O brasileiro está cercado por vozes. Seja no rádio, nos podcasts, nas músicas ou nos conteúdos reproduzidos pelo celular, ouvir faz parte da rotina de milhões de pessoas. Uma pesquisa do Ibope revela que 93% da população consumiu algum tipo de áudio nos últimos 30 dias. Ao mesmo tempo, um estudo internacional aponta uma mudança aparentemente contraditória: as pessoas estão falando menos.
A pesquisa científica, publicada em 2026 na revista Perspectives on Psychological Science, identificou uma redução estimada de 28% na quantidade de palavras pronunciadas diariamente entre 2005 e 2019. Os pesquisadores observaram uma diminuição média de 338 palavras faladas por dia a cada ano analisado. O fenômeno foi mais acentuado entre os participantes jovens e levantou questionamentos sobre as transformações na comunicação e seus possíveis reflexos nas relações sociais.
Os levantamentos analisam comportamentos diferentes e não estabelecem uma relação direta entre ouvir conteúdos e falar menos. Juntos, porém, ajudam a compreender uma característica da vida contemporânea: a tecnologia ampliou o acesso à informação e ao entretenimento, mas também transformou a maneira como as pessoas conversam, estudam e interagem.
Pesquisa aponta queda de 28% na quantidade de palavras faladas
O estudo conduzido por Valeria Pfeifer, da Universidade de Missouri-Kansas City, e Matthias Mehl, da Universidade do Arizona, analisou registros de áudio de 2.197 participantes, com idades entre 10 e 94 anos.
Os dados foram reunidos a partir de 22 estudos realizados entre 2005 e 2019, principalmente nos Estados Unidos, mas também em outros países, incluindo México e Austrália, além de localidades da Europa.
Os pesquisadores utilizaram gravações de pequenos trechos do cotidiano dos participantes para estimar a quantidade de palavras pronunciadas ao longo do dia.
A análise identificou uma tendência de redução na fala. Em média, a quantidade estimada de palavras pronunciadas diariamente diminuiu 338 a cada ano do período estudado.
Isso representa aproximadamente 120 mil palavras a menos ao longo de um ano para cada redução anual de 338 palavras na média diária.
Considerando todo o intervalo analisado, a queda estimada foi de 28%.
Entre os participantes com menos de 25 anos, a redução anual foi ainda mais expressiva, chegando a aproximadamente 451 palavras por dia, contra cerca de 314 entre os adultos mais velhos.
Os resultados não significam que todas as pessoas estejam falando menos na mesma proporção. O estudo identificou uma tendência estatística em um conjunto de participantes e não permite afirmar que o comportamento seja idêntico em todos os países.
Por que as pessoas estão conversando menos?
Os pesquisadores ainda não identificaram uma causa definitiva para a redução das palavras faladas. Uma das hipóteses envolve as mudanças tecnológicas que ocorreram durante o período analisado, marcado pela popularização dos smartphones, das redes sociais e dos aplicativos de mensagens.
Atividades que anteriormente exigiam uma conversa passaram a ser resolvidas por meio de textos, aplicativos e sistemas automatizados. Pedir comida, solicitar transporte, realizar compras, consultar informações e resolver questões bancárias são exemplos de tarefas que podem ser concluídas sem a necessidade de falar com outra pessoa.
As mudanças também atingiram as relações pessoais. Mensagens escritas e interações digitais passaram a ocupar parte do espaço anteriormente reservado a telefonemas e conversas presenciais.
Para Maria Clara de Moraes, a diferença aparece na maneira como os jovens iniciam e mantêm conversas. Ela conta que costuma preferir mensagens a abordar alguém pessoalmente e percebe uma distância entre a forma como as pessoas se posicionam na internet e o comportamento presencial.
“Eu sinto que a gente conversa menos, que a gente tem menos para falar e que por mensagem a gente tem mais coisa para falar”, relata Maria Clara.
Ela também observa que as pessoas parecem ter mais facilidade para se posicionar na internet.
“Eu acho que a gente dá muito a cara a tapa online, mas pessoalmente ninguém fala nada”, afirma.

Ashley Di Scalo Savant apresenta uma experiência diferente. Como mora com os pais e encontra os amigos no ambiente escolar, ela mantém conversas presenciais frequentes. Quando os amigos moram mais longe, porém, as mensagens se tornam uma alternativa prática.
“É muito mais rápido e muito mais prático do que eu ter que me deslocar da minha casa […] para conseguir ter uma conversa presencial, frente a frente”, explica Ashley.
