Fé e milagres que transformam vidas: histórias de superação marcam o Dia de Nossa Senhora Aparecida

O resgate depois de um vício, a vitória contra o câncer, o acolhimento depois da perda de uma mãe e mais: conheça alguns milagres da Padroeira do Brasil
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Celebrado em 12 de outubro, o Dia de Nossa Senhora Aparecida é uma das datas mais importantes para milhões de católicos brasileiros. Mais do que um feriado nacional, a celebração da padroeira do Brasil representa fé, esperança e gratidão. A devoção teve início em 1717, quando, segundo a tradição católica, pescadores encontraram uma imagem da santa nas águas do Rio Paraíba do Sul, no interior de São Paulo. Desde então, a história atravessa gerações e mobiliza fiéis de diferentes regiões do país.

Em Aparecida, no interior paulista, essa devoção ganha força nas romarias, nas orações e, principalmente, nas histórias de pessoas que encontraram na fé um apoio para enfrentar os momentos mais difíceis da vida. A cada ano, peregrinos percorrem longas distâncias até o Santuário Nacional, movidos por promessas, agradecimentos e experiências pessoais que dão um significado especial à celebração.

Entre relatos de superação de 18 anos de dependência química, enfrentamento do câncer e a saudade de uma mãe que deixou a fé como legado, três devotos compartilham experiências marcadas pela dor, pela esperança e pela gratidão. São trajetórias diferentes, mas que se encontram na devoção a Nossa Senhora Aparecida e na convicção de que a espiritualidade foi fundamental para seguir em frente.

LEIA TAMBÉM

Metrô de São Paulo terá funcionamento 24 horas no feriadão de Nossa Senhora Aparecida

Da dependência química à fé: a história de superação de Flávio Manfrim

Durante 18 anos, o empresário Flávio Manfrim conviveu com a dependência química. Foram quase duas décadas de uma luta que, segundo ele, só ganhou sua verdadeira dimensão quando tentou abandonar as drogas e percebeu que não conseguia. O momento mais difícil aconteceu em uma noite em que estava sozinho em casa. Após consumir uma grande quantidade de drogas, começou a passar mal, com suor intenso, dor de cabeça e náuseas. Com medo de morrer, buscou conforto em uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida que havia ganhado da mãe.

“Quando eu percebi que eu tava iniciando a ter um princípio de overdose, eu deitei no chão. Peguei uma imagem de Nossa Senhora pequena que minha mãe tinha me dado e coloquei aqui no peito. E aí eu pedi pra ela com todo o meu amor, com todo o coração, que eu não queria morrer daquela forma.”

Naquele instante, Flávio pensou na mãe e em tudo o que havia vivido até ali. Ele conta que adormeceu e, ao acordar no dia seguinte, sentiu-se bem. A experiência foi tão marcante que decidiu procurar o pai e fazer um pedido: viajar até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Diante da imagem da padroeira, fez uma oração e, segundo seu relato, ouviu repetidas vezes um chamado para realizar o percurso a pé. A promessa, no entanto, não foi cumprida imediatamente. Ainda enfrentou recaídas antes de encontrar forças para mudar de vida.

Uma caminhada de 161 quilômetros que mudou sua trajetória

A transformação ganhou um novo capítulo quando Flávio conheceu a mulher que hoje é sua esposa. Determinado a deixar a dependência para trás, decidiu finalmente realizar a peregrinação até Aparecida. Ao lado de um amigo, percorreu 161 quilômetros, sem experiência anterior em caminhadas de longa distância. O trajeto foi marcado pelo desgaste físico e por momentos em que pensaram em desistir, mas também pela ajuda de desconhecidos que encontraram pelo caminho.

A experiência despertou nele o desejo de proporcionar a outras pessoas o mesmo acolhimento que havia recebido. O que começou com uma caminhada entre amigos deu origem ao projeto “Amigos da Fé”, iniciativa dedicada à organização de romarias e ao apoio de peregrinos que seguem rumo ao Santuário Nacional de Aparecida. Em 2020, a primeira romaria organizada reuniu apenas sete participantes. Desde então, o projeto cresceu e, para 2026, segundo Flávio, a previsão é de 180 pessoas saindo de São Paulo e cerca de 700 peregrinos reunidos no último dia do percurso.

Flávio Manfrim enfrentou a dependência química e agora organiza romarias até o Santuário de Nossa Senhora Aparecida – Foto: NC News

Mais do que organizar a viagem, o empresário passou a dedicar parte da vida ao acolhimento de outros devotos. O grupo também mantém um ponto de apoio em Pindamonhangaba, no interior paulista, que, segundo ele, atende mais de 30 mil peregrinos entre os dias 8 e 12 de outubro. O espaço funciona com trabalho voluntário e oferece alimentação, descanso, massagens e apoio espiritual. Para Flávio, a missão é garantir que cada pessoa tenha condições de continuar, independentemente das dificuldades enfrentadas.

