Áudios e mensagens sobre uma operação de R$ 2 bilhões da Previ em favor do Banco Master, articulada no fim de 2023 por operadores com trânsito político em Brasília, colocam sob pressão a governança do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil e alimentam o embate em torno da proposta de privatização do banco público, hoje defendida na campanha do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. Banco do Brasil e Previ negam qualquer vínculo comercial com o Master e chamam de falsas as alegações de que estruturas internas teriam sido mobilizadas para facilitar a operação.
Operação de R$ 2 bi e roteiro para abrir portas na Previ
No centro do caso está uma tentativa de captação que, segundo mensagens trocadas no fim de 2023, colocaria o Banco Master dentro do circuito de fundos de pensão estatais, começando pela Previ. Em áudio enviado a um emissário de Daniel Vorcaro, dono do Master, o operador Hamilton Buselin afirma que havia recursos bilionários prontos para serem direcionados ao banco.
“A informação que eu tive é de que o Master está tentando fazer uma operação muito grande (de captação nos fundos), mas estão tendo algum problema… Para aquisição de letras, não há limite e a disponibilidade hoje da Previ é de 2 bilhões de reais”, disse Buselin.
De acordo com o operador, o plano previa uma encenação para dar aparência de normalidade à operação: o Master teria de “provocar” formalmente a Previ, demonstrando interesse em captar, enquanto, nos bastidores, tudo já estaria costurado com dirigentes do fundo e funcionários do Banco do Brasil.
“A gente pode patrocinar essa entrada. É por isso que eles (dirigentes da Previ) querem fazer a visita pessoalmente. A gente só tem que provocar essa visita, fazemos uma reunião, o presidente da Previ vai junto com a diretoria e a gente já conversa e acerta possíveis operações”, afirmou Buselin, detalhando o roteiro.
Em outra mensagem, ele sustenta que o caminho dentro do Banco do Brasil também estaria pavimentado: “Para que isso seja feito, seja liberado, a gente tem todo o roteiro. Inclusive as pessoas no Banco do Brasil já estão instruídas a esperar e receber o que a gente encaminhar. A coisa já está totalmente montada”.
Um interlocutor de Vorcaro reforça, em conversa com o banqueiro, a suposta influência do grupo político sobre a Previ: “Ele está bastante dentro da Previ e eles estão com apetite pra comprar letras financeiras e os limites lá são bem altos”, afirma, ao se referir ao lobista Júlio Cezar.
Grupo político e encontros no Planalto
As mensagens associam a articulação ao grupo do ministro Alexandre Padilha, que à época chefiava a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência. O lobista Júlio Cezar e o assessor Olavo Noleto, braço-direito de Padilha no Planalto, aparecem como peças-chave para aproximar Daniel Vorcaro de dirigentes de fundos de pensão como Previ, Petros, Postalis e o fundo dos empregados da Caixa.
Registros de entrada no Palácio do Planalto indicam que Vorcaro e integrantes do grupo de Júlio Cezar estiveram no prédio em pelo menos duas ocasiões, em encontros ligados às negociações para que o Banco Master passasse a operar com recursos de fundos de pensão estatais. Em mensagens citadas em investigação, Júlio prometia colocar o banqueiro “na boca do gol” no Banco do Brasil.
Na proposta de delação premiada apresentada por Vorcaro à Procuradoria-Geral da República, e mais tarde rejeitada por “falta de provas”, o banqueiro afirmou que o esquema poderia render R$ 10 bilhões ao Banco Master, com contrapartida de R$ 1 bilhão em propinas a integrantes do grupo político. Pessoas ligadas a Padilha negam qualquer atuação em favor do Master ou recebimento de propina.
O avanço da operação esbarrou na exposição pública do caso. Após notícias sobre pressões em fundos de pensão para compra de letras financeiras do Master, decisões de investimento teriam sido congeladas por dirigentes de entidades como Petros, Postalis e Previ.
