Áudio revela Fábio Faria barrando Moraes em viagem a Trancoso

Gravação da PF mostra ex-ministro impedindo presença de Moraes em encontro e ligações com banqueiro Vorcaro.
Redação NC News
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Em áudio enviado a um grupo de WhatsApp com políticos e o banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria afirma que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, chamado de “careca”, não poderia participar de uma viagem a Trancoso, no litoral da Bahia, por considerar a ida um “risco” naquele momento.

Áudio tratava de viagem e aniversário

A gravação foi enviada em 22 de agosto, em um grupo que reunia Faria, Vorcaro, o senador Ciro Nogueira e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. Eles discutiam um jantar de aniversário de Faria em São Paulo e uma viagem para o dia 7 de setembro a Trancoso, onde Vorcaro tem uma mansão.

No áudio, ao falar sobre a programação do grupo, Faria afirma que Moraes não participaria do encontro e usa o apelido para se referir ao ministro. “Se vocês toparem, no fim de semana, no dia 7, Trancoso está de pé. Só não vai o careca, que eu acho que é até bom, né? Nesse momento agora eu acho que era muito risco pra ele. Mas podemos ir nós, o que é que vocês acham?”, diz o ex-ministro.

Dois dias antes desse áudio, Faria havia compartilhado no mesmo grupo uma notícia sobre a apreensão dos celulares do pastor Silas Malafaia, determinada por Moraes, em meio a investigações que envolvem aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mensagens indicam intermediação de encontros

As conversas integram registros obtidos pela Polícia Federal em apurações sobre a rede de relações políticas e financeiras de Daniel Vorcaro. Relatórios recentes apontam que Faria atua, desde 2023, como um dos principais intermediários entre o banqueiro e autoridades em Brasília, incluindo o próprio Moraes.

Os investigadores identificam mensagens sobre reuniões presenciais, troca de contatos telefônicos e articulação de compromissos privados envolvendo o ministro do STF e Vorcaro. A gravação sobre Trancoso acrescenta um episódio a esse conjunto de diálogos, mas não há comprovação de que Moraes tenha confirmado presença nem de que a viagem tenha ocorrido como planejado.

Pagamentos ao escritório da esposa de Moraes

Em conversas de março de 2024, Faria volta a usar o apelido “careca” ao tratar de pagamentos ligados ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. As mensagens fazem referência a um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master, então controlado por Vorcaro, e o escritório Barci de Moraes.

Em um dos diálogos, ao tratar de uma cobrança, Faria orienta: “Tá. Manda pagar a ele. O careca não pode atrasar. Passa o contato do Ângelo que passo pra ele”. Segundo o próprio ex-ministro já declarou, os pagamentos estariam relacionados à atuação do escritório de Viviane em um processo envolvendo Vorcaro na Justiça de São Paulo, e ele diz não saber os valores do contrato.

Os documentos analisados pela PF registram cobranças e movimentações ligadas a esse acordo. Até o momento, porém, esses registros não apontam prática de irregularidade por parte de Alexandre de Moraes.

Entenda o contexto

A troca de mensagens mostra a proximidade de Vorcaro com políticos como Fábio Faria, Ciro Nogueira e Hugo Motta e com autoridades do Judiciário, em um ambiente de conversas privadas por aplicativos de mensagem. As intermediações incluem encontros presenciais, viagens e contratos milionários no setor financeiro.

Com a divulgação dos áudios e conversas, cresce a pressão por transparência sobre a relação entre o ex-controlador do Banco Master e autoridades dos Três Poderes. A PF já analisa esses conteúdos em inquéritos que investigam possíveis conflitos de interesse e a atuação da rede de contatos de Vorcaro.

Os próximos passos devem envolver pedidos formais de esclarecimentos, eventual convocação de depoimentos e exame detalhado dos contratos e fluxos financeiros associados ao Banco Master e ao escritório de Viviane Barci de Moraes. A repercussão tende a ampliar o desgaste político dos envolvidos e alimentar o debate sobre limites éticos nas relações entre o poder público e o empresariado.

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