“A gente tem um lema no grupo, que é ninguém fica para trás. Porque a gente faz de tudo pra pessoa chegar. Porque a gente não sabe o que cada pessoa está carregando no coração. E a gente tem a missão de fazer com que ela chegue.”

Hoje, ao acompanhar a chegada dos peregrinos ao Santuário, especialmente daqueles que enfrentaram maiores dificuldades, Flávio enxerga um reflexo da própria trajetória. Ele afirma que a maior recompensa é testemunhar o reencontro dos romeiros com suas famílias e perceber que o esforço coletivo ajudou outras pessoas a cumprir suas promessas.

Para o empresário, o dia 12 de outubro tem um significado que ultrapassa a celebração religiosa. É uma data que associa ao próprio renascimento, à recuperação e à oportunidade de transformar o sofrimento do passado em solidariedade. Ao recordar o período em que temeu pela própria vida, Flávio se emociona e atribui à intercessão de Nossa Senhora Aparecida a mudança que viveu.

“Eu até me emociono quando falo de Nossa Senhora Aparecida, porque ela me salvou. Ela me trouxe de volta à vida. Ela nunca falhou comigo. Ela sempre teve um propósito comigo. Então o dia 12 representa gratidão a tudo isso que ela já fez pra mim.”

 

 

Após enfrentar a leucemia, empresário encontrou na romaria uma forma de agradecer
O empresário Ricardo Manfrim também carrega uma história de superação ligada à devoção à padroeira. Antes de participar de uma romaria de cinco dias até Aparecida, ele descobriu que estava com leucemia crônica, um tipo de câncer que afeta as células do sangue.

O diagnóstico trouxe incertezas e deu início a uma fase marcada por exames, tratamento e dificuldades físicas e emocionais. Mesmo diante da doença, Ricardo participou da peregrinação ao lado de outras seis pessoas. A caminhada se tornou uma experiência importante em sua trajetória.

Durante o tratamento, ele passou por quimioterapia e enfrentou novos problemas de saúde. Apaixonado por futebol, modalidade que praticou e com a qual trabalha atualmente, voltou a jogar pouco depois de terminar uma etapa do tratamento. Na época da pandemia, sofreu uma queda de imunidade e precisou ficar internado por dez dias.

Sem poder receber visitas por causa das restrições sanitárias, Ricardo conta que enfrentou momentos de medo e solidão no hospital. Segundo ele, a experiência fortaleceu sua espiritualidade e mudou sua maneira de enxergar a vida.

O empresário recebeu alta no domingo de Páscoa, uma data que ganhou significado especial em sua história. Ele afirma ter se recuperado e considera que sua experiência foi um milagre, embora reconheça a importância do tratamento médico que realizou.

“Eu falo um milagre, sim, mas eu falo, acho que pra todos, assim, é o momento que você consegue também se descobrir, se entender um pouco melhor, né, ter uma espiritualidade mais forte.”

O empresário Ricardo Manfrim também carrega uma história de superação ligada à devoção à padroeira – Foto: NC News

Depois da recuperação, Ricardo decidiu ajudar outras pessoas a realizarem o mesmo percurso até Aparecida. Para ele, oferecer apoio aos peregrinos é uma forma de retribuir o acolhimento que recebeu durante sua própria caminhada.

A iniciativa reúne pessoas com histórias e motivações diferentes. Algumas caminham para agradecer, outras para cumprir promessas ou buscar conforto espiritual. O objetivo compartilhado é chegar ao Santuário Nacional, chamado pelos devotos de Casa da Mãe.

Fé e saudade marcam a caminhada de Marinalda até Aparecida

Para Marinalda Aparecida, caminhar até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida é uma experiência que vai além da devoção religiosa. Ao longo de quatro peregrinações, ela aprendeu que os quilômetros percorridos, o cansaço e as dores também podem se transformar em gestos de solidariedade. Para a devota, cada caminhada representa uma oportunidade de fortalecer a fé e encontrar sentido nos sacrifícios enfrentados durante o percurso.

“Vale a pena a fé, a minha devoção. Vale a pena o meu sacrifício, a minha doação, as minhas dores. E não é em vão. A minha fé, por Cristo, com a ajuda da Virgem Maria, é isso que me motiva. Mesmo nos momentos mais difíceis, ela está do meu lado. Eu sempre precisei muito dela. Pra que caminhar cinco dias? Porque eu amo Nossa Senhora, ela merece”, afirma.

