Operador ofereceu R$ 2 bilhões da Previ a Vorcaro e citou articulação no Banco do Brasil: “A coisa já está totalmente montada”

Operador ofereceu R$ 2 bilhões da Previ a Vorcaro e citou articulação no Banco do Brasil: “A coisa já está totalmente montada”
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x
Mensagens obtidas a partir do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam uma proposta para captar R$ 2 bilhões da Previ, fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil. Segundo reportagem publicada pela revista Veja nesta sexta-feira (16), o operador Hamilton Buselin afirmou, no fim de 2023, que a operação já estava organizada e que pessoas dentro do próprio Banco do Brasil estariam preparadas para viabilizar as negociações. “A coisa já está totalmente montada”, declarou Buselin em uma mensagem encaminhada a um interlocutor de Vorcaro. O operador sustentava que havia disponibilidade de recursos na Previ e que o Banco Master poderia acessar os valores por meio de operações com letras financeiras, títulos utilizados por instituições bancárias para captar dinheiro. As conversas levantam suspeitas sobre uma possível articulação para direcionar recursos de previdência ao Master. Entretanto, os diálogos divulgados não comprovam que os R$ 2 bilhões tenham sido efetivamente transferidos, nem demonstram, por si só, participação irregular de funcionários do Banco do Brasil ou dirigentes da Previ.
LEIA TAMBÉM
Vorcaro financiou filme de Lula com dinheiro ilegal? O que a PF diz sobre a denúncia

Operador afirmou que Previ tinha R$ 2 bilhões disponíveis para o Master

De acordo com a Veja, Hamilton Buselin enviou a proposta no fim de 2023 a um parceiro de Daniel Vorcaro. Nas mensagens, o operador mencionou dificuldades enfrentadas pelo Banco Master para captar recursos de fundos de pensão e apresentou a Previ como uma alternativa para ampliar essas operações. “A informação que eu tive é de que o Master está tentando fazer uma operação muito grande (de captação nos fundos), mas estão tendo algum problema… Para aquisição de letras, não há limite e a disponibilidade hoje da Previ é de 2 bilhões de reais”, afirmou Buselin. A declaração sugere que o operador buscava apresentar ao banqueiro uma oportunidade de captação de grande porte. O valor citado correspondia, segundo o interlocutor, à disponibilidade de recursos que poderiam ser direcionados à aquisição de títulos financeiros. A existência dessa disponibilidade, porém, foi apresentada pelo próprio operador. A reportagem não demonstra que a Previ tenha aprovado formalmente uma aplicação de R$ 2 bilhões no Banco Master.

“Pessoas no Banco do Brasil já estão instruídas”, disse operador

Um dos trechos mais relevantes das mensagens é aquele em que Hamilton Buselin afirma que a articulação não estaria restrita aos dirigentes da Previ. Segundo ele, pessoas ligadas ao Banco do Brasil também teriam conhecimento dos procedimentos necessários para dar andamento à operação. “Para que isso seja feito, seja liberado, a gente tem todo o roteiro. Inclusive as pessoas no Banco do Brasil já estão instruídas a esperar e receber o que a gente encaminhar. A coisa já está totalmente montada”, declarou. A fala indica que Buselin procurava convencer os interlocutores do Master de que havia uma estrutura previamente organizada para receber a proposta. O conteúdo, entretanto, não identifica quais funcionários do Banco do Brasil supostamente participariam dessa articulação. Também não há, nas mensagens apresentadas, confirmação independente de que o banco tenha autorizado uma operação irregular ou que seus empregados tenham executado as instruções mencionadas pelo operador.

Plano previa reunião entre dirigentes da Previ e Banco Master

Segundo as mensagens reveladas pela Veja, a estratégia consistia em organizar uma aproximação formal entre o Banco Master e representantes da Previ. Para isso, o banco de Vorcaro deveria demonstrar interesse na captação, permitindo que os interlocutores articulassem uma visita de dirigentes do fundo. “A gente pode patrocinar essa entrada. É por isso que eles (dirigentes da Previ) querem fazer a visita pessoalmente. A gente só tem que provocar essa visita, fazemos uma reunião, o presidente da Previ vai junto com a diretoria e a gente já conversa e acerta possíveis operações”, afirmou Buselin. A proposta não se limitava à operação inicial de R$ 2 bilhões. O operador também sugeriu que o primeiro negócio poderia abrir caminho para captações de valores ainda maiores nos meses seguintes. O objetivo declarado era permitir que o Master passasse a negociar diretamente com os fundos de pensão, reduzindo a dependência de intermediários e ampliando as possibilidades de acesso a recursos administrados por essas entidades.

