Uma pequena água-viva capaz de reverter o próprio ciclo de vida está ajudando cientistas a investigar novas possibilidades de tratamento para doenças relacionadas ao envelhecimento, como o Alzheimer. Conhecida como “água-viva imortal”, a espécie Turritopsis dohrnii consegue retornar à fase juvenil mesmo depois de atingir a maturidade.
Pesquisadores estudam como esse processo acontece e se os mecanismos envolvidos poderão, no futuro, contribuir para a recuperação de células e tecidos humanos.
Diferentemente da maioria dos animais, que seguem um ciclo de nascimento, crescimento, reprodução e morte, a Turritopsis dohrnii consegue reiniciar parte do desenvolvimento quando enfrenta determinadas condições adversas, como ferimentos ou falta de alimento. Em vez de continuar envelhecendo, o organismo adulto passa por uma transformação e retorna ao estágio de pólipo, uma fase anterior de sua vida.
O fenômeno desperta o interesse de pesquisadores porque envolve a reprogramação de células, um processo que pode oferecer pistas sobre a regeneração de tecidos danificados pelo envelhecimento. Apesar das possibilidades, ainda não existe tratamento médico desenvolvido a partir da água-viva capaz de reverter doenças humanas.
Como a água-viva consegue voltar a ser jovem?
A transformação ocorre por um processo conhecido como transdiferenciação, no qual células já especializadas mudam suas características e passam a desempenhar outras funções.
Quando a água-viva adulta enfrenta determinadas situações de estresse, seu corpo pode se reorganizar em uma estrutura intermediária, semelhante a um pequeno cisto. A partir dela, o organismo forma um pólipo, que posteriormente poderá originar novas águas-vivas.
É como se um animal adulto conseguisse retornar a uma etapa anterior do próprio desenvolvimento, algo extremamente incomum na natureza. A capacidade foi descrita cientificamente na década de 1990 e, desde então, passou a ser investigada por equipes de diferentes países.
Genes podem explicar capacidade de regeneração
Em 2022, pesquisadores da Universidade de Oviedo, na Espanha, compararam o material genético da Turritopsis dohrnii com o de uma espécie aparentada que não apresenta a mesma capacidade conhecida de rejuvenescimento.
O estudo identificou diferenças em genes relacionados ao reparo do DNA e à manutenção dos telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos que ajudam a proteger o material genético.
Nos seres humanos, os telômeros tendem a encurtar com as sucessivas divisões celulares, fenômeno associado ao envelhecimento. A água-viva apresenta características genéticas que podem favorecer a preservação dessas estruturas e a reparação de danos celulares.
Outras pesquisas também identificaram alterações na atividade de genes envolvidos na regeneração e na reorganização das células durante o retorno à fase juvenil.
Descoberta pode ajudar no tratamento do Alzheimer?
Os cientistas investigam se mecanismos semelhantes aos observados na água-viva poderiam ser utilizados, futuramente, para estimular a regeneração de tecidos humanos.
Entre as possibilidades estudadas estão a recuperação de tecidos lesionados após acidentes vasculares cerebrais (AVCs), a reparação de danos provocados por ataques cardíacos e o desenvolvimento de abordagens para doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
O médico e pesquisador Michael Koldobskiy, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, considera que compreender os mecanismos moleculares da espécie poderá abrir caminhos para a medicina regenerativa.
Entretanto, essas aplicações permanecem no campo da investigação científica. Os estudos não demonstraram que a água-viva pode curar Alzheimer, recuperar órgãos humanos ou interromper o envelhecimento das pessoas.
Água-viva imortal também pode morrer
Apesar do apelido, a Turritopsis dohrnii não é invulnerável. O animal pode morrer ao ser atacado por predadores, sofrer doenças ou enfrentar condições ambientais incompatíveis com sua sobrevivência.
Além disso, pesquisadores observaram que nem todos os exemplares mantidos em laboratório conseguem completar o processo de rejuvenescimento. Ainda não está esclarecido se existe um limite para a quantidade de vezes que a transformação pode acontecer.
O principal interesse científico, portanto, não está em encontrar uma fórmula para a imortalidade humana, mas em compreender como um organismo consegue reorganizar suas células e reiniciar o desenvolvimento. Essa capacidade poderá ajudar a identificar novos caminhos para tratar doenças associadas ao envelhecimento, embora sua aplicação clínica ainda dependa de muitos anos de pesquisa.