No último domingo (18), aconteceu o primeiro — e talvez único — debate presidencial do segundo turno das eleições de 2026. A sensação que ficou, após tantos transtornos, trocas de farpas, deboches e até reações da plateia, é que assistíamos a mais uma edição do Big Brother Brasil. Muito semelhante a uma dinâmica do “Sincerão” (ex-Jogo da Discórdia), cada candidato possuía acusação, réplica e tréplica — teoricamente.
Em vez de um diálogo com propostas e embates ideológicos, o estúdio da emissora ganhou nuances de 5ª série B e reality show de baixo orçamento. Até mesmo a dinâmica do BBB soa mais civilizada do que aquilo que foi visto ontem à noite. Sem respeitar o tempo de fala, com “gracinhas” pelas costas do oponente e com pouco compromisso com a estrutura de perguntas e respostas, os candidatos pareciam muito mais preocupados com o “lenga-lenga” eleitoral.
E, enquanto os presidenciáveis disputavam quem conseguiria provocar mais o adversário, as redes sociais encontraram entretenimento de sobra. O debate entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) virou um verdadeiro prato cheio para memes, cortes e comentários bem-humorados.
Déjà-vu? Lula vira as costas para Flávio em debate e cena de 2022 viraliza nas redes
Debate da Band teve ‘farmação aura’ e ‘zoeiras’
Se antes a visibilidade do debate tinha como pretensão virar votos entre os candidatos, agora o foco também é gerar cortes para as redes sociais. E funcionou.
A “manchete” do X (antigo Twitter) nesta segunda-feira (19) foram os “mil pontos de aura” que Lula teria “farmado” ao incluir Jair Bolsonaro na categoria de presidiário e pedir seu voto, em resposta a uma provocação de Flávio.
Do lado oposto, o presidenciável do PL ganhou o tom de gozador ao falar que esconderia a carteira do petista, em uma insinuação de que Lula seria ladrão.
Tivemos também, assim como em todo reality, a dinâmica da perseguição. O nome de Lula ganhou sabor de mel na boca de Flávio, que o culpava por tudo de negativo que acometeu o Brasil nos últimos 20 anos — período que ele destaca como “dominado pelo PT”.
Não é necessário ser um Einstein da matemática para assimilar que, nas últimas duas décadas, a nação também foi governada por Jair Bolsonaro (PL) e Michel Temer (MDB).
A acusação busca, desse modo, associar ao PT a responsabilidade por problemas de diferentes governos, ignorando a alternância de poder que ocorre em regimes democráticos.
Lula, Flávio e a torcida organizada na plateia
Além de jornalistas credenciados, o evento contou com convidados e aliados políticos na plateia. Assim como em um Caldeirão ou Domingão, populares programas de auditório, o debate ganhou tom jocoso, com torcida organizada para cada candidato.
Mesmo proibidos de se manifestar, os presentes não se reprimiram ao vaiar e aplaudir seus presidenciáveis favoritos — assim como acontece nas dinâmicas do BBB.
O fim da zorra eleitoral trouxe uma memória de infância para todos os brasileiros: a jornalista Adriana Araújo assumiu o papel de professora e todo o resto pertencia à classe da 5ª série B.
Mesmo com pedidos repetitivos de silêncio para “seguir a aula”, a turminha não obedeceu à “tia” e manteve as conversas desordenadas. A vida dos docentes realmente não é fácil.
Ah, e como pude me esquecer da dancinha de Flávio ao anúncio do encerramento do debate? Toda turma tem um engraçadinho, né?
Entre o Sincerão e as propostas para o Brasil
É claro que, entre uma provocação e outra, também houve espaço para discutir propostas. Segurança pública, economia e saúde estiveram entre os assuntos abordados pelos candidatos. Mas, convenhamos, ficou difícil prestar atenção nos projetos para o país enquanto o estúdio parecia estar prestes a anunciar uma eliminação.
O problema não é o debate render memes. Afinal, a internet transforma praticamente qualquer acontecimento em entretenimento. A questão é quando as provocações ganham mais destaque do que aquilo que realmente deveria importar: as propostas de quem pretende governar o Brasil.
No BBB, o público acompanha discussões, escolhe seus favoritos e vota para eliminar participantes. No segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro, o voto tem consequências muito maiores.
E, depois do espetáculo de domingo, fica a pergunta: será que ainda teremos um debate presidencial ou precisaremos esperar o próximo Sincerão?