Economia da Argentina encolhe e Milei já enfrenta risco de recessão

Queda na atividade econômica e fechamento de empresas indicam possível recessão técnica na Argentina em 2026.
Redação NC News
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A Argentina chega a outubro com 31,3 mil empresas a menos, 245 mil empregos formais perdidos e uma queda brusca de 2,9% na atividade econômica em julho, enquanto o governo Javier Milei insiste em defender o ajuste liberal e minimizar o risco de recessão técnica em 2026.

Como está a economia da Argentina em 2026 sob o governo de Milei?

A economia argentina em 2026 combina inflação em forte desaceleração com fechamento de empresas, perda de empregos formais e atividade em queda, num cenário que já aponta para recessão técnica.

Desde o início do governo Milei, o país viu 31,3 mil empresas encerrarem as atividades até junho, o equivalente a 6,1% do total. O impacto atinge 23 das 24 províncias, em 14 dos 18 setores pesquisados, com a única exceção de Neuquén, beneficiada pela exploração de gás natural em Vaca Muerta.

No mercado de trabalho, 245,6 mil postos privados registrados foram extintos em 31 meses, o que elevou a taxa de desemprego para 7,9% no primeiro semestre deste ano, alta de 0,3 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano passado. Parte dessa perda foi compensada pelo avanço de 8,3% no número de trabalhadores autônomos, em um movimento de maior informalidade. “Os empregos perdidos são parcialmente substituídos por atividades desprotegidas”, avalia o Centro de Economia Política Argentina (Cepa).

Na indústria, os números também são negativos. A produção acumulada em 12 meses até julho recua 2,6%, com tombo de 19,1% na fabricação de equipamentos eletrônicos e médicos. O fechamento de companhias tradicionais dos ramos metalúrgico e têxtil simboliza a crise do setor produtivo.

Ao mesmo tempo, a inflação anual desaba de 289% em abril do ano passado para 33,5% em agosto, no acumulado de 12 meses. Essa melhora é o principal trunfo político de Milei e base do discurso de que o país estaria “virando a página” da hiperinflação.

Para o professor de economia da FGV-SP Paulo Gala, porém, a estabilidade de preços é frágil e tem custo alto sobre a atividade. “A moeda sobrevalorizada ajuda a controlar a inflação, só que ela detona o setor industrial. Estamos vendo agora é a contração industrial, perda de empregos industriais, desemprego com quase 8% e o crescimento perdendo muito fôlego”, afirma.

Risco de recessão técnica aumenta em 2026

Depois de crescer 4,4% no ano passado, a economia argentina perde tração em 2026. O Produto Interno Bruto recua 0,6% no segundo trimestre em relação aos três primeiros meses do ano. Em julho, o indicador mensal de atividade econômica (Emae) mostra um tombo de 2,9% sobre junho, o pior resultado do governo Milei.

Diante desses dados, a consultoria internacional Oxford Economics passou a projetar contração do PIB no terceiro trimestre, o que colocaria o país em recessão técnica — quando a economia encolhe por dois trimestres consecutivos. A nova estimativa é de queda em torno de 2% para o período, ainda com perspectiva de crescimento modesto no fechamento de 2026.

A economista-chefe da Invecq, Milagros Gismondi, avalia que parte da queda de julho se deve a choques temporários, mas vê pouco espaço para uma recuperação rápida. “Julho foi prejudicado por choques pontuais e é bem possível que, em agosto, a atividade se recupere. Mas seria necessário recuperar toda a queda e ter um crescimento forte em setembro, o que é muito difícil”, afirma.

A dívida externa de cerca de US$ 350 bilhões, somada à dependência de empréstimos do Fundo Monetário Internacional e ao corte agressivo de gastos públicos, limita a capacidade do governo de reagir com estímulos à economia sem colocar em risco a âncora de confiança construída em torno do ajuste fiscal.

