A atitude do ator Marco Nanini, de 78 anos, durante uma apresentação teatral em Porto Alegre (RS), provocou críticas, vaias e protestos do público. O episódio, ocorrido no domingo (18), ganhou repercussão nas redes sociais após a retirada de intérpretes de Libras do palco. Espectadores surdos abandonaram o teatro, acompanhados por outras pessoas em solidariedade, enquanto a produtora do espetáculo reconheceu uma falha e pediu desculpas.
Vídeos divulgados na internet mostram a reação de parte da plateia, que protestou contra a continuidade da apresentação sem tradução para a Língua Brasileira de Sinais. O artista surdo Lucas Bourscheid, que acompanhava a peça, criticou a decisão e afirmou que a retirada das profissionais também significava excluir o público que dependia do recurso para acompanhar a história.

A controvérsia aconteceu durante a montagem de “Fim de Partida”, no Teatro Simões Lopes Neto, localizado no complexo Multipalco Eva Sopher. A apresentação foi interrompida aproximadamente dez minutos após o início, depois que Nanini reclamou de sombras projetadas no palco pela iluminação utilizada para as intérpretes.
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O que aconteceu durante a apresentação de Marco Nanini?
Segundo relatos de espectadores, Marco Nanini interrompeu sua atuação ao perceber que a iluminação direcionada às profissionais de Libras projetava sombras que prejudicavam sua visão durante a encenação.
Após a reclamação, as cortinas foram fechadas temporariamente. Integrantes da produção, técnicos e funcionários do teatro tentaram encontrar uma alternativa para manter a interpretação sem interferir na iluminação do espetáculo.
Como o problema não foi resolvido, as intérpretes deixaram o palco. Uma representante do teatro informou ao público que a apresentação continuaria sem o recurso de acessibilidade.
A decisão provocou vaias, gritos e manifestações de indignação. Pessoas surdas deixaram o local, acompanhadas por espectadores ouvintes que também decidiram não permanecer na sessão.
A peça continuou normalmente após a interrupção, mas sem a interpretação em Libras inicialmente prevista para aquela apresentação.
Repercussão: espectadores criticam atitude do ator
A reação de Marco Nanini e a decisão de retirar as intérpretes foram criticadas por pessoas que acompanhavam a apresentação. Nas redes sociais, relatos de espectadores ampliaram a discussão sobre o tratamento dispensado ao público surdo.
O artista surdo Lucas Bourscheid afirmou que a retirada das profissionais impediu que pessoas com deficiência auditiva acompanhassem o espetáculo em igualdade de condições.
“Faltou empatia, faltou respeito com a comunidade surda, e isso é inaceitável. Não foi a produção, foi o Marco Nanini que falou para retirar a interpretação. Se falaram para as intérpretes saírem, significa que era para nós, surdos, também sairmos”, declarou.
A gestora cultural e professora de teatro Izabel Cristina da Silveira também estava presente e relatou ter deixado o teatro após a interrupção.
“Imediatamente saí também do teatro e algumas outras pessoas saíram, outras ficaram revoltadas, indignadas. Eu quase não acreditei no que estava vendo acontecer, quando Nanini parou a apresentação e falou daquela maneira. Estou ainda incrédula que a maioria das pessoas permaneceu lá assistindo o espetáculo como se nada tivesse acontecido”, afirmou.
Os depoimentos reforçaram as críticas à condução do episódio, especialmente porque a sessão havia sido anunciada com recursos de acessibilidade.
Embora parte da plateia tenha protestado contra o ator, outros espectadores saíram em sua defesa durante a confusão.
Produtora de Marco Nanini assume responsabilidade e pede desculpas
Após a repercussão, a Pequena Central de Produções Artísticas, responsável pela montagem e da qual Marco Nanini é sócio, divulgou um comunicado reconhecendo problemas na organização da apresentação.
A empresa confirmou que houve incompatibilidade entre o posicionamento da intérprete de Libras e a iluminação utilizada no espetáculo.
Segundo a produtora, a sessão foi interrompida para que as equipes responsáveis tentassem solucionar o problema, mas não foi possível encontrar uma alternativa naquele momento.
“Não foi possível resolver o problema naquele momento, e a apresentação foi retomada sem interpretação em Libras, comprometendo o acesso do público surdo ao espetáculo”, informou a empresa.
A produtora reconheceu que deveria ter verificado antecipadamente as condições técnicas necessárias para garantir a acessibilidade durante a apresentação.
“Assumimos inteira responsabilidade por essa falha e por suas consequências”, declarou a organização.
A empresa pediu desculpas ao público surdo, às intérpretes e às demais pessoas envolvidas. Também afirmou que a acessibilidade precisa ser considerada desde o planejamento até a realização dos espetáculos.
Até as publicações consultadas nesta terça-feira (20), não havia sido localizado um pronunciamento individual de Marco Nanini sobre a controvérsia.
Fundação responsável pelo teatro também se manifesta
A Fundação Theatro São Pedro, responsável pela administração do complexo cultural, lamentou o episódio e afirmou que sua equipe tentou mediar uma solução durante a interrupção.
Segundo a instituição, foram avaliadas alternativas para manter a interpretação em Libras sem comprometer as condições técnicas da montagem. Entretanto, nenhuma delas foi considerada viável naquele momento.
“A Fundação lamenta muito o ocorrido, especialmente os prejuízos causados à comunidade surda presente”, afirmou a instituição.
A empresa Para Todos Acessibilidade, responsável pelo serviço de interpretação, também lamentou a situação e defendeu mudanças para evitar que episódios semelhantes voltem a acontecer.
A apresentação havia sido anunciada com recursos de acessibilidade, incluindo Libras e audiodescrição. A retirada das intérpretes comprometeu o acesso das pessoas surdas à peça.
Qual é a história da peça “Fim de Partida”?
O espetáculo é uma adaptação da obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, um dos principais nomes do teatro do absurdo.
A montagem brasileira tem direção de Rodrigo Portella e reúne Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França.
Na história, Nanini interpreta Hamm, um personagem cego que utiliza cadeira de rodas. A narrativa acompanha personagens que convivem em um ambiente isolado, marcado por relações de dependência, conflitos e dificuldades de comunicação.
A produção utiliza elementos de iluminação, cenário e movimentação dos atores para construir a atmosfera da obra. Foi justamente a interação entre esses recursos técnicos e a posição das intérpretes que, segundo a produtora, provocou o problema durante a apresentação.
Polêmica reacende discussão sobre acessibilidade cultural
A repercussão do episódio também ampliou o debate sobre a necessidade de garantir recursos de acessibilidade em apresentações culturais.
A Língua Brasileira de Sinais é reconhecida legalmente como meio de comunicação e expressão no Brasil. A presença de intérpretes em espetáculos permite que pessoas surdas que utilizam Libras acompanhem diálogos e outros elementos da apresentação.
A Lei Brasileira de Inclusão estabelece diretrizes para assegurar o acesso de pessoas com deficiência à cultura em igualdade de oportunidades.
No caso ocorrido em Porto Alegre, a própria produtora reconheceu que a ausência de planejamento técnico adequado comprometeu o serviço oferecido ao público.
O episódio deixa em discussão a responsabilidade das produções culturais de organizar previamente as condições necessárias para que recursos de acessibilidade funcionem durante toda a apresentação, sem depender de soluções improvisadas.