O que dizem Banco do Brasil e Previ
Em nota, o Banco do Brasil afirma que “repudia veementemente as declarações atribuídas a terceiros” e rebate a narrativa de que empregados ou estruturas da instituição teriam sido instruídos a facilitar qualquer negociação com o Banco Master. O banco diz que “não tem nenhuma relação comercial ou institucional com empresas do grupo Master” e que “não há e nunca houve qualquer concessão de empréstimos ou compra ou distribuição de papéis relacionados ao Master pelo Banco do Brasil e Previ, corroborando a lisura e competência técnica das instituições”.
A instituição acrescenta que suas decisões seguem “rigorosos critérios de governança, compliance e legislação vigente” e que adotará “todas as medidas necessárias para resguardar sua reputação e integridade jurídica contra ilações infundadas”.
A Previ, por sua vez, declara que “repudia as informações” que a colocam como parte de uma suposta operação com o Master. O fundo de pensão afirma que “nunca realizou análise de investimento no Banco Master e jamais aprovou, reservou ou autorizou recursos para aplicações na instituição” e que o Master “sequer foi considerado como possível parceiro de investimento”.
A entidade enfatiza que o banco “nunca foi habilitado nem analisado para operar com a Previ” e ressalta seu “compromisso com critérios rigorosos de governança e com a gestão responsável dos recursos de seus participantes”. Todos os investimentos, diz a nota, podem ser consultados na área de transparência do site da fundação.
O que houve com o Banco Master no Brasil?
O Banco Master está hoje sob liquidação extrajudicial após uma sequência de operações financeiras consideradas temerárias por órgãos de fiscalização, o que encerrou sua atuação como banco comercial e acendeu o alerta entre clientes e credores.
A liquidação extrajudicial significa, na prática, que o controle da instituição foi retirado dos antigos administradores e passou para um liquidante nomeado pela autoridade supervisora. Esse responsável assume a tarefa de levantar ativos, apurar passivos, organizar a lista de credores do Banco Master e conduzir a venda de bens e carteiras para pagar, na ordem legal de preferência, quem tem direito a receber.
A situação do Master ganhou ainda mais peso político porque veio à tona no momento em que avançavam as revelações sobre a tentativa de usar o banco como canal para captar recursos de fundos de pensão, como a Previ, com forte componente de influência política. As investigações e delações não homologadas colocam sob escrutínio a forma como o banco buscou se credenciar junto ao governo para acessar grandes volumes de poupança de trabalhadores.
Qual a relação entre o Banco Master e o Banco do Brasil na atual investigação?
A relação apareceu nas tratativas para que o Banco Master recebesse aplicações bilionárias da Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, por meio de uma operação estruturada que, segundo mensagens de operadores, contaria com o apoio de pessoas dentro do próprio BB.
Nos áudios que vieram à tona, o operador Hamilton Buselin menciona que “as pessoas no Banco do Brasil já estão instruídas a esperar e receber o que a gente encaminhar”, sugerindo que o roteiro para a liberação de recursos da Previ passaria também por áreas do banco estatal. As conversas descrevem uma coreografia em que o Master manifestaria, formalmente, interesse em captar recursos via compra de letras financeiras, e o sistema já estaria preparado para responder positivamente.
Do lado institucional, porém, Banco do Brasil e Previ afirmam que essa articulação nunca se concretizou em operações reais. As duas entidades sustentam que não houve qualquer concessão de crédito, aquisição de títulos ou outro tipo de exposição financeira ao Banco Master. Também negam que empregados tenham sido orientados a favorecer o banco privado.
Na esfera política, a investigação busca esclarecer se autoridades ligadas ao Palácio do Planalto atuaram para abrir portas ao Master em fundos de pensão estatais, inclusive no universo do BB, e se houve promessa de contrapartida financeira. Até agora, a delação de Daniel Vorcaro, que detalhava esses supostos acertos, foi rejeitada pela Procuradoria-Geral da República, o que deixa o caso em compasso de espera na área criminal, embora o desgaste institucional persista.
