Do pique-esconde ao celular: como o Dia das Crianças mudou de uma geração para outra

Entre brinquedos, desenhos na TV e brincadeiras de rua, a infância ganhou novas formas de diversão, mas algumas lembranças continuam atravessando gerações.
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Houve um tempo em que o maior problema de uma criança era decidir quem ficaria no gol durante a pelada na rua. O relógio não marcava a hora de encerrar a diversão, mas o grito da mãe chamando para entrar. Os joelhos viviam ralados, o chinelo servia de trave e um simples pedaço de giz era suficiente para transformar a calçada em um campeonato de amarelinha. Para quem cresceu nos anos 1980, 1990 ou 2000, essas lembranças fazem parte de uma infância que parece cada vez mais distante.

No Dia das Crianças, celebrado nesta segunda-feira (12), a comparação entre o passado e o presente desperta uma pergunta: será que as crianças de hoje se divertem menos ou apenas aprenderam a brincar de outra maneira? Entre o pique-esconde e o Roblox, o videocassete e o streaming, o álbum de figurinhas e os jogos online, a infância passou por transformações que vão muito além da chegada dos celulares.

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Quando a rua era o maior parque de diversões

Quem foi criança antes da popularização da internet provavelmente se lembra de uma regra que nunca precisou ser escrita: bastava aparecer uma bola para que a vizinhança inteira se reunisse. A rua virava campo de futebol, a calçada se transformava em pista de corrida e qualquer espaço disponível podia receber uma partida de queimada, rouba-bandeira ou pega-pega.

O pique-esconde tinha suas próprias estratégias. Era preciso encontrar um esconderijo antes que a contagem terminasse e torcer para conseguir chegar ao ponto de partida sem ser descoberto. Já na amarelinha, bastavam alguns quadrados desenhados no chão e uma pedrinha para garantir horas de diversão.

Também havia os campeonatos de bolinha de gude, as disputas de pião, os elásticos esticados entre as pernas e as cordas que pareciam nunca parar de girar. Soltar pipa era outro acontecimento, especialmente nos períodos de férias escolares, quando o céu ficava colorido e a brincadeira reunia crianças de diferentes idades.

Crianças brincam de bolinha de gude na rua | Foto: Reprodução

Nem tudo era tão tranquilo quanto a memória costuma sugerir. Havia brigas, acidentes, ruas perigosas e diferenças de acesso aos espaços de lazer. Ainda assim, para muitas famílias, a possibilidade de encontrar os amigos sem precisar combinar nada com antecedência é uma das lembranças mais marcantes daquela época.

Hoje, essas brincadeiras continuam existindo, principalmente em escolas, parques e comunidades onde há espaços disponíveis. A diferença é que a rotina de parte das crianças passou a ser mais organizada, com atividades supervisionadas, compromissos e menos oportunidades de ocupar livremente as ruas.

Crianças brincam na rua | Foto: Imagem gerada por IA/Redação NC News

Do horário do desenho à liberdade de escolher o que assistir

Outra lembrança que une diferentes gerações é a televisão. Antes dos serviços de streaming, assistir ao desenho favorito exigia pontualidade. Quem chegasse atrasado da escola podia perder o episódio inteiro, sem a possibilidade de voltar alguns minutos ou assistir novamente quando quisesse.

Programas como “Xou da Xuxa”, “Bom Dia & Cia” e “TV Colosso” marcaram a programação infantil brasileira. Entre os desenhos e séries, títulos como “Dragon Ball”, “Pokémon”, “Cavaleiros do Zodíaco”, “Power Rangers” e “Castelo Rá-Tim-Bum” se tornaram referências culturais para quem cresceu nas décadas de 1990 e 2000.

Nos fins de semana, também havia o ritual de visitar uma locadora. Escolher um filme entre dezenas de capas, levar a fita VHS para casa e lembrar de rebobiná-la antes da devolução eram partes da experiência. Mais tarde, os DVDs substituíram as fitas, até que o conteúdo digital transformou novamente esse hábito.

