Mortes de 36 bebês em hospital de SP levantam suspeitas e mobilizam famílias

Polícia Civil apura inicialmente seis mortes no Hospital Salvalus, na Mooca; famílias relatam suspeitas de infecção hospitalar, enquanto a rede Hapvida afirma que pacientes apresentavam quadros graves.
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A Polícia Civil de São Paulo abriu um inquérito para investigar mortes de bebês no Hospital Salvalus, localizado na Mooca, zona leste da capital paulista. Até esta sexta-feira (23), seis casos estavam sob investigação no 8º Distrito Policial, no Brás. Uma advogada que representa familiares afirma estar em contato com 36 mães que perderam seus filhos na unidade e cobram esclarecimentos sobre os atendimentos.

As famílias suspeitam que algumas crianças tenham contraído infecções durante a internação, apresentando complicações como sepse e choque séptico. A investigação deverá esclarecer as causas de cada morte e verificar se houve falhas nos procedimentos médicos, nas condições de atendimento ou no controle de infecções hospitalares.

A reportagem que revelou o caso teve acesso a 16 certidões de óbito. Apesar dos relatos de 36 mães, isso não significa que todas as mortes já estejam formalmente incluídas no inquérito ou que tenham ocorrido pelas mesmas causas. A rede Hapvida, responsável pelo hospital, afirma que os pacientes apresentavam condições clínicas distintas e graves e receberam assistência especializada.

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O inquérito foi instaurado após familiares procurarem as autoridades para relatar as circunstâncias das mortes de crianças atendidas no Hospital Salvalus, que integra a rede Hapvida.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), os casos foram comunicados à polícia na quarta-feira (21). A investigação está sob responsabilidade do 8º Distrito Policial, localizado no Brás.

A advogada Eduarda Fragnan Gomes, que representa familiares, afirmou estar em contato com 36 mães que perderam seus filhos nos últimos meses. Ela considera possível que existam outros casos ainda não identificados.

O hospital é uma unidade de referência para pacientes da rede, o que, segundo a advogada, dificulta dimensionar a quantidade total de mortes que podem ser objeto de questionamentos.

A Polícia Civil deverá analisar os prontuários médicos, ouvir profissionais de saúde e testemunhas e reunir documentos para esclarecer as circunstâncias de cada óbito.

A existência de uma investigação não significa que tenha sido comprovada negligência médica ou responsabilidade criminal de profissionais e da instituição.

Bebê de 4 meses foi internado com inflamação na garganta e morreu após complicações

Entre os casos relatados está o de Gael França da Silva, que tinha quatro meses quando foi levado ao Hospital Salvalus, em abril deste ano, com sintomas de inflamação na garganta.

Segundo o depoimento da mãe à Polícia Civil, a criança recebeu inicialmente prescrição de amoxicilina e dipirona em gotas, sem a realização de exames naquele primeiro atendimento.

No dia seguinte, Gael apresentou queda de temperatura corporal e palidez. Uma nova avaliação médica identificou sinais de possível infecção pulmonar, posteriormente constatada em exames.

Com a piora do quadro, o bebê foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde precisou ser intubado e receber medicamentos intravenosos.

De acordo com o relato da família, diante da dificuldade para encontrar um acesso venoso, a equipe administrou medicação por uma veia no pé da criança.

Dias depois, o local apresentou necrose, caracterizada pela morte de tecidos. Um especialista vascular avaliou o membro, mas não conseguiu reverter a lesão.

A mãe também relatou problemas nos olhos do bebê durante a internação, com ressecamento e comprometimento da visão.

Após mais de um mês na UTI, Gael foi transferido para a enfermaria, ainda inconsciente. Segundo a família, a justificativa apresentada envolvia a elevada concentração de bactérias na unidade intensiva.

Preocupada com o estado do filho, a mãe comprou um oxímetro para acompanhar a saturação de oxigênio. Ao identificar uma queda, solicitou que a criança retornasse à UTI.

Gael morreu dois meses depois, aos sete meses de idade.

A certidão de óbito registra choque séptico, sepse, pneumonia e encefalopatia hipóxico-isquêmica entre as causas relacionadas à morte.

Recém-nascido sofreu paradas cardíacas e apresentou sangramentos

Outro caso investigado envolve Guilherme Ferreira Miranda, que tinha apenas um mês de vida quando foi internado no Hospital Salvalus, em março.

O bebê apresentava histórico de icterícia e passou por um procedimento cirúrgico, além de receber medicamentos durante o atendimento.

Segundo os relatos apresentados pela família, Guilherme começou a apresentar movimentos repetitivos das pernas e inchaço pelo corpo após a administração de medicamentos.

A mãe afirmou que suspeitou de uma infecção bacteriana, embora tenha recebido a informação de que algumas manifestações poderiam estar relacionadas ao período pós-operatório.

Durante uma troca de fraldas, ela identificou sangue seco no corpo do filho. Pouco depois, os equipamentos de monitoramento indicaram uma parada cardiorrespiratória.

O bebê foi socorrido, intubado e precisou receber transfusões de sangue. A alimentação também foi suspensa diante de uma suspeita de intoxicação.

A internação durou aproximadamente um mês.

No início de maio, Guilherme sofreu uma nova parada cardiorrespiratória e morreu.