Entenda o contexto

O plano econômico de Javier Milei se apoia em três pilares principais: forte redução do gasto público, desregulação trabalhista e abertura comercial, com câmbio mais valorizado para conter a inflação. Na prática, o Estado reduz compras, investimentos e subsídios; enfraquece regras de proteção trabalhista; e busca integrar o país a cadeias globais, ao mesmo tempo em que negocia pacotes com o FMI para honrar compromissos externos.

Esse desenho agrada a parte do mercado financeiro e de setores empresariais que defendem uma agenda liberal de longo prazo, mas cobra um preço imediato da indústria e dos pequenos negócios, que perdem mercado para importados e enfrentam crédito caro, demanda fraca e custos em alta. A Fundar resume o impacto sobre o tecido produtivo: “Se observarmos os dados do governo Milei, vemos que, durante essa gestão, o número de empresas caiu tanto quanto na pandemia”.

Na avaliação de publicações internacionais especializadas, o desafio agora é conciliar o controle da inflação com a retomada do crescimento. Em editorial recente, a revista britânica The Economist escreveu que o país precisa de mais expansão econômica e menos confronto político, destacando que “os salários reais ainda são menores do que quando ele assumiu o cargo; empregos formais estão desaparecendo”. Segundo o texto, Milei tem se mostrado relutante em admitir que o combate à inflação esteja prejudicando o crescimento.

Reação de Milei e peso do debate político regional

O presidente argentino, por sua vez, insiste que o ajuste está funcionando. Em discurso no fim de agosto, ele citou como positivos os dados de exportações, consumo privado, inflação e o desempenho do PIB no ano passado. “Se fosse realmente o caso de todas as empresas estarem fechando e nenhuma abrindo, o desemprego teria que estar disparando, e o desemprego não está disparando”, argumentou.

Milei também voltou a criticar empresários que dependem de incentivos estatais. “Queremos ser grandes? Precisamos amadurecer, e esses capitalistas de compadrio precisam falir”, disse, reforçando o discurso de que o programa de choque pretende desmontar um sistema de privilégios e tornar a economia mais competitiva no longo prazo.

Fora da Argentina, o desempenho da economia virou arma no debate político. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou publicamente, em debate televisionado neste domingo, o apoio de aliados da oposição ao “modelo Milei”, apontando o aumento da pobreza e a deterioração social do país vizinho como sinal de fracasso do ajuste.

A crítica ecoa avaliações de economistas argentinos que veem precarização acelerada do mercado de trabalho, com empresas formais fechando e parte dos trabalhadores migrando para o empreendedorismo por necessidade, sem proteção social. Para eles, sem uma agenda de reindustrialização e geração de emprego de qualidade, o risco é de que a combinação de inflação mais baixa com atividade travada resulte em uma crise social prolongada.

Por que a economia da Argentina está em crise atualmente?

A crise atual decorre da combinação entre fragilidades estruturais antigas — como dívida externa alta e baixa produtividade — e o choque de ajuste liberal acelerado imposto pelo governo Milei.

De um lado, a sobrevalorização do peso e o corte de gastos ajudaram a derrubar a inflação de 289% para 33,5% em pouco mais de um ano. De outro, esses mesmos fatores pressionam a indústria, reduzem a demanda interna e restringem a capacidade do Estado de proteger empresas e famílias em meio à desaceleração.

O resultado aparece na destruição de 6,1% do parque empresarial formal em menos de três anos, na queda de 2,6% da produção industrial em 12 meses e na elevação do desemprego para 7,9%, com avanço expressivo de trabalhadores por conta própria em atividades menos protegidas. A Oxford Economics alerta que, com a atividade recuando 0,6% no segundo trimestre e 2,9% em julho, o país caminha para uma recessão técnica justamente no momento em que tenta consolidar o ajuste fiscal.

Nesse quadro, analistas apontam que a continuidade da mesma estratégia, sem ajustes para estimular investimento produtivo e emprego, tende a aprofundar a crise social. Ao mesmo tempo, a elevada dívida externa e os compromissos com o FMI estreitam o espaço de manobra para mudanças bruscas na política econômica nos próximos meses.

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