Xuxa era uma das maiores referências do entretenimento televisivo | Foto: Reprodução

Atualmente, uma criança pode escolher entre milhares de desenhos, filmes e vídeos a qualquer momento. Plataformas digitais permitem assistir a episódios consecutivos, mudar de conteúdo em segundos e acompanhar produções de diferentes países sem depender de uma programação fixa.

O acesso ficou mais amplo, mas a experiência coletiva mudou. Antes, muitas crianças assistiam aos mesmos programas porque praticamente toda a geração acompanhava os mesmos canais. Hoje, os interesses podem estar distribuídos entre inúmeros criadores, jogos e plataformas.

Crianças hoje passam por hiperexposição à tecnologia | Foto: Reprodução

Tazos, geloucos e bichinhos virtuais: os tesouros de uma geração

Nem sempre o brinquedo mais desejado era o mais caro. Para muitas crianças dos anos 1990, encontrar um tazo raro dentro de um pacote de salgadinho podia transformar completamente o recreio. As coleções eram exibidas com orgulho, negociadas entre amigos e, em alguns casos, disputadas em partidas improvisadas.

Os geloucos, distribuídos em promoções de refrigerantes, também se tornaram objetos de desejo. Havia ainda os álbuns de figurinhas, os ioiôs, as molas coloridas, os bonecos de ação e os carrinhos que percorriam pistas montadas no chão de casa.

O Tamagotchi, conhecido no Brasil como bichinho virtual, representou uma das primeiras experiências de muitas crianças com um brinquedo eletrônico que exigia atenção constante. Era preciso alimentar o personagem, cuidar de sua saúde e acompanhar seu desenvolvimento em uma pequena tela.

Todo mundo tem o seu Tamagotchi | Foto: Reprodução

O Aquaplay, por sua vez, mostrava que não era necessário um equipamento sofisticado para criar um desafio. Com botões e água, a missão de encaixar argolas ou acertar pequenas cestas podia ocupar uma tarde inteira.

Hoje, os objetos de desejo mudaram. Consoles, celulares, acessórios tecnológicos e produtos associados a personagens da internet convivem com bonecas, carrinhos, blocos de montar e jogos de tabuleiro. A novidade está menos na existência de brinquedos eletrônicos e mais na conexão permanente que muitos deles oferecem.

Os videogames também faziam parte da infância de antigamente

É comum associar a infância do passado exclusivamente às brincadeiras de rua, mas os videogames já ocupavam um espaço importante nas casas brasileiras desde os anos 1980. Atari, Master System, Mega Drive, Super Nintendo e PlayStation fizeram parte da rotina de diferentes gerações.

A diferença estava principalmente na maneira de jogar. Em muitos casos, era necessário reunir os amigos na mesma sala, dividir controles e esperar a própria vez. Quem tinha um videogame em casa frequentemente se tornava o anfitrião das tardes de sábado.

Crianças se reuniam para jogar videogame presencialmente | Foto: Reprodução

Nos computadores, jogos como Paciência, Campo Minado e Pinball também garantiam diversão. O acesso à internet era limitado ou inexistente para muitas famílias, e os jogos funcionavam sem depender de atualizações constantes ou de uma conexão com servidores.

Atualmente, plataformas como Minecraft, Roblox e Fortnite permitem que crianças construam mundos, participem de desafios e conversem com amigos que estão em outros bairros, cidades ou países.

Essa possibilidade amplia as formas de interação, mas também exige cuidados com privacidade, contatos desconhecidos, compras dentro dos jogos e tempo de exposição às telas. A presença dos responsáveis continua importante, assim como acontecia nas brincadeiras presenciais, embora os riscos sejam diferentes.

Hoje crianças vivem no mundo virtual e com acesso quase irrestrito à conteúdo | Foto: Reprodução

O Dia das Crianças também mudou

As transformações não aparecem apenas nas brincadeiras. A própria maneira de comemorar o Dia das Crianças ganhou novos elementos. Para muitas famílias, a data era marcada por um brinquedo esperado durante meses, uma ida ao parque, um almoço especial ou uma visita à casa dos avós.