Entenda o contexto
A tentativa de operação com a Previ ocorre em paralelo a uma agenda de privatizações que voltou ao centro do debate eleitoral. Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, defende a venda de 95% das estatais brasileiras, incluindo o Banco do Brasil, sob o argumento de reduzir o tamanho do Estado e atrair investimentos privados.
Para entidades que representam bancários e aposentados, o caso do Banco Master é visto como um alerta sobre os riscos de fragilizar a governança de bancos públicos e de fundos de pensão em um ambiente de maior exposição ao mercado. A avaliação é que esquemas como o descrito nas mensagens prosperam justamente em brechas regulatórias e em estruturas vulneráveis a pressões políticas e interesses privados.
Risco para fundos de pensão e impacto em trabalhadores
Se tivesse ido adiante, a operação de R$ 2 bilhões com a Previ poderia ter significado uma exposição relevante do patrimônio dos funcionários do Banco do Brasil a um banco que mais tarde acabaria em liquidação extrajudicial. Na delação rejeitada, Vorcaro falava em um potencial de R$ 10 bilhões em negócios com fundos de pensão, com pagamento de R$ 1 bilhão em propinas, o que, na prática, significaria drenar parte da poupança previdenciária dos trabalhadores para remunerar intermediários.
Esse desenho acende o alerta para a robustez dos sistemas de controle interno de entidades como Previ, Petros e outros fundos ligados a estatais, que administram trilhões de reais e são fundamentais para a aposentadoria de milhões de pessoas. Quando um desses fundos sofre perdas relevantes, o impacto tende a recair sobre benefícios futuros, contribuições adicionais ou necessidade de aportes extras dos patrocinadores estatais, com reflexos nas contas públicas.
Para o sistema financeiro, a combinação de operações de risco, influência política e quebra de instituições como o Banco Master mina a confiança de investidores e trabalhadores na previdência complementar. A liquidação do Master reforça a pressão por regras mais rígidas de credenciamento de instituições financeiras que pretendem operar com recursos de fundos de pensão, bem como por maior transparência sobre quem ganha com essas operações.
Privatização do Banco do Brasil e temor entre bancários
O episódio se mistura a uma disputa maior: o futuro do Banco do Brasil. Propostas de privatização do BB, defendidas por Flávio Bolsonaro, provocam reação de sindicatos de bancários, associações de aposentados e entidades ligadas a fundos de pensão.
Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, afirma que a venda do banco público pode trazer efeitos profundos para empregos, direitos e para a própria solvência de fundos como Previ e Cassi. “Nossa posição é de defesa intransigente dos bancos públicos, dos empregos, dos direitos e do atendimento à população. O patrimônio público deve servir ao povo brasileiro, e não ser colocado à venda. Banco público forte é fundamental para um Brasil mais justo, soberano e desenvolvido”, diz.
Ela destaca que, em privatizações anteriores de bancos estaduais, como a do Banespa, houve mais de 8 mil demissões, congelamento de salários e perda de direitos trabalhistas. Para Neiva, repetir esse roteiro em escala nacional teria impacto ainda maior: “Privatizar um banco público não é simplesmente trocar seu controlador. É colocar em risco empregos, direitos históricos e instrumentos fundamentais para o desenvolvimento econômico e social do país”.
Outro ponto de preocupação é o papel do Banco do Brasil em regiões onde instituições privadas não têm interesse em manter agências e linhas de crédito. Em muitos municípios pequenos, o BB é a única porta de acesso a serviços bancários. Entidades de trabalhadores temem que uma eventual privatização leve ao fechamento de unidades e à redução do crédito para agricultura familiar, pequenas empresas e políticas de desenvolvimento regional.
No campo político, esse debate se entrelaça à revelação de esquemas envolvendo bancos privados como o Master, alimentando o argumento de que o fortalecimento da governança dos bancos públicos e de seus fundos de pensão é condição para evitar que recursos estratégicos do país sejam capturados por interesses de curto prazo.