Um grupo de 12 deputados democratas dos Estados Unidos acusou o governo de Donald Trump de tentar influenciar as eleições brasileiras de 2026. Em carta enviada ao secretário de Estado, Marco Rubio, os parlamentares questionam uma série de medidas adotadas por Washington e cobram explicações sobre a atuação americana em relação ao processo eleitoral do Brasil.
O documento, datado de segunda-feira (6), tem como um dos principais pontos a revogação do visto diplomático da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Os congressistas classificam a medida como “extraordinária e sem precedentes” e afirmam que ela representa uma nova escalada na crise diplomática entre os dois países.
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Na carta, os congressistas afirmam que a retirada do visto da embaixadora seria parte do que classificam como um esforço contínuo da administração Trump para influenciar a política interna brasileira.
Os parlamentares citam, entre os episódios que sustentam a cobrança, tarifas impostas ao Brasil, sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), contatos de integrantes do governo americano com o ex-presidente Jair Bolsonaro e questionamentos sobre a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro.
A afirmação de que essas medidas configuram uma tentativa de interferência é uma avaliação dos deputados democratas. A carta, por si só, não comprova que o governo americano tenha interferido ilegalmente no processo eleitoral brasileiro.
“Essa decisão equivocada prejudica ainda mais a reputação dos Estados Unidos na região e aproxima o Brasil das mãos de nossos adversários”, afirma a carta.
Visto de embaixadora está no centro da cobrança
Os congressistas querem saber por que o Departamento de Estado revogou o visto diplomático de Maria Luiza Ribeiro Viotti e se a decisão teve participação direta da Casa Branca.
A medida teria ocorrido depois que o Brasil negou vistos a Riley M. Barnes, secretário-assistente de Estado para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto da mesma área.
Os deputados cobram informações sobre o objetivo da viagem dos dois funcionários ao Brasil, quais reuniões estavam previstas e qual foi o grau de coordenação entre o Departamento de Estado e a Casa Branca.
Também perguntam se Trump foi informado previamente sobre a retirada do visto da representante brasileira.
Carta cita Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro
Outro questionamento apresentado a Marco Rubio envolve eventuais contatos de integrantes do governo americano com a família Bolsonaro.
“As relações entre os EUA e o Brasil devem ser baseadas no respeito às escolhas democráticas do povo brasileiro, e não determinadas pelo fato de o candidato apoiado pelo presidente Trump sair vitorioso.”
Os deputados perguntam se Rubio, seu vice ou qualquer outra autoridade de alto escalão do Departamento de Estado autorizou contatos com Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro ou representantes deles relacionados à revogação do visto da embaixadora.
A existência da pergunta na carta não significa que esses contatos tenham ocorrido nos termos levantados pelos congressistas. O grupo cobra justamente que o Departamento de Estado esclareça se houve comunicação e, em caso positivo, em quais circunstâncias.
Deputados cobram provas sobre sistema eleitoral
Os democratas também questionam por que integrantes do Departamento de Estado teriam buscado analisar o sistema eleitoral brasileiro durante uma campanha presidencial em andamento.
O grupo pede que o governo americano informe quais evidências possui para eventualmente questionar a credibilidade das eleições brasileiras.
Os parlamentares querem ainda saber se o Departamento de Estado considera a eleição presidencial brasileira de 2022 livre e justa e se dispõe de alguma evidência de que o processo eleitoral de 2026 não seja confiável.
Relação com a China entra na discussão
A carta também questiona os possíveis efeitos da deterioração das relações entre Washington e Brasília.
Os deputados perguntam se a administração Trump avaliou se as medidas adotadas poderiam aproximar o Brasil da China ou prejudicar a cooperação entre brasileiros e americanos em áreas como combate ao narcotráfico, segurança regional e comércio.
Para os signatários, a relação bilateral deve ser baseada no respeito às escolhas feitas pelos eleitores brasileiros, independentemente do resultado da eleição presidencial.
Rubio tem prazo até 20 de outubro
A carta é assinada por Sydney Kamlager-Dove, Gregory Meeks, James McGovern, Pramila Jayapal, Nydia Velázquez, Jonathan Jackson, Sylvia Garcia, Dina Titus, Yvette Clarke, Mike Quigley, Jasmine Crockett e Madeleine Dean.
Os congressistas deram ao Departamento de Estado prazo até 20 de outubro para responder aos questionamentos por escrito, cinco dias antes do segundo turno da eleição presidencial brasileira.
A nova cobrança se soma a manifestações anteriores de parlamentares americanos. Em setembro, outros grupos de deputados e senadores já haviam enviado cartas a Rubio questionando ações da administração Trump relacionadas ao Brasil.
Nesta quarta-feira, no entanto, a Polícia Federal brasileira arquivou uma representação apresentada pela Advocacia-Geral da União para apurar uma possível interferência dos Estados Unidos nas eleições. A PF concluiu que os elementos apresentados não continham indícios mínimos de crime suficientes para justificar a abertura formal de um inquérito.
O arquivamento da apuração brasileira e a carta dos deputados tratam de iniciativas distintas. A manifestação dos congressistas representa uma cobrança política ao governo Trump, enquanto a decisão da PF diz respeito à existência de elementos para instaurar uma investigação criminal no Brasil.