O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu duramente, no debate presidencial da TV Globo, à provocação de Flávio Bolsonaro, que o chamou de “9 dedos” ao atacar a política de salário mínimo. A fala do candidato do PL foi vista como capacitista nas redes sociais, impulsionou a hashtag #SomosTodos9Dedos e terminou em um pedido público de desculpas.
Provocação em debate vira crise na campanha
O confronto ocorreu durante um bloco sobre o poder de compra do salário mínimo. Ao criticar o valor de R$ 1.621,00 citado no debate, Flávio Bolsonaro afirmou que “não adianta nada o salário mínimo ser de R$ 1.621,00 se você dá com uma mão e tira com nove dedos”, em referência à amputação do dedo mindinho da mão esquerda de Lula.
Visivelmente irritado, o presidente respondeu na sequência. “Ele disse uma grande asneira e eu não vou levar para casa. Ele me chamou de 9 dedos, e eu quero que ele saiba de uma coisa. Se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu. Trabalhando à noite quando eu podia trabalhar. Não vou permitir que um miliciano me chame de 9 dedos”, afirmou Lula no palco.
A reação arrancou aplausos da plateia e deslocou o centro do debate para o limite ético dos ataques pessoais na campanha. Diante da cobrança de Lula, Flávio Bolsonaro recuou ao vivo: “Não queria te ofender. Desculpas, de verdade”.
Entenda o contexto
Lula perdeu o dedo mindinho da mão esquerda em um acidente de trabalho na Metalúrgica Independência, quando era torneiro mecânico. Segundo ele já relatou em entrevistas, o episódio ocorreu de madrugada, por volta das 3h, enquanto operava uma prensa transversal que produzia botões de cofre e puxadores de porta.
“Foi na Metalúrgica Independência. Essa metalúrgica fazia botão de cofre, fazia puxador de porta. Tinha uma prensa que prensava as peças e quebrou o dispositivo. Eu fiz o parafuso e fui colocar. Quando eu estava colocando, o cara, acho que deu uma cochilada, e soltou a mão e a prensa fechou. Eu estava com a mão e puxei. A minha sorte é que eu abri a mão e só ficou o dedinho”, contou o presidente em uma dessas ocasiões.
O atendimento médico, segundo Lula, só veio horas depois, por volta das 7h, e terminou com a amputação completa do dedo. “Eu acho que se fosse hoje, o médico deixava um toquinho. Mas naquele tempo, um peão, 4h da manhã, fedendo a óleo, a mão cheia de graxa… ‘Esse peão mesmo. Para que esse toquinho assim?’. E arrancou tudo logo”, relatou.
Ao longo da vida pública, Lula já disse que chegou a sentir vergonha da ausência do dedo, evitava mostrar as mãos e até deixava de usar aliança para que as pessoas não reparassem.
Repercussão: acusação de capacitismo e hashtag em alta
Minutos após a frase de Flávio Bolsonaro ir ao ar, o trecho do debate começou a circular em redes como o X, acompanhado de críticas ao candidato do PL. Usuários passaram a classificá-lo como capacitista — preconceito ou discriminação contra pessoas com deficiência, inclusive por meio da ridicularização de características físicas.
A hashtag #SomosTodos9Dedos foi puxada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) e rapidamente ocupou lugar entre os temas mais comentados. A expressão foi apropriada por apoiadores de Lula e por movimentos sociais como uma forma de ressignificar o insulto, transformando-o em símbolo de identificação com a trajetória do presidente e de defesa da dignidade de trabalhadores que sofreram acidentes.
Entidades e perfis ligados à luta pelos direitos das pessoas com deficiência aproveitaram a mobilização para cobrar mais respeito no debate político e denunciar o uso de condições físicas como arma eleitoral.
Impacto político e disputa de narrativas
A declaração de Flávio Bolsonaro abriu flanco para críticas em um momento decisivo da campanha. Ao atingir a condição física do adversário, o ataque acabou fortalecendo a narrativa de Lula como representante do mundo do trabalho e vítima de um acidente típico das condições precárias enfrentadas por operários.
Aliados do presidente passaram a destacar que a amputação do dedo ocorreu quando ele tinha 17 anos, em uma jornada noturna, e que o episódio simboliza tanto a falta de segurança no ambiente industrial quanto o descaso histórico com trabalhadores feridos em serviço.
Do outro lado, a equipe de Flávio tenta conter o desgaste enfatizando o pedido de desculpas feito no próprio debate e buscando recolocar o foco na discussão econômica, especialmente no poder de compra do salário mínimo de R$ 1.621,00. A avaliação, porém, é que o dano à imagem do candidato pode se prolongar, alimentado por cortes de vídeo e pela narrativa de preconceito.
O episódio também pressiona campanhas e partidos a explicitar propostas mais claras para a inclusão de pessoas com deficiência e para a prevenção de acidentes de trabalho, temas que tendem a ganhar espaço em entrevistas, programas eleitorais e próximos debates.