Havia quem ganhasse uma bicicleta, uma boneca ou um carrinho de controle remoto. Outras crianças recebiam presentes mais simples ou aproveitavam o feriado para brincar com primos e vizinhos. A comemoração nunca foi igual para todos, especialmente em um país marcado por grandes diferenças econômicas.

Hoje, o comércio oferece uma variedade muito maior de produtos e experiências. Os presentes podem incluir desde brinquedos tradicionais até jogos digitais, assinaturas, eletrônicos e passeios em espaços de entretenimento.

Em 2026, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projeta que o Dia das Crianças movimente R$ 9,27 bilhões no varejo brasileiro. O número ajuda a dimensionar a importância comercial da data, mas não traduz necessariamente aquilo que permanece na memória de quem foi criança.

Afinal, quantas pessoas ainda se lembram exatamente do preço de um brinquedo recebido há vinte ou trinta anos? É mais provável que recordem quem estava presente, a surpresa de abrir o presente ou a tarde inteira dedicada a experimentá-lo.

Será que a infância de antigamente era realmente melhor?

A nostalgia tem uma característica interessante: ela costuma preservar os momentos mais felizes e deixar em segundo plano as dificuldades. Por isso, comparar gerações exige cuidado para não transformar o passado em uma época perfeita ou tratar a infância atual como uma experiência necessariamente inferior.

As crianças de hoje têm acesso a ferramentas que seriam inimagináveis para quem cresceu há algumas décadas. Podem aprender idiomas por aplicativos, conversar com familiares distantes por vídeo, desenvolver projetos criativos em plataformas digitais e encontrar conteúdos educativos sobre praticamente qualquer assunto.

Ao mesmo tempo, o excesso de estímulos digitais e a dificuldade de encontrar espaços seguros para brincar livremente apresentam desafios que merecem atenção das famílias.

Antigamente a infância estava nas ruas e mais fácil de se monitorar ou observar. Hoje, o acesso está mais livre | Foto: Reprodução

Especialistas em educação infantil destacam que brincar contribui para o desenvolvimento da criatividade, da coordenação motora, da autonomia e das habilidades sociais. Essas experiências podem acontecer tanto em atividades tradicionais quanto em brincadeiras contemporâneas, desde que respeitem a idade e as necessidades das crianças.

A questão, portanto, não precisa ser escolher entre o passado e o presente. Uma criança pode gostar de videogame e aprender a jogar amarelinha. Pode assistir a vídeos na internet e descobrir a diversão de empinar uma pipa em um local seguro. Pode conhecer personagens digitais e, ao mesmo tempo, criar histórias com brinquedos simples.

Que tal apresentar sua infância para uma criança neste 12 de outubro?

Talvez uma das maneiras mais interessantes de celebrar o Dia das Crianças seja transformar a nostalgia em uma experiência compartilhada. Em vez de apenas contar que as brincadeiras eram diferentes, pais, avós e responsáveis podem ensinar algumas delas às novas gerações.

Uma partida de queimada, uma tarde de jogos de tabuleiro, um campeonato de bolinha de gude ou uma sessão de desenhos antigos podem render boas histórias. Também vale inverter os papéis e deixar que as crianças apresentem aos adultos os jogos e personagens que fazem parte de seu universo.

O encontro entre gerações ajuda a mostrar que, embora os brinquedos tenham mudado, a vontade de descobrir, imaginar, competir e fazer amigos continua presente.

Talvez as crianças de hoje não saibam o que era correr para casa antes do desenho começar, rebobinar uma fita VHS ou trocar tazos no recreio. Da mesma forma, muitas crianças dos anos 1990 jamais imaginaram que um dia seria possível construir cidades inteiras em um jogo e explorá-las ao lado de amigos conectados pela internet.

O tempo muda os brinquedos, as ruas, os desenhos e até a maneira de fazer amizades. Mas existe algo que continua atravessando as gerações: a capacidade de transformar momentos simples em lembranças que permanecem por toda a vida.

E talvez seja essa a maior nostalgia do Dia das Crianças. Não sentir falta apenas dos brinquedos que tivemos, mas das pessoas com quem brincávamos e da época em que uma tarde parecia durar para sempre.

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