Vorcaro discutiu compra de 20% da arena do Palmeiras por R$ 340 milhões, mostram mensagens
Conversas extraídas pela Polícia Federal indicam que o ex-banqueiro aceitou discutir a proposta apresentada pelo advogado Walfrido Warde; não há confirmação de que o negócio tenha sido formalizado.
Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro mostram que o ex-banqueiro discutiu a possibilidade de comprar 20% da empresa responsável pela exploração comercial do estádio do Palmeiras, em São Paulo. A participação foi estimada em R$ 340 milhões, com base em uma avaliação de R$ 1,7 bilhão mencionada pelo advogado Walfrido Warde durante as conversas.
Os diálogos ocorreram em agosto de 2024, quando a arena ainda era conhecida como Allianz Parque. Warde apresentou a oportunidade a Vorcaro, que demonstrou interesse e afirmou estar disposto a discutir a operação. As mensagens, porém, não comprovam que a negociação tenha resultado em contrato ou na transferência de participação societária.
As conversas começaram em junho de 2024, quando Warde relatou a Vorcaro avanços da WTorre em disputas judiciais relacionadas ao estádio. Em 13 de agosto daquele ano, o advogado perguntou diretamente se o então controlador do Banco Master teria interesse em comprar uma participação no empreendimento.
“Te interessa comprar um pedaço do Allianz?”, escreveu Warde.
Vorcaro respondeu positivamente e perguntou quais seriam as condições. O advogado explicou que a operação ainda precisava ser estruturada e mencionou uma avaliação de R$ 1,7 bilhão para o complexo, sugerindo a venda de aproximadamente 20%.
Com base nesses números, a fatia discutida corresponderia a cerca de R$ 340 milhões. O cálculo resulta da aplicação dos 20% sobre o valor de R$ 1,7 bilhão citado na conversa. Trata-se de uma estimativa apresentada durante a negociação, não de um preço final comprovado por contrato.
Vorcaro demonstrou disposição para avançar, mas levantou dúvidas sobre o endividamento relacionado ao empreendimento. “Eu topo, conheço os grandes números, só não sei como ficou a dívida”, escreveu, conforme os trechos das mensagens divulgados pela imprensa.
Allianz estava nos planos do Master | Foto: Reprodução
Dívida com o BTG entrou na conversa
Em resposta à preocupação de Vorcaro, Warde afirmou que a dívida estava com o BTG e disse que as pendências financeiras com o Palmeiras já haviam sido acertadas, com previsão de liquidação até o fim de agosto de 2024.
O advogado também perguntou se poderia organizar uma reunião com a “família”. Depois de não receber uma resposta imediata, insistiu no agendamento. Vorcaro sinalizou que aceitava o encontro e sugeriu uma sexta-feira, mas as mensagens divulgadas não esclarecem se a reunião ocorreu nem quais condições teriam sido discutidas presencialmente.
Cerca de 20 dias depois, Warde voltou a cobrar uma posição de Vorcaro, dizendo que a WTorre aguardava uma resposta. Como não obteve retorno por escrito, o advogado telefonou para o ex-banqueiro. Vorcaro retornou a chamada, que, segundo a reportagem da CNN Brasil, durou 3 minutos e 36 segundos. O conteúdo do telefonema não foi apresentado na transcrição divulgada.
Quem é Walfrido Warde na negociação
Walfrido Warde aparece nas conversas como o responsável por apresentar a oportunidade de investimento a Vorcaro e tentar encaminhar as tratativas. O advogado atua em assuntos empresariais e societários e também representa interesses ligados à WTorre, empresa responsável pelo desenvolvimento e pela exploração comercial da arena.
Foi Warde quem mencionou a avaliação de R$ 1,7 bilhão, sugeriu a participação de 20%, explicou a situação das dívidas e tentou marcar uma conversa com a família controladora da construtora. Os registros indicam sua atuação como intermediário nas tratativas, mas não esclarecem se chegou a ser elaborado um instrumento formal de compra e venda.
Walfrido Warde foi principal interlocutor de Vorcaro com o “mundo lá fora” | Foto: Reprodução
O que seria comprado e qual é a relação com o Palmeiras
A negociação mencionada nas mensagens envolvia uma participação na estrutura empresarial que explora comercialmente a arena, e não necessariamente a compra direta de 20% da propriedade física do estádio. A distinção é relevante porque o empreendimento funciona com base em contratos que distribuem direitos de uso, exploração e receitas entre a WTorre e o Palmeiras.
A WTorre foi responsável pela construção e pela estruturação comercial do estádio multiuso. O Palmeiras, por sua vez, mantém direitos previstos no contrato de parceria e recebe receitas de acordo com as regras estabelecidas entre o clube e a empresa. O empreendimento recebe atualmente o nome comercial de Nubank Parque.
Uma eventual entrada de um novo investidor na empresa responsável pela exploração comercial poderia alterar a composição societária desse negócio. No entanto, as mensagens divulgadas não demonstram que Vorcaro tenha adquirido poder de decisão sobre a arena, nem que a proposta tenha sido concluída.
Palmeiras e WTorre chegaram a acordo em outubro de 2024
Em 9 de outubro de 2024, o Palmeiras anunciou um acordo com a Real Arenas, empresa do grupo WTorre responsável pela exploração do estádio, para encerrar disputas judiciais e arbitrais. Segundo o clube, o acerto financeiro totalizou R$ 117,1 milhões, incluindo R$ 50,1 milhões pagos à vista, além de ajustes comerciais e operacionais.
O acordo foi anunciado quase dois meses depois das mensagens de agosto entre Warde e Vorcaro. A sequência cronológica, contudo, não comprova que a proposta de investimento tenha influenciado o entendimento entre o clube e a WTorre, nem que os dois assuntos tenham sido formalmente vinculados.
Prédio da WTorre | Foto: Reprodução
O que dizem os envolvidos
Procurado pela reportagem original, o Palmeiras afirmou não ter conhecimento da negociação entre Warde e Vorcaro e ressaltou que a gestão comercial do estádio é responsabilidade da WTorre. O clube também explicou que recebe percentuais de receitas previstas no contrato e administra o espaço em dias de jogos.
A defesa de Daniel Vorcaro preferiu não comentar o conteúdo das conversas interceptadas. A reportagem também procurou a assessoria de Walfrido Warde, mas não recebeu resposta até a publicação.
As mensagens documentam uma proposta e o interesse inicial de Vorcaro em discutir a compra de uma participação na operação comercial da arena. Até que surjam documentos adicionais, não é possível afirmar que a transação tenha sido formalizada ou concluída.