Indígenas do povo Parakanã, que vivem na Terra Indígena Apyterewa, no sudeste do Pará, receberam mensagens de áudio com ameaças de invasão ao território caso Flávio Bolsonaro (PL) vença o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro. Fazendeiros e moradores da região discutem a possibilidade de ocupar a área protegida e transformá-la em pastagens.
Oito áudios enviados por WhatsApp mencionam uma possível invasão no próprio dia da votação. O material chegou ao conhecimento de autoridades federais, que monitoram o aumento das ameaças e determinaram reforço na segurança. A reportagem verificou metadados das gravações e identificou vínculos com endereços próximos ao território indígena.
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As mensagens relatadas indicam que fazendeiros esperam uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro para retomar áreas anteriormente ocupadas de forma irregular dentro da Terra Indígena Apyterewa.
Os autores das ameaças também mencionam o governador eleito do Pará, Dr. Daniel (Podemos), como uma possível autoridade favorável à entrega de terras aos criadores de gado.
As declarações representam expectativas e ameaças atribuídas aos envolvidos, não decisões oficiais ou compromissos anunciados pelos políticos citados.
Segundo a reportagem, há relatos de movimentação de veículos e aquisição de materiais que poderiam ser utilizados em uma tentativa de ocupação.
A situação preocupa lideranças indígenas porque a região já enfrentou episódios de violência, desmatamento e conflitos envolvendo ocupantes ilegais.
Governo federal monitora ameaças e reforça segurança
O Ministério dos Povos Indígenas informou que acompanha o aumento da pressão pela ocupação ilegal da Terra Indígena Apyterewa.
Diante das informações recebidas, o Comitê de Desintrusão, responsável por acompanhar a retirada de ocupantes não indígenas, decidiu reforçar a segurança na região.
Órgãos federais, incluindo a Polícia Federal, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), acompanham a situação.
O objetivo é prevenir novas invasões e proteger os indígenas diante do risco de agravamento dos conflitos.
Até a divulgação da reportagem, não havia confirmação de que a invasão anunciada nas mensagens tivesse ocorrido.
Terra Indígena Apyterewa tem histórico de invasões
A Terra Indígena Apyterewa fica no município de São Félix do Xingu, no Pará, e possui aproximadamente 773 mil hectares. O território foi homologado em 2007 e abriga mais de mil indígenas do povo Parakanã.
A região enfrenta há décadas pressões relacionadas à ocupação irregular, à pecuária, ao desmatamento e à exploração ilegal de recursos naturais.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, Apyterewa esteve entre os territórios indígenas mais atingidos pelo desmatamento na Amazônia.
Em outubro de 2023, o governo federal iniciou uma operação de desintrusão, nome dado à retirada de ocupantes não indígenas de áreas protegidas.
A operação foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e mobilizou diferentes órgãos públicos para retirar estruturas de ocupação irregular e devolver o controle do território ao povo Parakanã.
Em março de 2026, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região manteve decisão que rejeitou uma ação judicial contra o processo de desintrusão, reafirmando a validade das medidas adotadas para proteger a área.
Incêndios aumentam e autoridades investigam possíveis ações criminosas
Além das ameaças de invasão, autoridades investigam o crescimento dos focos de incêndio registrados dentro do território indígena.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), citados pela Folha, mostram que os registros passaram de 41 em julho para 1.007 em setembro.
O aumento chamou a atenção dos órgãos de fiscalização, que apuram se parte das queimadas foi provocada deliberadamente para degradar áreas de floresta.
A suspeita é investigada em meio ao histórico de utilização do fogo para abrir espaço à formação de pastagens e consolidar ocupações ilegais.
Até o momento, os dados sobre os incêndios não permitem atribuir a autoria das ocorrências a pessoas específicas.
Campanha de Flávio não respondeu aos questionamentos
A Folha procurou a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e o governo do Pará para comentar as ameaças relatadas pelos indígenas.
Até a publicação da reportagem, a campanha do candidato do PL e a administração estadual não haviam apresentado resposta.
O governador eleito Dr. Daniel informou, por meio de sua assessoria, que não comentaria o assunto.
Não há indicação, nas informações divulgadas, de que Flávio Bolsonaro ou Dr. Daniel tenham autorizado, organizado ou participado das ameaças.
O que acontece agora?
O governo federal deverá manter o acompanhamento da situação na Terra Indígena Apyterewa, com atenção especial ao período que antecede o segundo turno presidencial.
A decisão de reforçar a segurança busca impedir que as ameaças relatadas se transformem em novas ocupações ilegais ou episódios de violência.
As autoridades também investigam os incêndios registrados no território e monitoram possíveis movimentações relacionadas à tentativa de retomada de áreas anteriormente desocupadas.
A Terra Indígena Apyterewa permanece legalmente protegida, e uma eventual mudança no resultado eleitoral não autoriza a invasão ou a ocupação de suas terras.