de censura e o papel da TV na formação da memória coletiva. A novela, que teve cerca de 30 capítulos descartados quando foi proibida em 1975, volta em 2026 como produto pronto para o consumo em plena democracia, em um ambiente em que a palavra “censura” voltou a ganhar espaço em discussões políticas e culturais.

Ao revisitar uma história que já foi considerada ofensiva à moral e aos bons costumes pelo regime militar, a emissora não só reforça o valor de seu acervo como também coloca o tema da liberdade artística na sala de estar de um público que, em muitos casos, só ouviu falar da ditadura pelos livros, pelos pais ou pelos avós.

Se a audiência vai crescer ou não, serão os próximos capítulos que dirão. Por ora, Roque Santeiro cumpre o papel de lembrar por que ainda se fala tanto em Asa Branca, em Sinhozinho Malta e naquela viúva “que foi sem nunca ter sido”.

 

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