Ao declarar que Jair Bolsonaro “tentou me matar” e que votará em Lula neste segundo turno “para não perder a democracia”, a ex-deputada Joice Hasselmann rompeu de vez, em público, com o bolsonarismo e voltou a cobrar responsabilização da família do ex-presidente por ataques e ameaças que diz ter sofrido desde 2019.
Joice vota em Lula e diz priorizar defesa da democracia
Em entrevista exclusiva à TV 247, exibida na noite desta quinta-feira (22), Joice afirmou que seu voto em Lula no segundo turno de domingo (25) é uma escolha “pela preservação da democracia”, mesmo mantendo divergências com o PT. “Afinal, perder uma eleição, tudo bem. Perder a democracia, jamais”, disse.
A ex-parlamentar, que liderou o governo Bolsonaro no Congresso, declarou que pretende voltar à oposição a partir de 2027, mas “dentro do processo democrático, onde é possível fazer oposição”. “Voto em Lula, sem meias palavras, sem hipocrisia”, afirmou, ao insistir que não se trata de adesão ao programa petista, e sim de uma frente de proteção institucional.
Joice reconheceu que ajudou a projetar Bolsonaro nacionalmente e se disse arrependida. “Em 2018, acreditei em Bolsonaro, sim. Eu vi o clã por dentro. Eu errei em ajudar, mas não poderia ficar de braços cruzados”, declarou. Segundo ela, sua convivência com o núcleo familiar e principais aliados revelou, já no primeiro ano de governo, práticas incompatíveis com o discurso anticorrupção que a levou a apoiá-lo.
Ruptura, agressões e acusação de tentativa de assassinato
O rompimento com o bolsonarismo, contou Joice, veio acompanhado de retirada de apoio político, campanhas de difamação, grampos e violência física. Ela voltou a relatar o episódio em que, em 2021, seu apartamento em Brasília foi invadido e ela apareceu com múltiplos ferimentos. “Bolsonaro tentou me matar”, disse, ao relacionar as agressões ao clima de perseguição que, segundo ela, foi fomentado a partir do Palácio do Planalto e de estruturas ligadas ao ex-presidente.
Joice afirma que perdeu cargo, base eleitoral e antigos aliados ao se colocar contra Bolsonaro e sua família. “Já perdi muito e não tenho medo de perder”, resumiu. Ela relatou que, além das agressões, foi alvo de monitoramento e ataques coordenados em redes sociais, que atribui ao chamado “gabinete do ódio”.
Entenda o contexto
Eleita na onda conservadora que levou Bolsonaro ao Planalto, Joice se tornou uma das figuras mais influentes do bolsonarismo no Congresso, até romper com o grupo após conflitos internos e denúncias de uso político de estruturas públicas. Desde então, passou a denunciar o que chama de “projeto autoritário” e a se aproximar de setores que se definem como “campo democrático”.
Ao justificar o apoio a Lula, ela argumenta que a disputa atual opõe, de um lado, divergências programáticas à esquerda e, de outro, risco de ruptura institucional. “Hoje posso confirmar: os dois lados não são iguais”, afirmou. Para Joice, o PT tem “ideias que combate”, mas atua “dentro das regras da democracia”, ao contrário do bolsonarismo, que ela classifica como ameaça à alternância de poder.
Denúncia de “minuta de golpe” ainda em 2019
Na entrevista, Joice reforçou que alertou as autoridades sobre uma “minuta de golpe” já no primeiro ano de governo Bolsonaro. “Esta minuta já existia no primeiro ano de governo”, disse. Ela afirmou ter levado a informação ao então presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, ainda em 2019, quando, segundo seu relato, enfrentava forte resistência de aliados do Planalto.
As declarações se somam a outros depoimentos de ex-integrantes do governo que apontam para a preparação de medidas de exceção ainda no início da gestão bolsonarista. Para investigadores, relatos como o de Joice podem reforçar a tese de que houve planejamento antecipado para questionar e eventualmente subverter o resultado de eleições desfavoráveis ao grupo.
Críticas à família Bolsonaro e temor de “perpetuação” no poder
Joice fez ataques duros à família Bolsonaro, em especial ao senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência. Segundo ela, uma eventual vitória de Flávio abriria caminho para que o clã tentasse se perpetuar no poder por décadas e promovesse um “assalto aos cofres públicos”.
Ela descreveu o bolsonarismo como um projeto pessoal e familiar, não ideológico, voltado à autoproteção e ao controle de estruturas do Estado. A ex-deputada associou esse projeto à escalada de ataques às instituições, à imprensa e a adversários políticos desde 2019.
O que disse o general Santos Cruz sobre o bolsonarismo?
O general da reserva Santos Cruz, que chefiou a Secretaria de Governo no início da gestão Bolsonaro, também elevou o tom contra o ex-presidente e seus aliados. Para ele, “bolsonarismo não é direita, mas vigarice, e a família é capacho dos EUA”.
O militar, que foi demitido do cargo ainda no primeiro ano de mandato, vem se somando a ex-aliados como Joice e Kim Kataguiri nas críticas ao que chama de desvio de finalidade do governo Bolsonaro e de seu entorno político. As manifestações públicas de antigos quadros centrais do bolsonarismo alimentam o discurso de que o grupo traiu pautas conservadoras e democráticas em nome de um projeto personalista.
TJDFT nega recurso de Michelle Bolsonaro contra Joice
Enquanto Joice amplificava suas críticas em vídeo e na TV, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios manteve uma derrota judicial de Michelle Bolsonaro em ação movida contra a ex-deputada. A 5ª Turma Cível do TJDFT negou, na quarta-feira (21), o recurso da ex-primeira-dama, que pedia a retirada de um vídeo com ofensas e uma indenização de R$ 30 mil.
No processo, Michelle questionava expressões usadas por Joice, como “sem vergonha”, “maçaneta do PP”, “santinha do pau oco”, “uma vergonha toda” e “figura horrorosa, horripilante, fútil e tudo de ruim que você pode imaginar”. A decisão de primeira instância já havia rejeitado o pedido, posição agora confirmada pelo colegiado.
Relatora do caso, a desembargadora Leonor Aguena afirmou no acórdão que “a vida pregressa de quem se projeta voluntariamente na arena pública e pretende representar a sociedade em cargos eletivos sofre legítimo escrutínio quanto à coerência de suas bandeiras discursivas”. Para o tribunal, o conteúdo do vídeo se insere no âmbito da crítica política, ainda que em tom duro, e está protegido pela liberdade de expressão.
Na prática, a decisão reforça o entendimento de que figuras públicas, sobretudo em período eleitoral, estão sujeitas a maior grau de crítica e fiscalização, e sinaliza que a Justiça tende a ser mais restritiva a pedidos de censura prévia em disputas de natureza política.
Efeitos no segundo turno e próximos passos
A guinada pública de Joice, somada às críticas de ex-auxiliares como Santos Cruz e Kim Kataguiri, amplia o isolamento político do bolsonarismo às vésperas do segundo turno. No campo oposto, a campanha de Lula ganha um apoio simbólico de quem, até poucos anos atrás, era uma das principais vozes da direita bolsonarista no Congresso.
A expectativa, agora, é de que os relatos sobre agressões, grampos e articulações golpistas relatados por Joice alimentem investigações em andamento e novos debates sobre responsabilidade da cúpula bolsonarista. A ex-deputada indica que continuará atuando como opositora dura à família Bolsonaro, ainda que isso lhe custe mais desgaste político e pessoal.