O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu mudar sua estratégia de comunicação para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Após terminar a primeira votação atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o petista aceitou sugestões de parlamentares jovens e prometeu gravar vídeos diariamente para as redes sociais, em uma tentativa de ampliar o alcance da campanha e reduzir a diferença de mais de 2,2 milhões de votos registrada no primeiro turno.
A mudança foi discutida durante uma reunião realizada na quarta-feira (7), em Brasília, com deputados federais eleitos e integrantes da campanha. Segundo relatos de participantes divulgados pelo Metrópoles, Lula reconheceu a necessidade de se comunicar de maneira mais direta com os eleitores, mesmo demonstrando resistência ao formato de vídeos gravados com o próprio celular.
A nova orientação já começou a aparecer no perfil oficial do presidente. Somente na quarta-feira, foram publicados nove vídeos no formato selfie. Em três deles, Lula aparece sozinho diante da câmera. Nos outros seis, está acompanhado de parlamentares recém-eleitos. A estratégia combina a ampliação da presença digital com mobilizações nas ruas, universidades e estados considerados importantes para o resultado do segundo turno, marcado para 25 de outubro.
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A avaliação de integrantes da campanha é que a comunicação digital precisa ser reforçada para alcançar eleitores que não acompanham comícios, entrevistas ou programas tradicionais de televisão.
Durante o primeiro turno, auxiliares já defendiam que Lula gravasse conteúdos mais espontâneos, principalmente vídeos curtos em que falasse diretamente para a câmera do celular. O presidente, entretanto, demonstrava preferência por formatos tradicionais de campanha e pelo contato presencial com o eleitorado.
Na reunião de quarta-feira, os deputados federais eleitos Ana Elisa (PT-MG), Guilherme Cortez (PSol-SP) e André Janones (Rede-MG) apresentaram sugestões para ampliar a atuação nas plataformas digitais.
Segundo participantes ouvidos pelo Metrópoles, Lula admitiu que não gosta de produzir esse tipo de conteúdo, mas reconheceu a importância de adaptar sua comunicação. Em tom de brincadeira, afirmou que passaria a acordar cedo para conversar com o celular e prometeu publicar vídeos todos os dias.
A proposta é produzir mensagens mais curtas, com linguagem direta e aparência menos formal, aproximando o presidente dos formatos utilizados por influenciadores e políticos que alcançam milhões de pessoas nas redes sociais.
Jovens eleitos ganham espaço na campanha
Uma das principais apostas da nova estratégia é a participação de parlamentares jovens que tiveram desempenho expressivo nas eleições e já possuem presença consolidada nas plataformas digitais.
Entre os nomes mobilizados está Ana Elisa, de 21 anos, eleita deputada federal por Minas Gerais com 524.219 votos. Ela terminou a disputa pela Câmara no estado atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL).
Com aproximadamente 2,8 milhões de seguidores nas redes sociais, a parlamentar construiu sua campanha utilizando principalmente conteúdos digitais e passou a ser considerada uma das apostas do grupo político de Lula para ampliar a comunicação com o eleitorado mineiro.
Minas Gerais é um dos estados prioritários para a campanha presidencial. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 588.612 votos a mais que Lula no estado.
Outro nome envolvido na mobilização é André Janones. Após o resultado das urnas, o deputado criou um canal no WhatsApp para reunir apoiadores e organizar a divulgação de conteúdos relacionados à campanha. Segundo o Metrópoles, a iniciativa acumulou 2,1 milhões de seguidores em três dias.
A campanha também passou a estruturar um espaço específico em seu comitê para reunir influenciadores digitais e jovens políticos eleitos. A ideia é organizar a produção e a distribuição de vídeos durante as semanas restantes da disputa presidencial.
Universidades e estudantes entram no planejamento
Além da comunicação digital, a campanha pretende intensificar a presença em universidades e ampliar o diálogo com estudantes e eleitores mais jovens.
A deputada federal eleita Rosa Amorim (PT-PE), de 29 anos, afirmou que parlamentares estão organizando uma agenda de mobilização voltada à juventude.
“Estamos reunindo a bancada jovem para construir uma agenda de mobilização e nortear o levante da juventude no segundo turno. Um dos primeiros pontos é a mobilização nas universidades, que já estão se movimentando.”
Segundo a parlamentar, as ações também devem abordar temas como educação, emprego, renda e segurança pública, considerados importantes para o diálogo com esse segmento do eleitorado.
A proposta é combinar atividades presenciais com conteúdos específicos para as redes sociais, ampliando a circulação das mensagens da campanha entre estudantes e jovens trabalhadores.
Diferença de 2,2 milhões de votos pressiona campanha
As mudanças ocorrem depois de Lula terminar o primeiro turno em segundo lugar na disputa presidencial.
Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos. Lula obteve 53.876.617 votos, ou 45,16%.
A diferença entre os dois candidatos foi de 2.227.651 votos, equivalente a 1,87 ponto percentual.
O resultado levou integrantes do PT e partidos aliados a defenderem ajustes na coordenação política, no marketing e na mobilização eleitoral.
Em uma conversa com parlamentares, Lula reconheceu problemas na organização da campanha e afirmou que a disputa de 2026 foi a menos organizada de que participou desde 1989, quando concorreu pela primeira vez à Presidência da República.
A avaliação interna também aponta a necessidade de ampliar a votação em estados onde o presidente teve desempenho inferior ao registrado em 2022.
No Nordeste, região em que Lula venceu nos nove estados, a campanha pretende reforçar a atuação de governadores aliados. Já em São Paulo e Minas Gerais, o objetivo é reduzir a diferença de votos em relação ao adversário.
Abstenção e debates também estão entre as prioridades
Outro ponto considerado importante pela campanha é o comparecimento dos eleitores que não participaram do primeiro turno.
Cerca de 33,4 milhões de brasileiros deixaram de votar em 4 de outubro, o equivalente a aproximadamente 21% do eleitorado. Outros 6 milhões votaram em branco ou anularam o voto.
Nos vídeos publicados na quarta-feira, Lula passou a abordar diretamente a importância da participação eleitoral.
“É importante nesse segundo turno você comparecer para votar porque você tem família, porque você tem filho, porque você tem neto, porque você tem o Brasil para você tomar conta. É muito importante você levantar e votar porque você vai decidir o destino do seu país.”
A participação em debates também deverá mudar. Lula não compareceu aos confrontos entre presidenciáveis durante o primeiro turno, mas afirmou a aliados que pretende participar dos encontros com Flávio Bolsonaro na etapa decisiva.
A realização dos confrontos dependerá da confirmação das agendas e da participação dos dois candidatos.
Enquanto Lula reorganiza a campanha, Flávio Bolsonaro também amplia suas articulações políticas. Republicanos, União Brasil e Progressistas estão entre os partidos que formalizaram apoio à candidatura do senador no segundo turno.
Próximos passos
A campanha de Lula deve intensificar a produção de vídeos, ampliar a participação de parlamentares jovens e organizar atividades em universidades e diferentes regiões do país.
Também estão previstas novas articulações com governadores, dirigentes partidários e lideranças locais para fortalecer a mobilização eleitoral.
A propaganda gratuita no rádio e na televisão será retomada nesta sexta-feira (9), abrindo uma nova etapa da disputa entre os dois candidatos.
O segundo turno será realizado em 25 de outubro. Até lá, Lula e Flávio Bolsonaro terão pouco mais de duas semanas para apresentar suas propostas, ampliar alianças e buscar votos entre os eleitores que escolheram outras candidaturas ou não compareceram às urnas no primeiro turno.