Para ela, a escolha entre mensagens e conversas presenciais depende da situação. Enquanto o contato digital facilita conversas cotidianas a distância, assuntos mais sérios podem exigir uma conversa cara a cara.

Stephany Omana também percebe que o celular pode ocupar o espaço das conversas presenciais. Na avaliação dela, a facilidade de acessar as redes sociais e enviar mensagens rápidas pode fazer com que os jovens deixem de conversar diretamente.
“É mais fácil mandar mensagem ou ficar nas redes sociais do que conversar de verdade”, afirma Stephany.
Os três relatos mostram experiências distintas. Maria Clara diz preferir iniciar conversas por mensagem, Ashley destaca a praticidade do contato digital quando existe distância e Stephany chama a atenção para a facilidade de permanecer nas redes sociais em vez de conversar pessoalmente.
Essas experiências ajudam a ilustrar como a tecnologia participa das relações cotidianas, mas não representam necessariamente o comportamento de todos os jovens. Os autores do estudo internacional também não conseguiram determinar quanto da redução na fala está relacionado à tecnologia ou a outros fatores sociais.
O que acontece no cérebro durante uma conversa?
Conversar envolve diferentes processos cognitivos. Enquanto uma pessoa fala, o interlocutor precisa interpretar palavras, compreender o contexto, recuperar informações da memória e organizar uma resposta.
O cérebro também acompanha mudanças na entonação, expressões faciais e outros sinais que ajudam a compreender o significado da comunicação. Essas atividades envolvem redes cerebrais relacionadas à linguagem, à atenção, à memória de trabalho e ao processamento social.
Diferentemente de uma gravação, uma conversa exige adaptação constante. Uma pergunta inesperada pode mudar o assunto, exigir uma explicação mais detalhada ou levar o participante a reconsiderar o próprio argumento.
As dificuldades de expressão e interpretação também aparecem nos relatos das jovens. Maria Clara acredita que os jovens enfrentam desafios para se expressar e compreender informações e associa essa percepção ao uso do celular.
“Eu acho que a gente tem uma dificuldade sim […] de se expressar e de interpretar as coisas por causa do celular”, afirma Maria Clara.
Ashley também relata perceber dificuldades entre colegas de classe e reconhece que enfrenta problemas para compreender alguns textos, mesmo depois de relê-los várias vezes.
“Um texto eu tenho que reler diversas vezes e, mesmo que eu releia 50 vezes, tem texto que eu não vou entender”, relata Ashley.
Stephany observa uma dificuldade semelhante entre alguns colegas, especialmente na interpretação de textos. Ela também chama a atenção para a importância de conseguir explicar pensamentos e sentimentos.
Os depoimentos ajudam a ilustrar preocupações sobre comunicação e compreensão de textos entre jovens. Entretanto, o estudo internacional citado nesta reportagem mediu a quantidade de palavras pronunciadas no cotidiano, e não a capacidade de leitura, interpretação ou expressão dos participantes. Portanto, não comprova que o uso do celular seja responsável por essas dificuldades.
A interação verbal oferece experiências cognitivas e sociais que não são idênticas às proporcionadas pelo consumo de conteúdos gravados. Isso não significa, entretanto, que ouvir rádio ou podcasts seja prejudicial. Esses formatos também podem estimular a compreensão oral, ampliar conhecimentos e oferecer contato com diferentes perspectivas.
A preocupação está relacionada à possível perda de oportunidades de interação, especialmente quando a diminuição das conversas acompanha situações de isolamento social.
Falar menos pode prejudicar a saúde cerebral?
A relação entre comunicação e saúde cerebral é complexa.
Pesquisas sobre envelhecimento indicam que o isolamento social está associado a um risco maior de declínio cognitivo e demência. A interação com outras pessoas é considerada um dos fatores relevantes para a manutenção do bem-estar e da participação social.
O relatório de 2024 da Comissão Lancet sobre demência incluiu o isolamento social entre os fatores de risco potencialmente modificáveis ao longo da vida.
Isso não significa que falar determinada quantidade de palavras por dia seja uma forma comprovada de prevenir doenças neurológicas. Também não há evidências de que a redução de 28% identificada no estudo tenha provocado diretamente perda de memória ou danos cerebrais nos participantes.
O que os resultados reforçam é a importância de investigar como as mudanças nos hábitos de comunicação podem afetar as relações humanas e, ao longo do tempo, o bem-estar psicológico e cognitivo.