Uma das lembranças mais marcantes aconteceu durante sua primeira caminhada, quando percebeu que outro romeiro precisava de ajuda e decidiu oferecer apoio. Desde então, passou a compreender a peregrinação não apenas como uma demonstração individual de fé, mas também como uma oportunidade de acolher o próximo. Para Marinalda, a chegada ao Santuário representa a recompensa de todo o esforço, quando o cansaço dá lugar à emoção e à sensação de estar sendo recebida nos braços de uma mãe.

Neste ano, entretanto, a caminhada terá um significado ainda mais profundo. Marinalda perdeu a mãe, responsável por despertar sua devoção ainda na infância e por incentivá-la a rezar o terço. Durante as peregrinações anteriores, ela acompanhava cada etapa mesmo à distância, com ligações, mensagens e orações. Perguntava se a filha havia se alimentado, se estava descansando e encontrava maneiras de transmitir força nos momentos de dificuldade.

Agora, a ausência transforma a jornada em uma homenagem à mulher que lhe ensinou a importância da fé. Apesar da saudade, Marinalda acredita que continuará recebendo o mesmo apoio espiritual que a acompanhou ao longo da vida.

“A minha mãe foi a maior incentivadora desde criança, sabe? Desde quando eu não queria rezar o terço, porque eu achava que o terço era muito grande. A minha mãe fazia a gente rezar o terço. E depois eu fui entendendo. Ela me ligava toda caminhada, me dando força. Filha, estou rezando. Ela vai fazer muita falta esse ano, mas eu sei que está lá no céu, intercedendo por mim com a mesma força, mas ainda maior”, conta Marinalda.

Marinalda Aparecida conta que sua devoção começou ainda na infância, por influência da mãe. Foto: NC News

Por que Nossa Senhora Aparecida é tão importante para os católicos?

A história da devoção começou em 1717, quando três pescadores encontraram uma imagem de Nossa Senhora da Conceição nas águas do Rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá, em São Paulo. Segundo a tradição católica, após encontrarem a imagem, os pescadores conseguiram uma pesca abundante, episódio que passou a ser associado à intercessão de Maria.

Com o passar dos séculos, a devoção se espalhou pelo país. Em 1930, o papa Pio XI declarou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil. A cidade de Aparecida tornou-se um dos principais destinos de peregrinação religiosa do país, recebendo milhões de visitantes ao longo do ano.

Para a Igreja Católica, a importância de Nossa Senhora Aparecida está diretamente relacionada à figura de Maria, mãe de Jesus Cristo, considerada exemplo de fé, humildade e confiança em Deus.

Um padre entrevistado pelo NC News explica que a celebração vai além da veneração de uma imagem religiosa. Segundo ele, a devoção representa também uma oportunidade de refletir sobre os ensinamentos cristãos e a disposição de Maria em aceitar sua missão.

“Olha, celebrar Nossa Senhora Aparecida é celebrar Nossa Senhora, a mãe de Jesus, essa mulher que chamava a Deus de filho. Então celebrar Nossa Senhora é penetrar no mistério profundo do Evangelho, porque ela, na sua simplicidade, ela disse sim a Deus.”

O sacerdote destaca que a identificação dos fiéis com a padroeira está ligada à sua história e ao exemplo de confiança religiosa que ela representa.

“Então nós temos nela um exemplo de fé. É por isso que o povo gosta tanto de Nossa Senhora Aparecida, por causa de Jesus Cristo.”

Um dia de gratidão, promessas e esperança

No dia 12 de outubro, as celebrações religiosas reúnem fiéis que encontram diferentes maneiras de demonstrar sua devoção. Há quem percorra longas distâncias a pé, quem participe de missas, quem acenda velas e quem reserve o dia para agradecer por conquistas ou pedir forças diante de situações difíceis.

As histórias de Flávio, Ricardo e Marinalda mostram como a devoção pode assumir significados particulares. Para um, representa a recuperação após anos de dependência química. Para outro, a lembrança de um período de tratamento contra o câncer. Para Marinalda, é a continuidade de uma fé recebida da mãe e fortalecida ao longo da vida.

São experiências pessoais, interpretadas por seus protagonistas à luz de suas crenças, que ajudam a explicar por que Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar tão importante na tradição religiosa brasileira.

Mais de três séculos depois do encontro da imagem no Rio Paraíba do Sul, a devoção permanece presente nas famílias, nas peregrinações e nos testemunhos de quem encontra na fé uma razão para agradecer, recomeçar e continuar caminhando.

Carregar Comentários