O corpo de Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, morto após ser atingido por 27 tiros disparados por policiais militares durante uma abordagem em Moema, na Zona Sul de São Paulo, foi sepultado nesta segunda-feira (12). Após a despedida, a irmã do jovem, Beatriz Munis, publicou uma mensagem nas redes sociais lamentando a perda.
“Eu devia ter te falado ‘te amo’ mais vezes”, escreveu Beatriz. Em outra publicação, ela agradeceu as mensagens recebidas após o velório e afirmou: “Meu menino está nos braços de Deus, em paz”.
Gustavo morreu na madrugada de sábado (10), durante uma ocorrência inicialmente registrada como tentativa de suicídio. Segundo o boletim de ocorrência, quatro policiais efetuaram 45 disparos depois de afirmarem ter interpretado como uma ameaça o movimento do jovem, que segurava um objeto escuro. O objeto encontrado ao lado dele era um celular.
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Família se despede de Gustavo
Familiares e amigos participaram do velório e do sepultamento do jovem nesta segunda-feira. Gustavo era descrito por pessoas próximas como um rapaz querido, prestativo e com planos para o futuro.
A irmã utilizou as redes sociais para prestar uma última homenagem. A mensagem sobre o desejo de ter dito “te amo” mais vezes foi acompanhada por registros ao lado de Gustavo.
Amigos também publicaram cartas e mensagens de despedida. Um deles afirmou que conhecia o jovem havia cinco anos e destacou a amizade construída durante esse período.
Uma prima contou que Gustavo era atencioso com familiares e estudava para prestar vestibular para engenharia mecânica.
Jovem também sonhava com medicina veterinária
Segundo relatos de pessoas próximas, Gustavo tinha interesse em cursar engenharia mecânica ou medicina veterinária. Ele morava com a mãe e as irmãs e trabalhava em um hospital.
Um vizinho que o conhecia desde a infância também contou que o jovem costumava ajudá-lo em pequenos consertos e cuidava de cachorros.
A morte interrompeu os planos de Gustavo de ingressar na universidade e seguir uma carreira profissional.
PMs fizeram 45 disparos durante abordagem
Segundo o boletim de ocorrência, a Polícia Militar foi acionada por volta das 2h35 de sábado para atender a um chamado sobre um homem que estaria transtornado e ameaçando tirar a própria vida.
Os policiais encontraram Gustavo na região de Moema. Conforme o relato registrado pelos agentes, o jovem correu e posteriormente saiu de uma área escura com os braços estendidos, segurando um objeto escuro.
Os policiais afirmaram ter interpretado o objeto como uma arma de fogo e efetuaram os disparos. Depois da ação, porém, foi constatado que Gustavo segurava um telefone celular.
Ao todo, quatro policiais efetuaram 45 disparos. A perícia identificou pelo menos 27 ferimentos provocados por tiros no corpo do jovem, incluindo lesões na cabeça, tórax, abdômen, braços e pernas.
Armas e celular foram apreendidos
As armas utilizadas pelos policiais foram apreendidas para a realização de exames balísticos. O celular encontrado com Gustavo também foi recolhido e deverá passar por perícia.
Marcas de disparos foram identificadas em estruturas próximas ao local da ocorrência. A investigação deverá analisar a trajetória dos projéteis e a posição dos policiais e da vítima durante a ação.
Um dos pontos que precisam ser esclarecidos é se houve disparos quando Gustavo já estava caído.
Família contesta versão apresentada pelos policiais
Familiares de Gustavo contestam a versão de que ele estaria ameaçando tirar a própria vida. Segundo a família, o jovem fazia tratamento psiquiátrico e utilizava antidepressivos, mas não havia histórico de tentativa de suicídio ou automutilação.
A advogada que representa a família também afirmou que Gustavo já havia sido abordado anteriormente por policiais na região de Moema.
A representante declarou que a família acredita que as abordagens anteriores estavam relacionadas ao fato de Gustavo ser um jovem negro que morava na região. Essa é uma avaliação apresentada pela defesa da família e será analisada no decorrer da investigação.
Segundo a Polícia Civil, Gustavo não tinha antecedentes criminais.
Quatro policiais foram afastados
Os quatro policiais envolvidos nos disparos foram afastados das atividades operacionais no domingo (11), um dia depois da morte.
A Secretaria da Segurança Pública informou que as circunstâncias do caso são investigadas pelas polícias Civil e Militar. A PM instaurou um Inquérito Policial Militar para apurar a conduta dos agentes.
As câmeras corporais utilizadas pelos policiais também foram solicitadas para análise. As gravações podem ajudar a reconstruir os momentos anteriores aos disparos e confrontar os diferentes relatos sobre a ocorrência.
Investigação ainda busca esclarecer a dinâmica
A Polícia Civil, por meio do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), também procura imagens de câmeras de segurança instaladas nas proximidades do local.
Os investigadores deverão cruzar essas imagens com as gravações das câmeras corporais, os laudos periciais, os depoimentos e os vestígios encontrados na cena.
O afastamento dos policiais não representa, por si só, uma conclusão sobre a responsabilidade dos agentes. A eventual existência de irregularidades ou crimes dependerá da conclusão das investigações.
SSP afirma que eventuais irregularidades serão punidas
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que não tolera desvios de conduta dos agentes e que, caso sejam constatadas irregularidades, os profissionais serão punidos.
A pasta confirmou que as armas dos policiais e o celular da vítima foram apreendidos para perícia e que as imagens das câmeras corporais foram solicitadas.
O caso continua sendo investigado enquanto familiares e amigos de Gustavo lidam com a perda do jovem. A análise das imagens e dos demais elementos reunidos pelas autoridades deverá ser fundamental para esclarecer o que aconteceu durante a abordagem em Moema.