Na educação, menos conversas podem significar menos oportunidades de aprendizagem
A discussão ganha importância quando envolve crianças e adolescentes, que estão em diferentes etapas do desenvolvimento da linguagem, da comunicação e das habilidades sociais.
Desde a infância, as conversas ajudam a ampliar o vocabulário, compreender significados, formular perguntas e construir frases. Na escola, essas experiências continuam sendo importantes. Ao participar de debates, apresentar trabalhos e responder a perguntas, o estudante precisa organizar ideias, recuperar conhecimentos e explicar o que compreendeu.
Essas atividades exigem participação ativa, diferentemente de situações em que o aluno apenas acompanha uma explicação gravada.
A redução das oportunidades de diálogo pode limitar experiências importantes para a aprendizagem. Isso não significa que o estudo sobre a queda na quantidade de palavras tenha demonstrado prejuízos escolares ou alterações cerebrais nos jovens. Os pesquisadores mediram a fala cotidiana, não o desempenho acadêmico dos participantes.
Os relatos de Maria Clara, Ashley e Stephany também chamam a atenção para a interpretação de textos e a expressão de ideias no ambiente escolar. Embora sejam experiências individuais e não permitam concluir que exista uma dificuldade generalizada entre estudantes, elas mostram por que o diálogo, a leitura e a compreensão de diferentes pontos de vista continuam sendo temas relevantes na educação.
Preservar momentos de conversa entre estudantes, professores e familiares pode oferecer oportunidades para fazer perguntas, explicar ideias e exercitar a compreensão de diferentes pontos de vista.
Podcasts e audiolivros ajudam a aprender, mas não substituem todas as atividades escolares
Ao mesmo tempo em que as conversas diminuem no levantamento internacional, o consumo de conteúdos sonoros permanece elevado no Brasil.
O Audio Pulse 2026 mostra que 93% da população consumiu algum formato de áudio nos últimos 30 dias.
Entre os ouvintes de rádio, 31% também acompanham podcasts. Nesse grupo, 44% consomem o formato semanalmente.
A educação aparece entre os assuntos preferidos de 23% dos ouvintes de podcasts pesquisados, mesmo percentual registrado para notícias e política.
Esses dados mostram que o áudio também encontra espaço entre pessoas interessadas em adquirir conhecimentos.
Podcasts educativos, audiolivros e aulas gravadas podem facilitar o acesso a explicações, entrevistas e materiais de estudo, especialmente quando utilizados como complemento às atividades escolares.
O formato permite revisar conteúdos em diferentes horários e pode ser útil para estudantes que precisam conciliar a aprendizagem com outras atividades.
Entretanto, aprender a ler, escrever e argumentar envolve habilidades específicas que não são desenvolvidas exclusivamente pela escuta. Por isso, conteúdos sonoros podem ser combinados com leitura, produção de textos, exercícios e discussões em sala de aula.
Uma possibilidade é utilizar um podcast como ponto de partida para um debate. Depois de ouvir o episódio, os estudantes podem formular perguntas, comparar informações e apresentar conclusões.
Outra estratégia é incentivar a produção de podcasts escolares, atividade que envolve pesquisa, escrita de roteiros, organização de ideias e apresentação oral.
Dessa forma, o áudio deixa de ser apenas um conteúdo recebido e passa a integrar uma experiência de aprendizagem mais participativa.
Rádio mantém força mesmo com avanço das plataformas digitais
Os dados do Ibope mostram que o consumo de áudio continua elevado também nos formatos tradicionais.
Nas 13 regiões metropolitanas analisadas, 77% da população tem o hábito de ouvir rádio. Entre os ouvintes, o tempo médio de consumo diário chega a 3 horas e 38 minutos.
O aparelho tradicional permanece como a principal forma de acesso, utilizado por 76% do público. O celular aparece em seguida, com 29%.
O rádio também acompanha os brasileiros durante outras atividades. Segundo o levantamento, 57% dos ouvintes escutam a programação em casa enquanto realizam tarefas cotidianas.
A pesquisa identificou ainda que 60% dos ouvintes de rádio também utilizam plataformas de streaming musical. Esses consumidores dedicam, em média, mais de 14 horas semanais à música por streaming, mostrando que os diferentes formatos convivem na rotina.
Entre os assuntos acompanhados no rádio, os noticiários locais aparecem com 36%, enquanto informações sobre trânsito e conteúdos esportivos registram 31% cada.
