O tempo passa, a vontade de ensinar permanece: histórias de professores após os 60

Da alfabetização de adultos ao ensino universitário, professores revelam como a educação continua presente em suas vidas depois de décadas de trabalho
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Neste Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, um levantamento chama a atenção para a presença cada vez maior de profissionais com mais de 60 anos no mercado de trabalho brasileiro. Entre 2016 e 2025, o número de pessoas dessa faixa etária em atividade passou de 5,7 milhões para 8,7 milhões, um crescimento de 53%, segundo pesquisa da Nexus, realizada com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O estudo mostra que um em cada quatro brasileiros com 60 anos ou mais estava trabalhando em 2025. O aumento acompanha uma mudança no perfil da força de trabalho do país, marcada pelo envelhecimento da população e pela permanência de profissionais experientes em diferentes atividades. Os números abrangem todas as ocupações, incluindo o setor educacional.

Mas o que leva um professor a continuar ensinando depois de tantos anos de trabalho? Para alguns, o contato com os alunos, a troca de conhecimentos e o vínculo construído com a educação ajudam a explicar essa escolha. Em Belo Horizonte, histórias de professores que permanecem em atividade depois dos 60 anos mostram como a docência continua presente na vida de quem dedicou décadas à formação de outras pessoas.

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Aposentadoria não significou deixar de lecionar

Aos 67 anos, Margarida Pinho já estava aposentada havia pouco tempo quando encontrou um motivo para voltar a ensinar. Moradora do bairro Ouro Preto, na região da Pampulha, em Belo Horizonte, a professora descobriu que sua nova vizinha, Luzia Itambé, de 39 anos, não sabia ler nem escrever.

Luzia, natural de Manga, cidade do Norte mineiro, tinha o sonho de ser alfabetizada. Margarida decidiu ajudá-la. As duas começaram a estudar em agosto de 2024, na própria residência da aposentada.

A história de Margarida com a educação havia começado décadas antes. Quando criança, sonhava em ser artista plástica, mas o pai não deixava que as filhas trabalhassem com arte. Ela relembra que, naquela época, segundo relatou, as opções eram se tornar professora ou permanecer em casa. Então ela decidiu trabalhar com artes e matemática com os seus alunos dentro de sala de aula.

Margarida seguiu o magistério, assim como suas duas irmãs. Passou em concurso público para professora da Prefeitura de Belo Horizonte. Aposentou-se como orientadora educacional em 1982 e diretora em 2000.

Anos depois, retomou os exercícios de alfabetização. Começou conversando com Luzia, apresentou as letras e logo passou aos ditados. A empregada doméstica, mãe de dois filhos, já conseguia escrever suas primeiras palavras quando a história ganhou repercussão.

A neta de Margarida, Clara de Assis Pinho, registrou uma dessas aulas e contou que a avó estava desanimada e enfrentava problemas de saúde antes de começar a ensinar novamente.

A própria aposentada associou a retomada da docência à melhora de seu ânimo. “Me sinto muito melhor de saúde, percebo isso. Agora, ter que voltar a dar aula, mesmo que seja particular é um ótimo remédio”, comenta Margarida à reportagem do NC News.

Histórias como essa ajudam a entender o que está por trás dos números. Para muitos professores, continuar em atividade significa manter uma rotina construída ao longo de décadas, contribuindo para a formação de novas pessoas, sejam elas crianças, jovens ou adultos.

Professor diz que ensinar ainda é seu ‘oxigênio’

Há mais de 35 anos no ensino superior, o professor do Arnaldo Centro Universitário (UniArnaldo), em Belo Horizonte, Alexandre Miserani, resume sua trajetória em uma palavra, a resiliência.

Ao longo das últimas décadas, acompanhou mudanças no perfil dos estudantes, na dinâmica das aulas e na relação entre professores e alunos. Para ele, uma das transformações mais preocupantes é a perda de reconhecimento da profissão e da própria importância do conhecimento.

“Mudou o perfil do aluno, mudou a dinâmica de sala de aula, mudou a forma de interação entre os professores, mudou o respeito aos professores, mudou a credibilidade do papel do professor, que infelizmente, lastimavelmente, tem sido vilipendiada por uma retórica mal enjambrada, mal construída, de autodesconhecimento. As pessoas não valorizam mais o conhecimento como deveriam valer. Mas a gente é resiliente”, diz o docente.

Apesar das dificuldades, o professor continua em atividade e não esconde o entusiasmo pela profissão. A motivação, segundo ele, está nos resultados alcançados ao longo dos anos e na possibilidade de contribuir para a formação de novas gerações.

O docente defende que a educação é um instrumento de transformação social e que o conhecimento permite desenvolver o pensamento crítico, ampliar a visão de mundo e combater a desinformação.

E, quando o assunto é aposentadoria, o professor demonstra que ainda não pretende encerrar sua trajetória. Ao citar a atriz Cacilda Becker, que passou mal durante uma apresentação teatral, ele expressa o desejo de continuar exercendo a profissão enquanto puder.

Seja na sala de aula ou nos encontros virtuais com os estudantes, encontra no ensino uma fonte de motivação que permanece viva depois de tantos anos. O professor completou 62 anos de vida nessa quarta-feira (14), um dia antes do dia dedicado aos docentes em todo o país.

“A sala de aula, para mim, a interatividade através dos encontros online, isso tudo faz com que a gente tenha uma energia transformada. E isso hoje ainda é meu oxigênio. Sou feliz demais por ser professor e ter escolhido assim”, conclui.

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