O ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, teria financiado uma rede internacional de prostituição, participado de negociações para adquirir uma agência de modelos e comandado o recrutamento de mulheres estrangeiras, incluindo refugiadas da guerra na Ucrânia. As revelações constam de uma investigação publicada pelo UOL nesta terça-feira (13), baseada em mensagens, contratos e comprovantes financeiros associados ao banqueiro.
Segundo a reportagem, o esquema envolvia investimentos de pelo menos R$ 4,3 milhões, intermediários responsáveis por selecionar mulheres e a organização de eventos privados no Brasil e no exterior. Os diálogos indicam que Vorcaro participava de decisões sobre contratações, pagamentos e permanência das mulheres no grupo. A Polícia Federal abriu um inquérito em maio para investigar possíveis irregularidades relacionadas à atividade.
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A investigação, assinada pelos jornalistas Natália Portinari, Cézar Feitoza e Fabio Serapião, apresenta conversas entre Vorcaro e pessoas responsáveis pela organização de festas e pelo recrutamento de mulheres.
Nos diálogos, as participantes eram frequentemente tratadas por termos depreciativos e apelidos que faziam referência à idade e à submissão. As mensagens também registram discussões sobre o comportamento das mulheres, a seleção para eventos e os valores destinados às contratações.
Em uma conversa de junho de 2024, após discutir despesas com mulheres que participariam de um evento na França, Vorcaro escreveu:
“Essas meninas escravas são demais.”
O conteúdo das conversas é um dos elementos que levaram a reportagem a apontar uma relação que ultrapassaria a contratação eventual de acompanhantes, com participação do banqueiro na estrutura de organização dos serviços.

Refugiadas da Ucrânia eram recrutadas para eventos
Um dos episódios mais graves descritos na investigação envolve uma jovem ucraniana de 19 anos que havia deixado o país durante a guerra.
Segundo os diálogos publicados, ela passou a integrar o grupo de mulheres recrutadas para eventos privados em outubro de 2023. Nas semanas seguintes, os intermediários discutiram sua permanência no Brasil e a possibilidade de vinculá-la à agência utilizada pelo grupo.
Em dezembro daquele ano, o promotor de eventos Diogo Batista informou a Vorcaro que a jovem não tinha para onde voltar porque sua cidade estava sendo bombardeada.
As mensagens indicam que a condição de vulnerabilidade da refugiada era conhecida pelos envolvidos. Mesmo assim, a possibilidade de mantê-la no grupo continuou sendo discutida.
Em outro momento, Vorcaro demonstrou interesse em selecionar quais estrangeiras permaneceriam vinculadas à estrutura.
A reportagem também identificou referências a mulheres russas, venezuelanas, argentinas e polonesas.
A condição de refugiada, por si só, não comprova tráfico de pessoas. A investigação policial ainda precisa esclarecer se houve violência, ameaça, fraude, abuso de vulnerabilidade ou outras circunstâncias que possam configurar crimes.

Contrato previa R$ 1,5 milhão por metade de agência
A reportagem identificou um contrato enviado ao celular de Vorcaro em dezembro de 2023 para a aquisição de 50% da Allure Eventos, empresa apresentada como agência de modelos.
O documento previa pagamento de R$ 1,5 milhão pela participação societária. Conversas posteriores mencionam a assinatura do contrato e o pagamento de parcelas de R$ 500 mil.
Os registros também mostram a preocupação do banqueiro com a possibilidade de sua participação no negócio se tornar pública.
Em janeiro de 2024, Diogo Batista comemorou a formalização do acordo com uma mensagem:
“Assim estamos blindados!”
O empresário Felipe Nisti Cataldo, proprietário da agência, contestou a versão apresentada nas conversas. Ao UOL, afirmou que Vorcaro demonstrou interesse no negócio, mas que a negociação não foi concluída.
Questionado sobre um comprovante de transferência de R$ 500 mil identificado pela reportagem, Nisti disse que precisaria verificar a origem do pagamento.
Assim, embora os documentos e mensagens indiquem negociações e desembolsos, a efetiva composição societária é um dos pontos que exigem esclarecimento.