O levantamento também aponta que 67% dos ouvintes confiam no rádio para se manter informados.
Os resultados reforçam a importância do meio como fonte de informação, entretenimento e prestação de serviços, mesmo diante da expansão das plataformas digitais.
O desafio é equilibrar informação e interação
Os dois estudos mostram transformações diferentes, mas relevantes, na maneira como as pessoas se relacionam com a comunicação. De um lado, a pesquisa brasileira revela que o áudio continua presente no cotidiano, seja por meio do rádio, do streaming ou dos podcasts. De outro, o levantamento internacional aponta que a quantidade de palavras faladas diminuiu ao longo de 14 anos, especialmente entre os participantes mais jovens.
Não há evidência de que uma tendência tenha provocado a outra. Também não é possível afirmar que ouvir mais conteúdos cause problemas de memória, dificuldades de aprendizagem ou redução das habilidades sociais.
O que os resultados permitem discutir é a diferença entre receber informações e participar de uma interação. Ouvir uma reportagem pode ampliar o conhecimento sobre determinado assunto. Conversar sobre ela exige organizar argumentos, formular perguntas e considerar as respostas de outras pessoas.
Maria Clara observa que as redes sociais também influenciam as expressões, as gírias e as referências compartilhadas pelos jovens. Para ela, quem acompanha determinados vídeos acaba incorporando elementos da linguagem que circula na internet.
“Se a gente passar muito tempo nas redes sociais, a gente acaba se expressando de formas que a gente vê na internet”, afirma Maria Clara.
Ela cita como exemplo as referências a vídeos que nem todos os amigos conhecem. “Se o seu amigo não assistiu esse vídeo, ele não vai estar tão antenado igual você”, comenta.
Ashley também acredita que a internet influencia a maneira como as diferentes gerações se comunicam. Segundo ela, os conteúdos consumidos nas redes ajudam a estabelecer padrões de linguagem e referências compartilhadas.
“É inevitável, a internet tem um papel fundamental na nossa comunicação, ela molda o jeito que a gente se comunica com os outros”, afirma Ashley.
Stephany destaca outro aspecto: o hábito de consumir mensagens rápidas e vídeos curtos pode, na percepção dela, dificultar a atenção durante conversas mais longas.
“Acho que passar muito tempo nas redes pode afetar muito a comunicação, porque acabamos nos acostumando com a mensagem rápida, que pode resultar em falta de atenção em conversas mais longas”, avalia Stephany.
As três experiências apontam para a presença das referências digitais no cotidiano, mas não significam que todos os jovens se comuniquem da mesma forma ou que a internet seja a única responsável pelas mudanças na linguagem e na interação.
Quando imaginam passar um dia inteiro sem celular, as jovens também enxergam espaço para outras formas de interação. Maria Clara acredita que conversaria mais e teria a oportunidade de descobrir histórias e experiências de seus familiares que ainda não conhece.
“Eu acho que eu conversaria mais porque eu teria menos coisa para fazer”, diz Maria Clara. “Eu conseguiria descobrir novas coisas da minha família, experiências que às vezes eles nunca me contaram.”
Ashley considera que também poderia conversar mais com amigos e familiares, desde que estivessem no mesmo ambiente. Ela avalia que o celular oferece muitas opções de entretenimento e que ficar sem o aparelho poderia abrir espaço para outras atividades.
Stephany acredita que o primeiro momento sem o telefone poderia ser difícil, já que está acostumada a usá-lo para conversar e se distrair. Ainda assim, ela considera que a mudança poderia aproximá-la dos familiares e abrir espaço para encontrar outras atividades que chamassem sua atenção.
Ela sugere hobbies como pintar e desenhar, que exigem atenção e podem ajudar a ocupar o tempo longe das telas.
Os relatos mostram que o celular pode facilitar a comunicação a distância e, ao mesmo tempo, disputar espaço com conversas e outras atividades. A forma como cada pessoa utiliza a tecnologia, porém, varia de acordo com sua rotina, suas relações e suas necessidades.
Na educação, essa combinação pode ser especialmente importante: conteúdos sonoros ampliam o acesso à informação, enquanto atividades de leitura, escrita e diálogo ajudam a aprofundar a compreensão.
Em uma sociedade na qual quase toda a população consome áudio, a questão não é abandonar as novas tecnologias, mas garantir que o acesso constante a conteúdos também seja acompanhado de oportunidades para conversar, questionar e compartilhar conhecimentos.