Conforme o boletim de ocorrência, o pai relatou ter ouvido uma conversa entre dois profissionais de enfermagem durante o atendimento de emergência.

“Não era para usar o ambu.”

A frase teria sido dita por um dos profissionais, em referência ao equipamento utilizado para ventilação manual durante procedimentos de reanimação.

Segundo o relato registrado, outro profissional teria respondido que já havia utilizado o equipamento.

A conversa é apresentada como parte do depoimento da família e deverá ser analisada pelos investigadores. Não há confirmação de que o episódio tenha contribuído para a morte.

A certidão de óbito de Guilherme aponta choque, coagulação intravascular disseminada e atresia das vias biliares.

Mãe relata que filha contraiu bactéria resistente durante internação

A morte de Alice Vitória de Andrade Reis também está entre os episódios relatados pelas famílias.

A menina tinha seis meses quando foi internada no Hospital Salvalus, em novembro de 2025, para a realização de uma gastrostomia, procedimento que permite a administração de alimentos e medicamentos diretamente no estômago.

Alice apresentava condições clínicas anteriores, incluindo síndrome de Dandy-Walker, hidrocefalia e uma cardiopatia congênita.

Após o procedimento, foi encaminhada à UTI. Durante os meses seguintes, enfrentou complicações como rompimento de sutura cirúrgica, parada cardiorrespiratória e edema pulmonar.

Segundo a mãe, Leticia Ferreira, de 29 anos, a situação se agravou quando a criança desenvolveu uma infecção bacteriana no cérebro.

A família suspeita de contaminação durante a internação. Leticia relatou que a filha contraiu a bactéria KPC, associada à resistência a determinados antibióticos e a infecções de difícil tratamento.

Alice morreu em abril de 2026, com um ano de idade, após permanecer aproximadamente seis meses internada.

A certidão de óbito aponta insuficiência respiratória aguda, ventriculite infecciosa, sepse de foco pulmonar, hidrocefalia e síndrome de Dandy-Walker.

A mãe afirmou que a filha havia sido levada à unidade para um procedimento relacionado à alimentação e que não esperava uma internação tão prolongada.

“Fomos pra uma cirurgia simples e achei que iria embora, e nunca mais saí com ela de lá.”

Leticia também afirmou esperar que a investigação esclareça as circunstâncias da morte e determine se houve responsabilidade do hospital.

O que é sepse e por que a condição preocupa?

A sepse é uma condição grave que ocorre quando a resposta do organismo a uma infecção provoca alterações capazes de comprometer o funcionamento de órgãos.

Ela pode surgir a partir de diferentes tipos de infecção, incluindo pneumonia, infecções urinárias, abdominais e aquelas relacionadas à assistência à saúde.

Nos casos mais graves, o paciente pode desenvolver choque séptico, situação em que há alterações circulatórias e metabólicas importantes, com risco elevado de morte.

Bebês, especialmente recém-nascidos e crianças com condições clínicas complexas, podem apresentar maior vulnerabilidade a infecções graves.

Entretanto, a presença de sepse em uma certidão de óbito não comprova, isoladamente, que a infecção tenha sido adquirida dentro do hospital ou que tenha ocorrido negligência médica.

Para estabelecer uma possível relação com o atendimento, é necessário analisar exames laboratoriais, prontuários, evolução clínica, procedimentos realizados e protocolos de prevenção de infecções.

Esses elementos deverão ser considerados durante a investigação policial.

O que diz a Hapvida sobre as mortes?

Procurada pela reportagem que revelou os casos, a rede Hapvida, responsável pelo Hospital Salvalus, afirmou que os pacientes mencionados apresentavam condições clínicas diferentes e de elevada gravidade.

A empresa declarou que todos receberam acompanhamento contínuo, com atuação de equipes de diferentes especialidades.

“Os pacientes mencionados apresentaram condições clínicas distintas e de elevada gravidade, tendo cada um deles recebido assistência contínua e multidisciplinar.”

A rede também informou que as decisões terapêuticas foram individualizadas conforme as necessidades e a evolução do quadro de cada paciente.

Segundo a instituição, o hospital mantém um canal de acolhimento para ouvir familiares e prestar esclarecimentos, respeitando a privacidade dos pacientes e o sigilo médico.

A manifestação da Hapvida apresenta a posição da instituição diante dos questionamentos. A apuração policial deverá avaliar os elementos disponíveis para determinar se houve alguma irregularidade.

Próximos passos da investigação

A Polícia Civil deverá continuar a coleta de depoimentos e a análise dos documentos médicos relacionados às mortes investigadas.

Entre os pontos que precisam ser esclarecidos estão as condições clínicas das crianças quando chegaram ao hospital, os tratamentos realizados, a origem das infecções relatadas e a existência de eventuais falhas assistenciais.

Os investigadores também poderão avaliar se há elementos que justifiquem ampliar o inquérito para outros óbitos relatados pelas famílias.

Até esta sexta-feira (23), a investigação abrangia inicialmente seis casos, enquanto a advogada dos familiares afirmava acompanhar relatos de 36 mães.

Não havia conclusão policial que atribuísse as mortes a uma causa comum ou comprovasse negligência por parte do hospital.

O resultado das diligências será fundamental para esclarecer o que aconteceu com cada criança e determinar se existem responsabilidades a serem apuradas na esfera criminal.

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