A “fórmula mágica” de Lula para a economia voltou, mas o Brasil de hoje não tem como pagar essa conta

Com o mercado em alerta pelo empate técnico nas pesquisas, presidente aposta em anistia do Serasa e crédito fácil — mas a estratégia que funcionou no passado esbarra agora em uma dívida pública que representa 82,9% do PIB.
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Lula foi bem na sabatina do Jornal Nacional nesta quinta-feira (16). Político experiente que é, sabe olhar para a câmera e dialogar com as angústias do eleitor. Mas, quando o assunto chegou à economia, o roteiro patinou e voltou para a mesma tecla de duas décadas atrás.

Com a euforia do mercado em torno do nome de Flávio Bolsonaro esfriando e as pesquisas eleitorais cravando um empate técnico apertado, a Faria Lima e o setor produtivo já começaram a fazer as contas do que significa, na prática, a continuidade da atual política econômica. E o saldo pisca em vermelho.

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O presidente garante que se preocupa com a responsabilidade fiscal, mas, na hora de apresentar propostas concretas para o futuro, a resposta é sempre a mesma: crédito.

“As pessoas que estão devendo não conseguem fazer novos negócios porque estão no Serasa. Então anistiar essas dívidas e dar o crédito é uma oportunidade de recomeçar, colocar a economia a todo vapor e reativar a atividade econômica. E estamos fazendo isso sem mexer no espaço fiscal”, defendeu Lula na bancada do JN.

Receita saturada

É a velha cartilha keynesiana, que aposta no gasto e no estímulo ao consumo para forçar o crescimento. O Brasil, obviamente, precisa crescer. Mas essa receita, que fez sentido no passado, hoje se mostra saturada.

Para justificar sua visão, Lula recorreu ao seu trunfo favorito: o retrovisor. Relembrou os anos dos primeiros mandatos, quando o Brasil saltou da 12ª para a 7ª maior economia do mundo, acumulou US$ 270 bilhões em reservas internacionais e quitou a dívida com o FMI. Hoje, a caminho da 8ª posição no ranking mundial em 2027, o presidente tenta convencer o país de que basta repetir a fórmula.

O problema é que o Brasil de hoje não é o Brasil do boom das commodities. Nos anos 2000, injetar crédito no mercado foi o motor de ascensão de uma classe C emergente. Hoje, o cenário é de ressaca: dados recentes da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostram que quase 78% das famílias brasileiras já estão endividadas, com parcela expressiva em situação de inadimplência.

Por que a fórmula de ontem não serve para hoje

Oferecer mais crédito a um cidadão que já está sufocado por juros altos, enquanto o empresário lida com o chamado Custo Brasil e uma carga tributária elevada, não cria riqueza — empurra o problema para a frente.

“Estou preocupado [com o fiscal]. Sei o que é dívida e sei que, se perdermos o controle do orçamento, a coisa quebra. Mas toda vez que se resolve o problema fiscal, o povo pobre paga, e eu não quero que o povo pobre pague. O jeito de você resolver o problema fiscal é fazer a economia crescer”, disse o presidente.

A frase funciona bem na televisão, mas esbarra na matemática que assusta investidores e mantém o dólar em patamar elevado. A conta do governo atual soma cerca de R$ 300 bilhões em injeções recentes: reforço do Bolsa Família, renegociações bilionárias de dívidas do MEI e o o fim da jornada de trabalho 6×1 — medida popular, mas que entra no radar de risco sem estudo de impacto de longo prazo sobre a produtividade. O denominador comum entre essas medidas é a proximidade da eleição.

O imposto que ninguém vota para pagar

A contradição que o discurso presidencial deixa de lado é conhecida por qualquer brasileiro que vai ao supermercado: quando o governo gasta muito além do que arrecada para forçar um crescimento artificial, a inflação volta. E o imposto mais cruel que existe, o que o “povo pobre” paga sem conseguir se defender, é justamente a inflação — o oposto do que o próprio discurso presidencial promete evitar.

O Brasil tem condições de se consolidar como potência econômica verde e tecnológica na próxima década. Mas dificilmente chegará lá estourando o limite do próprio orçamento. Sem reformas estruturais e com uma visão fiscal de curto prazo, o risco é o país seguir crescendo a espasmos, apenas para tropeçar na própria dívida logo em seguida — um padrão que, segundo analistas de mercado e economistas, já é hoje  e há décadas um dos principais pontos de atenção para quem acompanha a corrida eleitoral pela ótica econômica.

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