Alexandre de Moraes enfrenta, nos bastidores de Brasília, a perspectiva de uma maioria inédita no Senado a favor do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, com mais de 50 senadores eleitos dispostos a abrir processo contra ele a partir de 2027, enquanto tenta gestos de conciliação para evitar uma crise institucional aberta.
O que Alexandre de Moraes tem dito sobre a votação recorde de senadores a favor do impeachment no STF?
Em conversas reservadas com interlocutores do meio jurídico, Moraes tem admitido surpresa com o resultado das urnas para o Senado e disse ter havido uma “reversão” do cenário imaginado. Ele contava, segundo relatou a pessoas próximas, com uma composição mais ao centro e menos hostil ao Supremo, além da permanência de Davi Alcolumbre na presidência da Casa como barreira para pedidos de impeachment.
O ministro avaliava que Alcolumbre conseguiria segurar uma maioria que não aderisse à agenda de confronto com o STF. A eleição de mais de 50 senadores simpáticos à ideia de cassar ministros — número suficiente para pressionar pela abertura de processos — mudou esse cálculo e elevou a tensão entre os Poderes.
Moraes também tem ouvido, de parlamentares e juristas aliados, que a nova correlação de forças no Senado abre espaço para que o impeachment seja usado como instrumento de disputa política, com impacto direto sobre decisões da Corte em temas sensíveis, do processo eleitoral a investigações envolvendo bolsonaristas.
Gestos tímidos e cobrança por “mudança de postura”
Para tentar reduzir a temperatura, Moraes passou a adotar decisões interpretadas por parte da classe política como gestos de acomodação. Nesta semana, ele autorizou a progressão de pena de Débora Rodrigues dos Santos, a “Débora do Batom”, para o regime semiaberto, medida vista como um sinal de afrouxamento na punição de envolvidos nos atos de 8 de janeiro.
Também veio à tona o arquivamento, em decisão sigilosa, de investigações contra o senador Marcos Do Val e os influenciadores Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio, que eram alvo de apurações por suspeita de obstrução de Justiça e incitação a crimes. A divulgação desse arquivamento foi lida por políticos próximos ao bolsonarismo como tentativa de pacificar a relação.
Auxiliares de Flávio Bolsonaro, contudo, avaliam que os sinais ainda são insuficientes. Esse grupo diz que uma eventual abertura de processo de impeachment poderia ser repensada apenas se Moraes fizer “gestos concretos” de mudança de postura nas próximas duas semanas e meia, período considerado janela decisiva para evitar que a pauta anti-STF se imponha logo no início do próximo governo.
Quais são os gestos de Alexandre de Moraes para evitar o impeachment, segundo aliados de Flávio Bolsonaro?
Os aliados de Flávio Bolsonaro que defendem uma saída negociada apontam pelo menos três movimentos recentes de Moraes como tentativas de aliviar o clima: a progressão de pena de Débora Rodrigues dos Santos, o arquivamento das investigações envolvendo Marcos Do Val, Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio, e um tom mais discreto em decisões relacionadas a figuras do campo bolsonarista.
Para esse grupo, que teme ver um eventual governo Flávio paralisado por uma cruzada permanente contra o STF, esses passos indicam disposição de diálogo, mas ainda não configuram uma guinada clara. Eles cobram decisões adicionais que, na prática, redesenhem o equilíbrio interno do Supremo e reduzam a percepção de que Moraes atua de forma “excessiva” em casos ligados à direita radical.
A avaliação é que, sem mudanças mais visíveis, o Congresso que tomará posse em 2027 — com mais de 50 senadores pró-impeachment — dificilmente recuará. A preocupação desse setor é que o embate com o STF consuma o melhor momento político do novo governo, desviando energia de reformas econômicas e da agenda legislativa prioritária.
Rogério Marinho dobra a aposta e fala em impeachment “inegociável”
Na outra ponta, o coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho, reforça a ala que quer ir até o fim. Em conversas com ministros do STF, ele tem repetido que seus aliados estão dispostos a dialogar com a Corte em outros temas, mas sem abrir mão da responsabilização de Moraes. Marinho considera o impeachment do ministro “inegociável” e trabalha para chegar à presidência do Senado na próxima legislatura justamente para comandar o processo.
Com a caneta do comando da Casa, caberia a ele decidir se e quando pautar pedidos de impeachment. A mudança de correlação de forças no plenário, com uma maioria inclinada a enfrentar o STF, faria do Senado o epicentro de uma disputa direta com a cúpula do Judiciário.
O próprio Moraes, segundo relatos de interlocutores, reconhece que perdeu a blindagem que esperava da atual cúpula do Senado. A depender da eleição interna para a presidência e a mesa diretora, a abertura de um processo de impeachment deixaria de ser hipótese remota e passaria a ser instrumento concreto de pressão política.
Entenda o contexto
A nova composição do Senado, mais hostil ao STF e com mais de 50 senadores favoráveis ao impeachment de ministros, contraria o script traçado por Moraes e seus aliados. A expectativa no Supremo e no entorno de Davi Alcolumbre era de que candidatos de centro, menos alinhados ao bolsonarismo, formassem maioria e dificultassem qualquer ofensiva contra a Corte.
O resultado, porém, fortaleceu bancadas alinhadas ao discurso de enfrentamento ao Judiciário, especialmente ao ministro que conduz os principais inquéritos sobre ataques à democracia e à própria Corte. Esse ambiente incentiva a leitura de que o Senado poderá usar o impeachment como arma para redesenhar o equilíbrio entre os Poderes.
Na prática, uma ofensiva bem-sucedida contra Moraes teria efeito simbólico e institucional profundo: afetaria a autoridade do STF, encorajaria novas contestações a decisões judiciais e aumentaria a insegurança jurídica. Ao mesmo tempo, o Senado passaria a acumular poder extra sobre o Judiciário, reconfigurando o sistema de freios e contrapesos.
Nikolas Ferreira radicaliza discurso e fala em “impeachment e cadeia”
Enquanto parte do entorno de Flávio fala em conciliação, outra parcela aposta na escalada. O deputado federal Nikolas Ferreira, um dos principais porta-vozes do bolsonarismo radical, afirma em público que o destino de Moraes é “impeachment e cadeia”. A fala reforça a pressão da base mais mobilizada sobre senadores recém-eleitos e coloca limite político para acordos de bastidor.
Esse tipo de declaração torna mais difícil para Flávio Bolsonaro sustentar, se eleito, um recuo explícito da pauta anti-STF sem desgaste com seu eleitorado mais fiel. Ao mesmo tempo, alimenta a percepção no Supremo de que há um esforço organizado para deslegitimar a Corte e enquadrar seus ministros.
Entre os operadores políticos, a avaliação é que o ano legislativo que começa em 2027 será marcado por uma disputa permanente em torno do futuro de Moraes e dos demais ministros mais expostos. A depender dos próximos gestos do STF e da negociação com o novo governo, o Senado pode tanto deflagrar um processo de impeachment quanto usar apenas a ameaça de abertura como instrumento de barganha em votações cruciais.