Mensagens citam operadores e integrantes do governo Lula

A reportagem identifica Hamilton Buselin como um operador ligado a Júlio Cezar, apontado nas revelações sobre o caso Master como interlocutor em negociações envolvendo fundos de pensão e pessoas próximas ao então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha. As mensagens também mencionam a atuação de intermediários que buscavam aproximar Vorcaro de dirigentes de fundos ligados ao Banco do Brasil, à Caixa Econômica Federal, à Petrobras e aos Correios. Em reportagens anteriores, a Veja divulgou registros de entrada do Palácio do Planalto que mostram visitas de Vorcaro e Júlio Cezar em março de 2024. O banqueiro afirmou, em uma proposta de colaboração premiada, que participou de encontros relacionados à tentativa de captar recursos dessas entidades. O relato de Vorcaro também cita Alexandre Padilha e Olavo Noleto, então secretário-executivo da pasta comandada pelo ministro. Ambos negaram envolvimento em irregularidades, recebimento de propina ou atuação indevida em benefício do Banco Master. A realização de reuniões ou a existência de contatos entre representantes do governo e instituições financeiras não constitui, isoladamente, prova de crime. A eventual responsabilidade de cada pessoa depende da demonstração de condutas irregulares e de elementos que sustentem as acusações.

Vorcaro relatou plano de captar R$ 10 bilhões de fundos de pensão

O episódio envolvendo a Previ se insere em uma articulação mais ampla descrita por Daniel Vorcaro em sua proposta de delação premiada. Segundo o banqueiro, o objetivo seria captar até R$ 10 bilhões de fundos de pensão ligados a empresas estatais. Vorcaro afirmou que intermediários teriam solicitado comissões equivalentes a 10% dos recursos captados. Caso a operação atingisse o valor projetado, os pagamentos poderiam chegar a R$ 1 bilhão. Esses números representam a dimensão do plano descrito pelo ex-banqueiro e não comprovam que os investimentos ou pagamentos tenham ocorrido. A proposta de colaboração apresentada por Vorcaro foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por insuficiência de provas. De acordo com o relato divulgado pela Veja, as negociações teriam perdido força depois que notícias publicadas em julho de 2024 expuseram controvérsias relacionadas a possíveis investimentos de fundos de pensão em letras financeiras do Banco Master.

O que é a Previ e por que os R$ 2 bilhões chamam atenção?

A Previ é a entidade fechada de previdência complementar dos funcionários do Banco do Brasil. Sua função é administrar recursos destinados ao pagamento de benefícios previdenciários aos participantes e beneficiários de seus planos. Por administrar patrimônio voltado à aposentadoria, as decisões de investimento precisam observar critérios de segurança, rentabilidade, liquidez, governança e as regras aplicáveis às entidades de previdência complementar. As letras financeiras mencionadas nas mensagens são instrumentos de captação emitidos por instituições financeiras. Para quem investe, esses títulos oferecem remuneração conforme as condições contratadas, mas também envolvem riscos associados à instituição emissora. Por isso, a possibilidade de direcionar R$ 2 bilhões de um fundo de pensão a uma única instituição financeira chama atenção para a necessidade de controles internos, análise de risco e decisões formalmente justificadas.

O que já foi comprovado e o que ainda depende de investigação?

As mensagens divulgadas pela Veja documentam a existência de uma proposta de captação apresentada a interlocutores de Daniel Vorcaro. Também registram a afirmação de um operador de que haveria contatos previamente organizados na Previ e no Banco do Brasil. Entretanto, os documentos publicados não comprovam que a Previ tenha transferido R$ 2 bilhões ao Master, que funcionários do Banco do Brasil tenham participado de irregularidades ou que os valores projetados em comissões tenham sido pagos. A proposta de delação de Vorcaro, utilizada como parte do contexto das revelações, não foi aceita pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. As acusações nela contidas, portanto, não podem ser tratadas como fatos judicialmente demonstrados. O caso amplia os questionamentos sobre as tentativas de captação do Banco Master junto a fundos de previdência e sobre a atuação de intermediários nas negociações. A confirmação de eventuais irregularidades depende de apuração documental e da identificação de operações efetivamente realizadas.
Carregar Comentários