O resultado do primeiro turno das eleições de 2026, realizado no domingo (4), expôs diferenças entre os números divulgados pelos institutos de pesquisa e a votação efetivamente registrada nas urnas. Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contrariando a vantagem numérica do petista em seis dos nove levantamentos nacionais comparáveis.
Para entender o que aconteceu, é necessário separar os levantamentos que estimaram corretamente a ordem dos candidatos daqueles que se aproximaram dos percentuais obtidos. Também é preciso considerar a margem de erro, o período de entrevistas e a diferença entre votos totais e válidos. Uma pesquisa pode registrar empate técnico e, ainda assim, apresentar uma vantagem numérica que não se confirme na apuração.
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Presidência: como as pesquisas se compararam ao resultado das urnas?
Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula terminou com 45,16%. A diferença foi de 1,87 ponto percentual, equivalente a mais de 2,2 milhões de votos. Nenhum dos dois ultrapassou os 50% necessários para vencer no primeiro turno, e ambos disputarão a segunda etapa da eleição em 25 de outubro.
O levantamento do Congresso em Foco reuniu as pesquisas nacionais mais recentes de nove institutos que divulgaram percentuais diretamente comparáveis em votos válidos. Os dados mostram que todos estimaram para Flávio um percentual inferior ao registrado nas urnas, embora com diferenças de intensidade.
Veja os números das pesquisas, em ordem alfabética dos institutos:
Resultado das urnas: Flávio Bolsonaro, 47,03%; Lula, 45,16%. A vantagem final foi de 1,87 ponto percentual para o candidato do PL.
Quais levantamentos indicaram Flávio numericamente à frente?
Entre as nove pesquisas nacionais comparáveis, três apresentaram vantagem numérica para Flávio Bolsonaro: Veritá, Gerp e Futura/100% Cidades.
- Veritá: indicou 47% para Flávio e 45% para Lula. Os percentuais ficaram 0,03 e 0,16 ponto percentual, respectivamente, abaixo dos resultados oficiais.
- Gerp: apontou 46% para Flávio e 44% para Lula. A diferença de dois pontos entre os candidatos ficou próxima dos 1,87 ponto registrados nas urnas.
- Futura/100% Cidades: apresentou 44,8% para Flávio e 42,6% para Lula. A vantagem indicada foi de 2,2 pontos, enquanto a diferença final chegou a 1,87 ponto.
Esses números mostram que os três levantamentos registraram a mesma ordem dos dois primeiros colocados observada na apuração. Isso não significa, entretanto, que tenham reproduzido exatamente os percentuais finais ou que suas metodologias possam ser avaliadas apenas por esse resultado.

Quais pesquisas mostraram Lula numericamente à frente?
Outros seis levantamentos comparáveis apresentaram vantagem numérica para Lula na reta final. Em vários casos, a diferença estava dentro da margem de erro declarada pelos institutos.
- Quaest: Lula tinha 46% e Flávio, 45%. O resultado das urnas apresentou uma inversão da vantagem numérica de um ponto indicada pela pesquisa.
- PoderData/Aya: Lula registrava 45% e Flávio, 43%. O percentual do petista ficou próximo do resultado oficial, enquanto o do candidato do PL ficou 4,03 pontos abaixo.
- Datafolha: Lula aparecia com 45% e Flávio, 42%. A distância entre a estimativa de Flávio e sua votação final foi de 5,03 pontos.
- AtlasIntel/Bloomberg: Lula tinha 47% e Flávio, 44,1%, diferença numérica de 2,9 pontos para o petista.
- CNT/MDA: apontava 47,8% para Lula e 42,1% para Flávio. A vantagem de 5,7 pontos indicada no levantamento contrastou com a diferença final de 1,87 ponto para Flávio.
- Instituto França: integra o conjunto de pesquisas que apresentaram Lula numericamente à frente, conforme o levantamento do Congresso em Foco. A estimativa de Flávio foi de 40,5%.
Na CNT/MDA, a distância entre a vantagem indicada pela pesquisa e a diferença registrada nas urnas chegou a 7,57 pontos percentuais. No Datafolha e no PoderData/Aya, por outro lado, o percentual estimado para Lula ficou apenas 0,16 ponto abaixo do resultado oficial, enquanto a votação de Flávio foi subestimada.

Por que algumas pesquisas não entraram na comparação?
Outros sete levantamentos nacionais da reta final foram divulgados em bases diferentes, como intenção de voto total ou estimulada, sem percentuais diretamente comparáveis aos votos válidos oficiais.
Entre eles estão Palver, Vox Brasil, Meio/Ideia, DataTrends, Real Time Big Data, Nexus/BTG e Indexa/Broadcast. Palver e Vox Brasil mostravam Flávio numericamente à frente, enquanto os demais apresentavam Lula na liderança.
Esses levantamentos não devem ser misturados diretamente com a tabela anterior. Nos votos totais, podem aparecer respostas de indecisos, brancos e nulos, enquanto o resultado oficial em votos válidos exclui essas categorias. Converter os números sem acesso às bases completas pode gerar comparações imprecisas.
Por que houve diferenças entre as pesquisas e as urnas?
Especialistas ouvidos pelo Jornal da Band destacaram as dificuldades dos institutos para captar mudanças no comportamento do eleitorado durante os últimos dias de campanha. Em disputas apertadas, pequenas alterações na distribuição dos votos podem modificar a ordem numérica entre os candidatos.
Pesquisas eleitorais também dependem da composição da amostra, da metodologia de coleta, da ponderação dos entrevistados e da estimativa de comparecimento às urnas. Os resultados são obtidos em um período determinado, enquanto a votação registra a decisão efetivamente tomada pelos eleitores no dia da eleição.
Outro fator relevante é a diferença entre empate técnico e liderança numérica. Dois candidatos podem aparecer com percentuais distintos em uma pesquisa, mas a diferença não ser estatisticamente conclusiva diante da margem de erro e do desenho amostral.
Por isso, não é correto afirmar que uma pesquisa estava necessariamente fora de sua margem apenas porque o candidato que aparecia numericamente atrás terminou à frente. A avaliação exige observar os intervalos estimados e as condições em que o levantamento foi realizado.
O que o primeiro turno de 2026 ensina sobre as pesquisas?
A comparação entre os levantamentos e as urnas revela situações distintas. Na disputa presidencial, todos os nove institutos incluídos na análise em votos válidos apresentaram percentuais de Flávio Bolsonaro inferiores aos 47,03% registrados no resultado oficial.
Os dados também demonstram por que é necessário avaliar pesquisas por cargo, localidade e metodologia. Um instituto pode apresentar números próximos do resultado em determinada disputa e diferenças maiores em outra, sem que uma comparação isolada permita estabelecer conclusões sobre todo o seu histórico.
Com o segundo turno presidencial marcado para 25 de outubro, novas pesquisas voltarão a medir as intenções de voto entre Lula e Flávio Bolsonaro. A experiência do primeiro turno reforça a importância de interpretar esses números como retratos estatísticos de um momento da campanha, e não como resultados antecipados das urnas.