Vorcaro dava ordens sobre seleção e pagamentos
As mensagens apresentam Diogo Batista como um dos principais responsáveis por executar as orientações relacionadas às mulheres recrutadas para os eventos.
Em diferentes ocasiões, ele consultava Vorcaro antes de realizar pagamentos, contratar participantes ou modificar a composição do grupo.
Em uma conversa, Diogo resumiu a relação de comando:
“Chefe manda e a gente executa.”
Os diálogos também indicam que Vorcaro solicitava novas seleções e orientava o afastamento de mulheres quando considerava necessário reorganizar o grupo.
Segundo a investigação, Diogo recebia aproximadamente R$ 120 mil mensais do banqueiro.
O conteúdo reforça a suspeita de que Vorcaro exercia influência direta sobre a operação, e não apenas contratava serviços para eventos particulares.

Festas envolveram dezenas de mulheres em diferentes países
A estrutura descrita pela reportagem também operava fora do Brasil, com eventos realizados em cidades como Londres, Paris e Roma, além de deslocamentos para Dubai.
A logística internacional ficava sob responsabilidade de Leonardo Serrano, empresário ligado à SL Consulting, companhia sediada na Flórida, nos Estados Unidos.
As conversas mostram negociações para contratação de dezenas de mulheres, reservas de passagens e hospedagens, além da liberação de recursos para despesas pessoais durante as viagens.
Em uma festa realizada em Londres, em abril de 2024, as mensagens mencionam a presença de 99 mulheres contratadas para trabalhar no evento.
Os registros também indicam que algumas reuniões contavam com autoridades e convidados ligados ao meio político. A simples presença de participantes nesses eventos, entretanto, não demonstra conhecimento ou envolvimento nas possíveis irregularidades investigadas.
Faturas internacionais somaram cerca de US$ 70 milhões
O UOL identificou 21 faturas emitidas pela SL Consulting entre abril de 2024 e março de 2025, com valores que somam aproximadamente US$ 70 milhões.
Os documentos foram apresentados à Moriah Asset, gestora de Belo Horizonte, com descrições relacionadas a eventos, hospedagem, hospitalidade e fretamentos.
Segundo a investigação, Vorcaro encaminhava essas cobranças ao setor financeiro do Banco Master.
O valor total das faturas não pode ser tratado integralmente como gasto com prostituição, já que os documentos também abrangiam outras despesas de eventos e viagens.
No Brasil, mensagens indicam que despesas com passagens e hospedagens das mulheres eram direcionadas à Prime You, enquanto outros pagamentos eram realizados por meio de transferências a intermediários.
A origem, a finalidade e a regularidade desses recursos são aspectos relevantes para a apuração das autoridades.
Polícia Federal investiga possíveis crimes
A Polícia Federal instaurou um inquérito em maio para examinar a participação de mulheres estrangeiras nos eventos e possíveis ilegalidades relacionadas à contratação dos serviços.
Entre os nomes investigados estão Leonardo Serrano e Diogo Batista, apontados pela reportagem como intermediários importantes na organização das atividades.
Procurados pelo UOL, os dois não responderam aos contatos realizados até a publicação da investigação.
No Brasil, o exercício voluntário da prostituição por pessoas adultas não constitui crime. A legislação penal, entretanto, prevê punições para determinadas formas de exploração sexual de terceiros.
Também há previsão legal para o tráfico de pessoas quando presentes elementos como ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, associados às finalidades previstas na legislação.
A existência das mensagens e dos pagamentos relatados não equivale, por si só, a uma condenação criminal. Caberá à investigação esclarecer a natureza dos serviços, as condições de recrutamento e eventual responsabilidade dos envolvidos.
Novas revelações ampliam investigação sobre o entorno de Vorcaro
O caso acrescenta uma nova frente de apuração às controvérsias envolvendo o ex-controlador do Banco Master, que já teve mensagens e movimentações financeiras examinadas em outras investigações.
Desta vez, o foco está na possível estrutura empresarial montada para recrutar mulheres, organizar eventos privados e administrar pagamentos no Brasil e no exterior.
As informações divulgadas nesta terça-feira levantam questões sobre o tratamento dispensado às mulheres, especialmente às estrangeiras em situação de vulnerabilidade, e sobre a utilização de empresas para custear as atividades.
A Polícia Federal ainda deverá esclarecer se os fatos descritos constituem crimes e qual teria sido a participação individual de cada investigado.